Quando a Operação Nariz Vermelho iniciou atividade, em 2002, a presença de um palhaço num hospital era vista como algo improvável. O ambiente clínico, associado à contenção e à seriedade, parecia pouco compatível com o nariz vermelho.
Duas décadas depois, o cenário é diferente: os Doutores Palhaços são presença regular em cerca de 180 serviços pediátricos de 22 hospitais do país e protagonizam, anualmente, aproximadamente 63 mil encontros com crianças internadas, familiares e profissionais de saúde.
Constituída como IPSS a 4 de junho de 2022, a instituição consolidou ao longo de 24 anos uma missão clara: garantir visitas regulares de palhaços profissionais aos serviços pediátricos dos hospitais portugueses. Atualmente, a intervenção abrange unidades na Grande Lisboa e Vale do Tejo, Grande Porto, Aveiro, Coimbra, Braga, Guimarães, Leiria e Vila Franca de Xira.
Fernando Escrich, diretor artístico da Operação Nariz Vermelho, explica que o impacto das visitas é visível mesmo depois de a dupla de Doutores Palhaços deixar a enfermaria. “Fica no ar uma sensação de bem-estar e calma nos corredores e nos quartos”, descreve.
Durante o encontro, acrescenta, “as crianças esquecem-se de que estão doentes, longe das suas casas e das suas rotinas, e entram em contacto com um universo mais lúdico e divertido”. A intervenção não altera a condição clínica, mas pode transformar, ainda que temporariamente, a experiência de internamento.
No centro da missão está um princípio simples: mesmo em contexto de doença, a criança mantém o direito à alegria e à brincadeira. “Resgatam a alegria de serem apenas crianças. É esse o poder deste encontro entre palhaços e crianças: lembrar que, mesmo doente, a criança continua a ter direito à alegria e à brincadeira.”
Como acontece o encontro entre os Doutores Palhaços e as crianças
Antes de entrarem nos quartos, os Doutores Palhaços participam diariamente num momento de articulação com as equipas clínicas, designado internamente por “transmissão”. É aí que recebem a informação essencial sobre as crianças que irão visitar: nome, motivo de internamento, estado emocional e eventuais limitações.
“algumas crianças pedem para receber alta apenas depois da visita dos palhaços ou pedem para regressar ao hospital nos dias em que sabem que eles estarão presentes”
Fernando Escrich explica que,em algumas situações, os profissionais de saúde solicitam o apoio dos palhaços para acompanharem a criança durante procedimentos, exames ou atividades que possam causar maior desconforto, funcionando como elemento de apoio emocional nesse momento.
Nem sempre a aproximação é imediata. Há crianças e jovens que, no início, recusam ou mantêm distância “por medo de palhaços, do desconhecido ou porque estão com dores, cansadas, frustradas ou tristes”. A equipa considera que o momento mais significativo acontece quando consegue conquistar essa confiança, através de uma abordagem feita com subtileza e respeito pelo ritmo de cada criança.
Essa relação pode tornar-se tão forte que, segundo o diretor artístico, “algumas crianças pedem para receber alta apenas depois da visita dos palhaços ou pedem para regressar ao hospital nos dias em que sabem que eles estarão presentes”.
Como se constrói cada visita
Os Doutores Palhaços pedem sempre licença antes de entrar nos quartos. Trabalham com uma linha artística definida e em duplas com residências fixas: nos mesmos hospitais, nos mesmos dias e horários – uma regularidade que, segundo Fernando Escrich, “ajuda a criar confiança junto das equipas e das crianças”.
A intervenção assenta em três princípios fundamentais: o olhar, a escuta e a perceção. “O primeiro gesto é olhar, o segundo é escutar o ambiente e o terceiro é perceber o que está à nossa volta. Só depois desses passos é que entramos em ação”, explica.
Se são recebidos com um olhar atento, um sorriso ou um simples “podem entrar”, o jogo começa e é sempre conduzido pela criança. Quando encontram resistência ou silêncio, a estratégia muda: a dupla inicia a interação entre si, criando um espaço aberto até que a criança, gradualmente, se sinta convidada a participar.
“Atuamos sempre em dupla precisamente para conseguirmos adaptar-nos melhor a cada situação”, refere Fernando Escrich. A presença de dois artistas permite ainda envolver familiares ou profissionais de saúde na brincadeira. Quando a criança vê quem a rodeia a participar sem receio, “torna-se mais fácil permitir-se entrar também no jogo”, acrescenta.
O momento constrói-se a partir das pistas dadas pela criança. São esses sinais que orientam a improvisação, até que o ambiente do quarto se transforme e permaneça mais leve, mesmo depois de os palhaços saírem.
Doutor Palhaço: uma carreira profissional e remunerada
Para Fernando Escrich, a diferença entre um palhaço comum e um Doutor Palhaço está sobretudo no contexto e na missão. Enquanto um palhaço pode atuar “na rua, no teatro, no circo ou em qualquer outro espaço, com liberdade total na construção do seu personagem e do seu espetáculo”, o Doutor Palhaço trabalha dentro de um enquadramento institucional e hospitalar.
“Estamos em crescimento e precisamos de mais Doutores Palhaços”
Para integrar a Operação Nariz Vermelho, é obrigatório ser um artista profissional. “É um ofício que exige muita técnica, dedicação, estudo e pesquisa séria”, afirma.
Apesar dos 24 anos de atividade, o diretor artístico reconhece que esta continua a ser uma das poucas estruturas em Portugal dedicadas de forma organizada à intervenção artística em contexto hospitalar pediátrico. “Entre a classe artística, esta opção de carreira ainda não é muito conhecida, porque o nosso trabalho acontece dentro dos hospitais”, refere.
Para reforçar essa visibilidade, a instituição criou o projeto “Ginásio”: um espaço de treino aberto a artistas que queiram conhecer a linha artística da organização e experimentar a linguagem do palhaço em contexto hospitalar.
“Estamos em crescimento e precisamos de mais Doutores Palhaços”, garante o diretor artístico. A mensagem dirige-se a artistas que procurem uma carreira estruturada, com enquadramento contratual e possibilidade de desenvolvimento a longo prazo.
A expansão da organização implica a contratação de novos profissionais e a meta assumida é ambiciosa: estar presente em todas as pediatrias do país. O trabalho é remunerado e assenta numa formação contínua, com estabilidade profissional e possibilidades de progressão interna. Essa formação inclui momentos regulares de partilha e aperfeiçoamento, como os “Encontrões”: reuniões quinzenais, onde os artistas trocam experiências, aprofundam a linguagem de palhaço e trabalham corpo, música e dinâmica de dupla.
Os artistas podem ainda integrar diferentes duplas, trabalhar em hospitais distintos e atuar em várias regiões, desenvolvendo especialização na intervenção artística em contexto hospitalar.
“Quando perceberem que aqui existe uma perspetiva de carreira com um propósito nobre, mais artistas poderão optar por este caminho”
Futuro da Operação Nariz Vermelho
A Operação Nariz Vermelho prepara-se para reforçar o seu núcleo artístico, sobretudo na região Norte, que abrange o Grande Porto, Braga, Guimarães, Aveiro e Coimbra. Ao longo do mês de março, serão realizadas audições para artistas interessados em integrar a equipa.
Para o núcleo da região Sul, continuam abertas candidaturas espontâneas, bem como a participação nos “Ginásios de Palhaço”, que funcionam como espaço de contacto e aproximação à linha artística da instituição.
O diretor artístico da Operação Nariz Vermelho sublinha que, para integrar a equipa, não basta ter formação numa vertente das artes performativas: “é necessário revelar empatia e identificação com a missão da organização, capacidade de trabalho em equipa e domínio sólido de competências artísticas”, explica.
O principal desafio na expansão passa precisamente por encontrar artistas com experiência na linguagem clown. Segundo o diretor artístico, muitos candidatos vêm de áreas como a animação ou mesmo da saúde, mas nem sempre correspondem ao perfil técnico exigido. “Ainda não é uma saída profissional muito comum, e isso faz com que existam poucos artistas especializados”, explica.
Olhando para o futuro, Fernando Escrich acredita que a arte do palhaço em contexto hospitalar poderá ganhar maior expressão em Portugal e prevê que se torne uma saída profissional mais reconhecida, à medida que se consolide como percurso artístico estruturado e com propósito. “Quando perceberem que aqui existe uma perspetiva de carreira com um propósito nobre, mais artistas poderão optar por este caminho”, afirma.
Num hospital, a arte não cura doenças, mas pode transformar o momento. Entre exames, diagnósticos e tratamentos, a presença de um nariz vermelho pode parecer um detalhe. No entanto, é nesse detalhe que algo muda: por instantes, a criança deixa de ser paciente e volta a ser apenas criança.
“A arte existe porque só viver não basta”, diz Fernando Escrich, lembrando que, mesmo nos contextos mais exigentes, há sempre espaço para a humanidade.