Ricardo Raposo em “50 Madrugadas”: teatro, música e memória de Abril
O espetáculo 50 Madrugadas propõe uma viagem imersiva pela obra e pelo pensamento de Ary dos Santos, cruzando teatro, fado e poesia numa homenagem a uma das figuras mais marcantes da cultura portuguesa. Em palco, acompanhamos uma narrativa que revisita não só os seus textos, mas também o seu papel enquanto voz ativa da liberdade e da revolução.
Entre os intérpretes está Ricardo Raposo, ator e músico que integra o projeto a convite da Companhia da Esquina. Com um percurso ligado tanto à representação como à música, traz ao espetáculo uma ligação especial ao universo de Ary dos Santos, dando corpo e voz a palavras que continuam surpreendentemente atuais. Nesta conversa, partilha o seu envolvimento no projeto, as memórias que o ligam à obra do poeta e a importância de manter viva a mensagem de Abril junto das novas gerações.
Como surgiu o teu envolvimento no espetáculo 50 Madrugadas?
Já trabalho com a Companhia da Esquina há alguns anos, em vários projetos, por isso, este acabou por surgir naturalmente. O Jorge Ribeiro, que é o encenador e criador do espetáculo, convidou-me já com alguma confiança no meu trabalho. Além disso, como o espetáculo tem uma componente musical, ele pensou em mim, por eu ser músico e cantor. E, claro, eu já conhecia bem a obra do Ary dos Santos.
Trabalhar a partir da obra do Ary dos Santos é sempre um desafio. Houve algum poema ou momento que te tenha marcado particularmente?
É difícil escolher apenas um, porque os poemas do Ary são todos muito fortes, densos e importantes. Mas há um que tem um significado especial para mim: “Objeto”. É um poema curto, com humor e crítica, muito característico dele. Eu já o sabia de cor desde os 9 anos, porque o ouvia num CD que os meus pais tinham “Uma Noite em Casa de Amália Rodrigues”, onde estavam várias figuras importantes da cultura portuguesa, como Vinicius de Moraes, Natália Correia e David Mourão Ferreira. Acabei por decorar o poema só de o ouvir repetidamente. E é curioso voltar a ele agora neste espetáculo.
Este espetáculo cruza teatro, fado e poesia. Como foi integrar estas diferentes linguagens?
O fado e a poesia estão profundamente ligados. Muitos dos melhores poetas escreveram para fado, e muitos dos grandes poemas foram musicados nesse género. Apesar de o fado ter passado por fases de menor popularidade, há hoje artistas, como a Carminho ou a Sara Correia, que o estão a revitalizar. No caso deste espetáculo, faz todo o sentido essa ligação, porque o Ary também escrevia muito para fado e tinha uma identidade profundamente portuguesa.
Podes falar-nos um pouco sobre a tua personagem?
O espetáculo decorre numa redação, e nós somos jornalistas a construir um arquivo sobre o Ary dos Santos. A narrativa serve como fio condutor para apresentar a obra e a vida dele de forma mais envolvente. Eu interpreto um desses jornalistas, que vai contribuindo para essa construção. O mais importante no espetáculo é falarmos, cantarmos e dizermos Ary dos Santos.
A peça aborda temas como liberdade e democracia, muito ligados à Revolução de 25 de Abril. Achas que continua atual?
Sem dúvida. A obra do Ary é extremamente intemporal. As palavras dele continuam a fazer sentido hoje, o que é impressionante. Ele era muito à frente do seu tempo, tal como outras figuras como Natália Correia. É fundamental continuar a lembrar o 25 de Abril, sobretudo às gerações mais novas, para que compreendam a sua importância, porque há inclusive gente que diz que devia haver outro abril, um novo abril. Porque parece que há muita gente que não compreende qual é o peso do 25 de abril e dessa revolução.
O espetáculo é descrito como uma experiência imersiva, o que é que o público pode esperar e o que dirias para convencer as pessoas a ir assistir ao espetáculo?
O público pode esperar uma hora muito bem passada, com fados lindíssimos, poesia bem dita e uma forte carga emocional. No elenco está também o Pedro Pernas e a Sofia Ramos, depois à guitarra portuguesa temos o António Martins e à viola de fado, o Pedro Saltão.
É um espetáculo onde se ri, se chora e se aprende mais sobre o Ary dos Santos e a sua importância cultural e política. Ele sabia escrever muito bem para cantores, para músicas, ele escrevia as letras de forma a que as acentuações das palavras caíssem bem nas vozes de quem o cantava. Ele não foi apenas um poeta, foi também um revolucionário, e isso está muito presente no espetáculo.
Se tivesses de resumir 50 Madrugadas numa palavra, qual seria?
Liberdade. Passando o clichê que tem de ser, não é? (risos)
Para terminar, queres partilhar alguns dos teus próximos projetos?
Vou estar em digressão em junho e julho com o espetáculo Um Quinteto de Morte. Depois de termos estado no Teatro Armando Cortês, vamos ao Teatro Sá da Bandeira, no Porto, e à Figueira da Foz.
Além disso, tenho outros projetos em desenvolvimento, incluindo uma peça chamada Estereótipo, com a Diana Nicolau, que deve ser apresentada na Escola de Mulheres, que aborda temas como feminismo, Red Pill, o machismo intrínseco na sociedade.



