Por Catarina Rodrigues
A cadeira no topo da mesa da casa de jantar continua vazia. No primeiro Natal, após a sua partida, olhámos para aquele lugar vazio, eu e o meu tio, e a mesma questão passou-nos pela cabeça. Deveríamos colocar um prato, talheres e copo? Nunca mais ninguém se sentou nela. Continua vazia no Natal e em todos os jantares de família. Parece uma falta de respeito ocupá-la.
Continuo a desligar o gás todos os dias e a fechar à chave as portas de todas as divisões da casa. Mantenho estes hábitos como um ritual. Para o relembrar. O meu avô tinha umas manias estranhas e a sua maioria não fazia muito sentido, mas não consigo ocupar a cadeira do topo da mesa, nem deixar o gás ligado e as portas abertas.
Lembro-me de como era especialmente irritante a sua tradição de bater com duas tampas de panelas, uma contra a outra, na noite de passagem de ano. Dava cabo dos nervos da minha avó. O discurso que fazia no brinde do 25 de abril e nos nossos aniversários. Agora, ninguém me faz um discurso exaltando os meus feitos, colocando-os ao nível dos heróis, ninguém me dedica um brinde.
O meu avô não deixou muita coisa, para lá de muitos livros, lembranças de viagens e um serviço de loiça para cada neta, designados desde crianças. Naquela altura, pareceu-me uma coisa importante, até distinta, mas pouco interessante. Porque é que pratos interessariam a uma criança de quatro anos?
Tenho arejado o quarto onde ele dormia nos seus últimos dias. Doámos toda a roupa, menos as fardas da Marinha Mercante. Ele não nos perdoaria se as oferecêssemos. Era bem capaz de fazer uma visita curta do outro mundo só para nos puxar as orelhas.
Só dois anos após a sua partida é que voltei à sua biblioteca. Passava por ela com alguma frequência, mas fingia ignorar. Não tinha coragem de voltar àqueles livros. Abri as portas dos armários e senti o pó nas minhas narinas (maldita alergia) e o cheiro a papel e a encadernações antigas. E lá estavam eles como que à minha espera desde a última vez.
Não sabia que ainda me lembraria com clareza do momento em que o meu avô me deu alguns deles para ler. Como o «Noções Elementares de Química», que vinha desde o tempo do seu liceu e que me emprestou quando eu estava no oitavo ano e queria investigar sobre o perigo das misturas de hidrogénio e ar (numa altura em que as pessoas ainda faziam pesquisas em livros). Ou o «Formulário – Matemáticas Elementares e Matemáticas Gerais» que me safou com a explicação da Regra de Sarrus, quando me esqueci da minha sebenta de Álgebra. Folheei algumas páginas e senti o cheiro a mofo e a terra. Após tantos anos, ainda entendia a sua linguagem.
Os infinitos livros sobre medicina e plantas tradicionais (o meu avô era hipocondríaco e todos os dias descobria que sofria de uma patologia rara); a extensa colecção de História de Portugal de Joaquim Veríssimo Serrão (era obcecado com figuras como Afonso de Albuquerque); livros sobre mecânica industrial; livros técnicos da Escola Náutica; vários volumes sobre a URSS; romances como «Os Miseráveis», «A Ilustre Casa de Ramires, «A Peregrinação»; uma extensa colecção de Júlio Dinis (o meu avô dizia que os melhores escritores eram médicos), Fernando Namora, Alexandre Herculano e Saramago.
O meu avô não gostava de Saramago. Ele era todo Lobo Antunes. «Peço desculpa por não apreciar o nosso único Nobel da Literatura», dizia. Recordei quando me confidenciou que só gostara da «História do Cerco de Lisboa». Num monte de livros mais recentes, estavam os do Mia Couto. Todos oferecidos por mim, com uma dedicatória e a data exacta. Era a única coisa que o meu avô me exigia quando lhe oferecia livros, o que, na verdade, era o que lhe oferecia quase sempre.
«Não quero nada escrito a lápis, nem páginas dobradas», dizia-me cada vez que me emprestava um livro, algo que começou a fazer, com alguma resistência, a partir dos meus quinze anos. O meu avô tinha por regra não emprestar livros a ninguém. Apontamentos, migalhas de comida ou páginas e encadernações maltratadas eram um sacrilégio. Talvez eu fosse a única excepção por ser a sua pessoa preferida. Havia apenas uma colecção especial sobre a História das Índias Orientais que ele nunca me deixava tocar. E como tenho a tendência para a contradição, quanto mais ele ma negava, mais eu queria passar os meus dedinhos pelas capas lustrosas e pelas ilustrações detalhadas.
Encontrei entre as estantes um pequeno artefacto que cabia na minha mão e que ele trouxera de Cairo. Não lhe tocava há cerca de vinte anos certamente. O meu avô tinha uma adoração por esta pequena múmia dentro do seu sarcófago e utilizou-a para me explicar as leis do magnetismo: pólos iguais repelem-se e pólos diferentes atraem-se. Quando rodamos os pólos nos lados opostos do sarcófago, conseguimos colocar a múmia.
Nada como revisitar o passado para dar sentido ao presente. Os livros despertam-me a memória. Trazem imagens quase reais. Via coisas à minha frente com uma tal nitidez que parecia conseguir tocá-las. É impressionante como um livro contém em si a memória de todos os outros. Dei asas à imaginação e a teorias da conspiração e perguntei-me se me teria o meu avô deixado uma biblioteca de livros secretos. Exagero, claro, e, contudo, não consigo deixar de pensar que talvez todos estes livros que o meu avô me deixara como herança são, na verdade, uma mensagem encriptada.
Cada livro diferente fora escrito para mim. Cada autor conhecia o meu coração. Cada livro seria uma espécie de conforto ou, então, alimentaria uma dúvida ainda maior do que a que eu já tinha. Toda a minha história de vida estaria contada naqueles livros. Tenho esta crença de que os livros ensinam-me a aceitar o meu tempo e as minhas limitações e que todos os livros acabam por ser uma repetição da mesma ideia mil e uma vezes debatida. Não há nenhum tema novo ou original, porque os humanos que viveram duzentos anos antes de mim tinham as mesmas dúvidas.
Havia um livro essencial que estava a faltar. Tantos e tantos livros mudaram a minha vida, mas talvez este fosse o primeiro que me marcou de forma irremediável, ainda que não o soubesse e só neste preciso momento ganhasse essa consciência. Há coisas, que não sabemos bem quais, que têm de estar alinhadas de algum modo para que certas verdades nos sejam reveladas. Onde estaria o «Doutor Jivago»? Procurei em várias estantes, em livros empilhados como as colunas de um templo grego e nem sinal dele. Como é que tinha ficado estes anos todos sem o ler ou mesmo tocar?
Queria lembrar-me exactamente do que sentira ao lê-lo pela primeira vez. Uma sensação de espanto e fascinação. E horror. Um medo dos homens e de todos os sistemas que inventam, pois nenhum é verdadeiro, nenhum deles é puro. Pureza é coisa que não assiste à espécie humana.
Dizer que um livro mudou a vida de alguém pode soar a dramatismo desmesurado, mas não deixa de ser válido. Ler um livro é um gesto pessoal, da maior intimidade. Sentimos que o livro foi escrito para nós, que o autor nos conhece e nos compreende melhor do que nós próprios, ao conseguir formular as perguntas que nos torturam e descrever com a maior precisão o que nos dói.
Esqueci-me dele ou a vida fez-me esquecer. Onde o terá guardado? Não me lembro da capa nem da editora. Só tenho presente o cheiro a papel velho e amarelo. Cheiro é memória que perdura. Pergunto-me se o meu avô algum dia pensou que iria andar desesperada à procura deste livro.
Os livros não são resposta. São perguntas em aberto. Neles não se encontram soluções rápidas nem verdades escancaradas. A literatura, tal como a vida, revela os seus mistérios de uma forma áspera. E este desaparecimento ganhava proporções de policial na minha mente demasiado imaginativa.
Perguntei à avó se o teria visto. «Deve estar por aí, filha. Escondido atrás de outros ou empilhado nalgum lado». Voltei a vasculhar as estantes e acabei por encontrar os meus cadernos de poesia e desenhos. Desconfio que foi a avó a guardá-los. Os meus avós ofereciam-me sempre cadernos. Talvez seja por isso que tenho esta atracção visceral por papel.
Gostava que o meu avô pudesse ver a leitora em que me tornei e desejava poder ouvir as suas críticas aguçadas. Na sede de querer devorar tudo, tinha-me tornado desorganizada, caótica, sem pressa. Com pilhas e pilhas de livros para ler e, mesmo assim, sempre a gastar dinheiro nos que me despertam a atenção, acrescentando mais uns quantos a esta pilha interminável. Já acreditei que ler vários livros ao mesmo tempo era uma promiscuidade. O que diria ele se agora visse que leio três ao mesmo tempo? E de cada estilo diferente. Talvez até se risse.
Ainda estou a tentar decifrar a mensagem que o meu avô me deixou nestes livros. Dá-me um certo conforto, e até esperança, saber que a biblioteca do meu avô continua viva, que me habita. De certo modo, sempre habitou, mesmo nos anos em que a tentei ignorar.
Crónica de Catarina Rodrigues