A literatura não matou ninguém

Estes dias assisti a um pequeno vídeo no Instagram em que a pessoa comentava que uma das minhas piores leituras de 2024 tinha mudado completamente a sua vida: a forma como passou a ver o mundo e a ler essa nova realidade à sua volta. Fechei o vídeo rapidamente para voltar ao meu Aquilino Ribeiro e não ouvir mais uma pessoa dizendo que ama um livro que eu detesto.

Ao passo que tentava seguir a leitura de “Terras do demo”, fiquei pensando sobre como a literatura também mudou a minha própria vida. “Divergente” não é uma grande obra, mas alterou a forma como eu enxergava o mundo aos 14 anos. Nessa mesma altura, tive dificuldade com Garrett e com a interminável viagem de Lisboa a Santarém; não fazia sentido para mim todo aquele cansaço, a desilusão, a revolta e a guerra. Era mais gentil comigo crer na fantasia do que na história.

Em algum momento Garrett escreve em “Viagens na minha terra”: “A tudo se habitua o homem; a todo o estado se afaz; e não há vida, por mais estranha, que o tempo e a repetição dos atos não faça natural”. Talvez a chave para entender não só o vídeo que me incomodou, mas o tempo à nossa volta, esteja justamente nessa lição do século XIX: habituamo-nos àquilo que construímos e passamos a compreender melhor a nossa própria história quando percebemos que o tempo exige esse olhar da experiência, e a crença na presença das coisas.

Milton Santos diz muito sobre isso ao dedicar sua vida ao estudo do espaço. Ainda que não olhe diretamente para a literatura, seus postulados ajudam a ler um mundo que se faz em camadas. Ao passo que avançamos na história (e é difícil dizer que evoluímos como sociedade) assistimos diariamente a países sendo invadidos, bombas matando crianças, matas sendo derrubadas, alimentos com cada vez mais veneno. Acompanhamos, assim, um movimento vertical, comandado por grandes corporações, no qual o espaço se torna cada vez mais homogeneizado. Perdem-se as diferenças, as culturas, as singularidades, em detrimento de padronizações e violências do sistema, que inibem a existência do outro.

Dentro dessa lógica, é compreensível o arrebatamento do leitor naquele vídeo. No livro, acompanha-se a história de um pai que vai perdendo a vida em função de políticas do Estado que o expulsam da sociedade, sem oferecer espaço àqueles que de fato precisam de ajuda.

O meu problema com aquele livro foi exatamente esse. A forma sucinta como descrevi a obra no parágrafo anterior faz parecer que ela é mais interessante do que realmente é. Ao construir um tecido ficcional que não se sustenta até o final, o autor encontra a saída fácil de atribuir à política a morte claudicante do pai. Leitores atentos percebem o desvio de rota ao notarem que, durante grande parte da obra, que é curta , o discurso não era esse. Coube então, como solução, culpabilizar o outro para justificar violências. O monstro que vinha sendo construído perde a máscara e transforma-se em mártir.

A literatura não matou ninguém. O leitor tem liberdade dentro da literatura, e talvez resida aí uma de suas maiores magias. Sartre nos ajuda a compreender esse fenômeno ao afirmar que o escritor requisita do leitor a colaboração na produção da obra, por meio do ato da leitura. Mais do que isso, a literatura ocupa, segundo Sartre, esse lugar fundamental de impedir que a sociedade recaia no imobilismo e numa vida sem memória.

Ao ler Sartre e repensar a literatura, voltei ao vídeo inacabado. Continuo a desgostar da obra e do vídeo que, desta vez, terminei de assistir. Ainda assim, fico feliz que a literatura proporcione experiências tão significativas aos leitores, mesmo a partir de obras de que não gosto. Porque, afinal, é isso: a literatura nunca vai matar ninguém; muito pelo contrário, ela traz vida e significado às coisas à nossa volta.

Crónica escrita por Renan Messias

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2 comments
  1. Que maravilha! A literatura, porque é arte, nos salva de tudo. Que bom que, entre tantos vazios, a temos. Linda crônica, Renan. Obrigada por ela!

  2. Excelente crônica! Lembrei imediatamente também dos escritos do Papa Francisco, especialmente da Carta do Santo Padre Francisco sobre o papel da literatura na educação:
    https://www.vatican.va/content/francesco/pt/letters/2024/documents/20240717-lettera-ruolo-letteratura-formazione.html

    Nesse conteúdo sobre a literatura — que não mata ninguém, entendo (penso eu) —, penso também que escrever pode ser tão precioso quanto perigoso, assim como ler e falar de literatura. Há, ao meu ver, toda uma necessidade humana a ser atendida nesse simples ato/processo de ler o objeto literário.

    Como já sabemos, sem um país no qual nos seja outorgada a condição de sermos cidadãos, detentores de direitos e obrigações — com garantias fundamentais — dificilmente ficamos a salvo de tudo aquilo que é contrário às pessoas, ao livro, ao fazer literário e à própria vida do outro. Em suma, a literatura pode até não matar ninguém, mas certamente, a depender das circunstâncias da vida, pode nos colocar em perigo.

    Faço aqui uma referência ao clássico A Literatura em Perigo (2007), de Tzvetan Todorov.

    Enfim, como foi citado um dos autores da minha vida, indico dois livros que podem ampliar o universo da crônica e das reflexões sobre a vida: O País Distorcido: O Brasil, a Globalização e a Cidadania e O Espaço do Cidadão, escritos por Milton Santos.

    Também recomendo sua participação no programa Diálogos Impertinentes, especialmente no episódio “Fronteiras” (duração: 1h41min):
    https://youtu.be/rT9c__ynO2I

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