“A Pérola”: “é uma promessa, é um remédio contra a doença, é uma porta fechada à fome”

– Paula Neves

Depois do sucesso da primeira temporada, “A Pérola”, a partir da obra de John Steinbeck, regressa ao Teatro da Comuna de 19 de fevereiro a 7 de março. Com encenação e dramaturgia de Jorge Gomes Ribeiro, a peça acompanha a história de uma família de pescadores cuja vida muda radicalmente com a descoberta da chamada “pérola do mundo”.

Inspirada num conto tradicional mexicano, a peça funciona como uma parábola sobre cobiça, poder e humanidade, explorando questões que permanecem surpreendentemente atuais. Para Paula Neves, que interpreta a pescadora, esta história mantém uma forte capacidade de reflexão sobre as dificuldades de ascender socialmente e sobre o impacto da ambição e da cobiça na vida das pessoas.

 

“A Pérola” regressa agora ao Teatro da Comuna. O que é que está diferente, se é que está, neste regresso, em relação à primeira temporada?

Não estamos a apresentar uma versão diferente do espetáculo, é a mesma da primeira temporada. A diferença é que, na primeira vez, o período de apresentações foi muito curto e estivemos sempre esgotados. Sentimos que havia interesse e vontade do público para mais sessões, por isso decidimos regressar. Foi uma forma de dar continuidade àquilo que acabou cedo demais.

 

A obra de John Steinbeck parte de um conto tradicional mexicano e funciona como uma parábola. O que é que a prendeu nesta história quando começou a trabalhar nela?

Primeiro, a narrativa poética de Steinbeck, é uma delícia trabalhar com um texto assim. Depois, todo o universo do imaginário mexicano, tão diferente do nosso, chamou-me muito a atenção.

É fascinante como a história mostra uma classe mais baixa que se contenta com a sua posição, acreditando que tentar ascender poderia irritar os deuses e trazer desgraça. Pensar na crueldade implícita nessa ideia – o pescador teme encontrar a pérola que lhe traria fortuna porque isso vai contra a vontade dos deuses – é uma beleza triste.

Que tipo de personagem é a sua dentro deste universo marcado pela pobreza, pela ambição e pela desigualdade?

Sou a pescadora, mulher do Quino, o pescador de ostras que é a personagem central da história. É em torno dele que tudo acontece. Vivemos juntos a alegria de encontrar a pérola, o medo do futuro, a tentativa de mudar de vida e, depois, a reviravolta que destrói tudo: acabamos com menos do que tínhamos no início.

A encenação de Jorge Gomes Ribeiro assume uma leitura claramente político-social do texto. Acha que essa abordagem nasce do próprio texto ou ganhou mais peso por causa do momento que vivemos hoje?

O Jorge gosta de trabalhar clássicos de autores consagrados que continuam a ter impacto nos dias de hoje. Nesta peça, a parte poética do imaginário mexicano é muito diferente de nós, mas o que se passa na história podia perfeitamente acontecer atualmente. Há sempre uma atualidade nos textos que ele escolhe, e esta peça não é exceção.

 

Apesar de ser um texto escrito há décadas, sente que “A Pérola” dialoga diretamente com o presente?

Sim, claramente. A cobiça, a inveja e o desespero das classes mais altas perante quem tenta ascender estão muito presentes. Até a figura do padre na história, que é um ponto de consolo tanto para os pobres como para os ricos, mas rapidamente se envolve na disputa pela pérola, querendo também garantir o seu próprio quinhão.

Ao longo deste processo, qual foi a reflexão que mais a marcou?

A tristeza da dificuldade em mudar de posição social, especialmente para as classes mais baixas. O texto também mostra a relação do pescador com o mar, simbolizada pelo barco: é a fonte de sustento da família, a sua verdadeira fortuna, mas também pode ser perdido ou arruinado, e aí seria a morte da família. Essa analogia é muito bonita e percorre toda a peça.

 

E o público também se apercebe desses aspetos?

Sim, totalmente. As pessoas ficam muito comovidas com o espetáculo, e algumas já o foram ver mais de uma vez. É uma peça que leva o público a refletir, e isso foi um dos motivos que nos fez decidir regressar: sentimos que o impacto no público é muito forte.

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