Entre o Dito e o Não Dito
A Rotina. Esfola, Mata ou Acalma?
Nos dias que se atropelam e nas férias que se anseiam, pode o calendário das tarefas a executar, o caminho do metro a andar ou as escadas que todos os dias insistimos em não subir, esconder o caminho que deveríamos ter seguido, mas, que por ser desconhecido, evitamos?
Se a rotina fosse uma pessoa, a sua melhor amiga seria o controlo, o que vive de aparência, mas que, mesmo assim, deixamos que se refastele no melhor lado do sofá, aquele que está mais gasto, mas também o que tem o melhor ângulo para a vidinha de sempre, a correria do costume, o cansaço inerente e as respostas previsíveis. O nada de novo. O nada para contar. O zero a acrescentar.
Nem todos somos dados ao abismo, ao colapso, à tragédia romântica, às expetativas humilhadas, ao sentir mais que a conta e a perder o norte, nos textos que insistem em escrever-se sem pontuação. Os artistas.
Somos pela não distinção da rotina e contra os prémios de quem não falha um parágrafo. Somos pela fruta feia, os defeitos menos óbvios, o cabelo escorrido, o desalinhado, o ‘punk’ e o colorido que espanta qualquer íris. Somos exímios na queda e na quebra ousada do silêncio, no riso sonoro e na mão pousada nos abdominais que teimamos em reforçar, para que não nos falhem as costas na cadeira que nos sustenta os delírios em páginas. Ah, e levantamos sorrisos como quem levanta pesos pesados. Sem modas, mesmo por gosto.
Os das artes levam tudo a peito, guardam quase nada na cabeça e se agirem, o que acontece quase nunca, fazem-no de coração. Vivem nos pedaços que nem sempre querem unir, mas vivem para saltar, arriscar, desbastar, chegar ao tutano do osso e ao avesso da pele. Somos intensos e nem todos nos aturam, mas quase todos nos querem. Choramos nos livros, somos cúmplices das artes e enaltecemos o que de mais belo temos: a descoberta.
Nós, os que caminham a um palmo do chão e apontam os sonhos como matéria de distopia, somos pelo imprevisto das histórias e gostamos (mesmo!) de ser apanhados nas esquinas. Naquelas em que fugimos da rotina que não se alimenta de fruta fresca nem de papas de aveia.
Somos a invenção do imperfeito, a correria do ir para onde temos sempre lugar e do quebrar o que o hábito implantou. Somos voz de cana quebrada, porque somos melhores nas letras que tocamos como se de um piano se tratasse. Elas brotam e não queremos que elas fujam. Os dedos são lentos para a corrida do pensamento e esta, que era para ser uma crónica sobre rotina e o asco que ela me dá, acelera-me para o segundo café, que não estou habituada a beber. Falta de rotina, como eu gosto.
Se não partirmos a rotina do pensamento pequeno, do dia decalcado do anterior, da roupa repetida da semana passada, do mesmo tempero da massa sem graça, a vida não tem graça nenhuma. E a sua graça está na descoberta, na procura de novos lugares para estar, ser e entregar. Sem coragem não evoluímos e não vemos a beleza do que temos e do que tanto nos sobra.
Sou impiedosa com pessoas carentes, frustradas e amargas. É um defeito de impaciência por quem sentiu a desistência a corromper-lhe a veia aorta e vive com uma ferida aberta pela falta da asa.
Façamo-nos protagonistas do caminho escolhido, desviemo-nos das balas, confrontemos os medos e escrevamos para acontecer.
Se não for hoje, nunca será.
A rotina esfola, mata ou acalma? Acho que mata. Tudo e todos.
Filipa Mota Nesbitt
————-
Entre o Dito e o Não Dito
Histórias que enlaçam e relembram, o que é realmente importante na vida, às vezes de forma escancarada, outras vezes nas entrelinhas. Às vezes pura invenção, muitas vezes numa realidade aumentada. Fruto dos frutos que nunca comi, tenho terreno fértil na imaginação, dos livros que ainda me faltam ler e dos tantos que ainda vou escrever. Uma imaginação com tendência dramática, mas de entrega superlativa e absoluta ao amor de todas as formas e feitios. Todos os meses.
———
Filipa Mota Nesbitt escreve ficção e crónica, movendo-se entre a literatura, a observação do quotidiano e a reflexão íntima. Autora do romance Senhora de Si, encontra nos livros uma forma de escutar o mundo e regressar às perguntas essenciais.