“A saúde mental precisa de ser sentida e vivida” – 10º ano de Festival Mente

Ao longo de uma década, o Festival Mental afirmou-se como um espaço singular no panorama cultural português, onde a arte se cruza com a reflexão sobre saúde mental de forma acessível, sensível e inovadora. Mais do que um evento, tornou-se uma plataforma de diálogo, empatia e literacia, capaz de dar voz a experiências humanas diversas e de antecipar temas emergentes na sociedade contemporânea. Nesta entrevista, Ana Pinto Coelho, diretora artística do festival, reflete sobre o percurso, o impacto alcançado e os desafios de trabalhar na interseção entre cultura e saúde, revelando como a criatividade pode ser uma poderosa ferramenta de transformação social.

 

O Festival Mental chega à sua 10ª edição. Como descreve este festival?

O Festival Mental é um espaço de encontro entre cultura e saúde mental, onde a arte e a reflexão caminham juntas. Ao longo de 10 anos, tornou-se uma referência nacional pela forma como dá voz a experiências humanas, promovendo diálogo, empatia e literacia em saúde mental através do cinema, música, teatro, dança, literatura, workshops e conversas. Cada segmento (M Talks, M Click, M Jovem, M Natura, M Play, M Books e M Cinema) oferece experiências significativas para todas as idades, valorizando diversidade de formatos e vozes. Os livros que editamos com chancela própria são bonitos, pensados para contar histórias e permanecer como legado cultural, e o cinema português e internacional tem cada vez maior presença, com diversidade temática e qualidade técnica, reforçando a criatividade e a descoberta.

 

Quando começou, imaginava que o festival teria este impacto na discussão sobre saúde mental em Portugal?

Sabíamos que a saúde mental precisava de ser discutida com profundidade, mas o impacto conquistado supera todas as expectativas. Durante a pandemia, realizamos cerca de 140 conversas digitais com pessoas do universo da cultura e da saúde mental, criando um retrato único de como se estavam a sentir e a lidar com a situação. Esse arquivo humano e emocional ficará para sempre. Ao mesmo tempo, o número de escolas aderentes ao M-Jovem cresceu de forma significativa, tornando este segmento cada vez mais relevante como trabalho de prevenção em saúde mental através da cultura, especialmente no cinema com as curtas-metragem que apresentamos. Recebemos uma quantidade impressionante de projetos, propostas, espetáculos, livros e filmes, mostrando que há uma enorme vontade de falar e criar, mas é claro que falar não significa sempre comunicar com rigor. Nas redes sociais existem muitos conteúdos publicados sem validação, e parte do nosso papel é alertar para isso, mostrando que é essencial comunicar com cuidado e conhecimento.

 

Na sua opinião, o que mudou no panorama da saúde mental desde há 10 anos até hoje?

O maior avanço foi a visibilidade e a diversidade de temas. Hoje falamos sobre saúde mental de forma mais aberta e complexa, antecipando tendências emergentes. Já abordámos eco-ansiedade, FOMO e inteligência artificial antes de se tornarem assuntos comuns. O festival acompanha essas transformações, trazendo ao palco temas atuais ou que se antecipam, como conflitos e guerras, sempre de forma contextualizada, sensível e respeitosa.

 

Como é que a programação reflete a ideia que querem passar?

A programação funciona como um radar da saúde mental. Cada segmento (M Talks 4All, M Click, M Jovem, M Natura, M Play, M Books e M Cinema) explora diferentes dimensões: experiências pessoais, inovação, relação com a natureza, música, literatura, cinema, teatro, dança, tecnologia e workshops para crianças e adultos. Recebemos cada vez mais filmes portugueses de grande diversidade e qualidade na open call e premiamos estas obras, reforçando o reconhecimento da criação nacional. A música, os workshops, a literatura e as artes performativas tornam a saúde mental tangível, visível e experiencial, criando pontes de empatia com todos os públicos.

 

Como é feita a curadoria dos conteúdos e que critérios orientam as escolhas desta edição?

A curadoria assenta em três princípios: relevância científica, impacto social e inovação cultural. Procuramos propostas rigorosas, criativas e significativas para o público. Os temas podem ser delicados, mas há sempre formas cuidadosas de os trazer ao palco, respeitando participantes e audiência. A seleção abrange cinema, música, teatro, dança, literatura, workshops e tecnologia, garantindo diversidade e qualidade em todas as áreas.

 

O segmento “My Story, My Song” expõe experiências muito pessoais. Como se trabalha essa dimensão com os participantes?

My Story, My Song é um espaço de coragem e partilha. Cada artista traz experiências, emoções e momentos de fragilidade, porque todos temos esses momentos, mesmo aqueles que parecem estar num patamar diferente aos olhos dos outros. O mais importante é a relação com o público, a identificação e a empatia que se geram quando alguém se permite ser vulnerável. É através dessa partilha autêntica que se quebram estigmas em saúde mental, mostrando que todos somos humanos. A música desempenha um papel central: é uma linguagem emocional poderosa, capaz de traduzir sentimentos, criar conexão e tornar visíveis emoções que muitas vezes não conseguimos expressar de outra forma.

 

Ainda há histórias ou temas que sente que são difíceis de trazer para o palco?

Nenhum tema é impossível de abordar. Alguns podem ser delicados, mas encontramos sempre maneiras adequadas de os apresentar, com contexto, apoio e sensibilidade. O festival cria estruturas seguras para abordar, desde experiências pessoais complexas até questões sociais e globais, mantendo respeito pelo público e pelos participantes.

Sente que o estigma em torno da saúde mental diminuiu ao longo da última década? O que ainda falta mudar?
O estigma diminuiu e há mais abertura para discutir saúde mental, mas ainda há muito trabalho a fazer. É fundamental reforçar literacia, prevenção e integração destes temas em escolas, empresas, instituições culturais e comunidades, transformando atitudes e comportamentos de forma sustentável.

 

Qual foi o momento mais marcante do festival até hoje, para si?

Durante a pandemia, quando migrámos para o formato digital e realizámos cerca de 140 conversas digitais, vimos a comunidade reagir, partilhar experiências e sentir-se apoiada, mesmo à distância. Esse legado permanece como um retrato vivo e humano do que as pessoas sentiam e viviam, mostrando que o festival é muito mais do que um evento: é uma rede de cuidado, criatividade e diálogo.

 

Como imagina o futuro do Festival Mental e o seu papel nos próximos anos?

O futuro passa por consolidar o festival como plataforma de diálogo entre cultura e ciência, com maior participação da comunidade e expansão de segmentos como M Play, M Books, M Natura e M Cinema. Queremos continuar a inovar em música, teatro, dança, workshops e formatos digitais, premiando e valorizando a criação nacional, mantendo diversidade, qualidade e impacto social.

 

Que desafios prevê para quem trabalha esta interseção entre cultura e saúde?

O maior desafio é equilibrar rigor científico com liberdade criativa, garantindo impacto social real e sustentável. Também é essencial combater a desinformação, especialmente nas redes sociais, e reforçar a literacia. Mas esta interseção abre caminhos únicos para transformação social, empatia, conexão e expressão artística, valores que o Festival Mental tem vindo a construir ao longo destes dez anos.

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