A quinta edição do CINALFAMA LIFF – Lisbon International Film Festival regressa ao bairro histórico de Lisboa de 27 a 31 de julho com uma programação internacional que reúne filmes premiados, estreias absolutas, projetos comunitários e atividades que aproximam realizadores, moradores e público.
O CINALFAMA nasceu da ideia de retirar o cinema das salas tradicionais e levá-lo para o espaço público. As Escadinhas de São Miguel tornam-se, todas as noites, uma sala de cinema ao ar livre, enquanto o Museu do Fado acolhe as sessões diurnas, criando um diálogo entre a história de Alfama e as novas linguagens cinematográficas.
Desde a primeira edição, o festival tem apostado no cinema independente e em formatos menos convencionais, dando espaço a produções de baixo orçamento, filmes de estreia, documentários, animação e cinema experimental, sendo que a competição integra obras provenientes de dezenas de países.
Entre os principais galardões destaca-se o Cinalfama Grand Prize, atribuído ao filme que melhor representa o espírito do festival. Já o City in Film Award distingue obras que exploram a relação entre o cinema e a cidade.
A edição deste ano dedica um lugar de destaque à Polónia, país convidado do festival. A programação inclui uma seleção especial de cinema independente polaco e uma noite temática que contará com a presença do Embaixador da Polónia em Portugal, reforçando o intercâmbio cultural entre os dois países.
Uma das imagens de marca do festival é o convite lançado ao público para participar na iniciativa Bring Your Own Pillow. A proposta pretende tornar as sessões noturnas ainda mais informais e acolhedoras, incentivando os espectadores a viver o cinema como uma experiência coletiva de bairro.
As categorias em competição do festival incluem Melhor Filme Português, Melhor Média-Metragem, Melhor Filme de Animação, Melhor Banda Sonora Original, Melhor Guião e o prémio destinado a produções Micro & No Budget, entre outras distinções. Em 2026, o CINALFAMA presta homenagem ao filme búlgaro “The Sinking of Sozopol”, realizado por Kostadin Bonev.
Em parceria com o Plano Nacional de Cinema, o CINALFAMA volta a promover o projeto Minuto Lumière, desafiando alunos do ensino básico e secundário a realizarem um plano fixo de um minuto, filmado no telemóvel e sem qualquer edição. Os trabalhos serão exibidos durante o festival.
Prossegue igualmente o projeto Recolha de Histórias de Alfama, iniciado em 2022, que tem vindo a construir um arquivo audiovisual da memória do bairro através dos testemunhos dos seus habitantes. Este ano a recolha é conduzida por Francisco Assis Parcerias, vencedor do CINALFAMA 2025, que irá documentar a história da Sociedade Boa União de Alfama.
A programação integra ainda o projeto internacional Periferias Dibujadas, que convida crianças de Alfama a criar um mapa audiovisual do bairro através de caminhadas, desenhos, gravações sonoras e pequenos vídeos.
Aceda à entrevista a João Gomes, programador artístico do evento.
O Cinalfama acontece nas Escadinhas de Alfama, com entrada livre, aberto a toda a gente. O que é que este festival mais vem trazer à vida do bairro de Alfama?
O Cinalfama é uma coisa difícil de definir, porque está muito preso entre um passado idealizado, mas que ainda está bem presente na cabeça de muitos moradores e lisboetas que têm de Alfama apenas uma visão pitoresca. Então há toda uma série de perceções, cada uma de um lado para o outro. E isso é matéria de arte. A arte é quando há uma enormidade, há um espectro infinito de perspetivas. E nós achamos que Alfama merece isso, todos os nossos projetos são no sentido de ir para a rua, assentar arraiais na rua com o cinema, para criar outro tipo de diálogo. Já não é só Santos Populares e Fado, o cinema, através do Cinalfama, já ganhou aqui um espaço muito particular de diálogo sobre o bairro.
O que é que mais distingue este festival de qualquer outro evento cultural realizado na cidade de Lisboa?
Tem uma personalidade muito marcada, temos objetivos que já perseguimos há década e meia. O Cinalfama existe desde 2009, já vão 17 anos. E assistimos a esta descaracterização do bairro. E, portanto, nós temos a missão de apoiar artistas emergentes. Estamos a tentar encontrar arte onde ela parece estar enterrada e queremos também trazer arte onde ela parece improvável. E Alfama é um sítio um bocado difícil de fazer sessões públicas, tens muitas casas de fado, e é impossível isolar totalmente esse tipo de ambiências sonoras durante um filme. Há um senhor que está naquelas escadinhas e que todos os anos abre a sua porta, monta ali uma banca e vende ginjinhas e cervejas, é esse o espírito. O Cinalfama convida todas as pessoas a fazerem das escadas a sua zona de conforto, porque há qualquer coisa também desconfortável em estar sentado durante duas horas numa calçada. Tantas pessoas começaram a aderir massivamente a esta sugestão de trazer a sua própria almofada. São vários exemplos como este festival é diferente dos outros. Quem já conhece sabe o que é que eu estou a falar e aqueles que não conhecem têm que cá vir.
A Recolha de Oralidades de Alfama é um arquivo de histórias do bairro, que chega ao ecrã durante o festival. Que histórias é que estas pessoas contaram?
Histórias muito contraditórias. Ouvimos de tudo, pessoas que falam com algum saudosismo, houve uma Tininha de Alfama, fez uma espécie de ecologia urbana da sua rua, daquilo que era e daquilo que existe, “aqui havia uma retrosaria, aqui era um tanque e era onde toda a gente se vinha lavar…”. Até outro personagem, que é o Virgílio, começou uma divulgação muito afetada pela presença da câmara, sobre aquilo que era o passado da Alfama. E ele dizia “Isto aqui era uma miséria. Nós não podíamos brincar, porque vinham os Pides. Estavam sempre à espreita”. Há muitas memórias também deste mundinho pequeno e quase concentracionário das pessoas que não podiam falar. Portanto, há toda uma série de elementos que se misturam. O saudosismo, sim. O realismo, quando os atinge, lhes faz dizer “A Alfama antiga era pitoresca, mas as pessoas acham a pobreza pitoresca. Mas, se vocês soubessem, isto era um bairro de lata”. Há essas forças contraditórias.
Como foi realizar mais uma vez as iniciativas Periferias Dibujadas e Minuto Lumiére?
A nossa parceira, a Kitty Barax, que é uma pedagoga e que trabalha muito na área do audiovisual, leva os miúdos a percorrer o território, a falar com pessoas do bairro, a apropriarem-se e a criar uma espécie de mapa mental daquilo que observaram, feito de colagens, de filmes. Este ano tem um cunho um bocadinho diferente, porque tem um tema muito específico, que tem a ver com a água e a forma desonesta e negligente, como ela é tratada. Para o Minuto Lumière, já recebemos propostas de vinte e tal agrupamentos. Todos os anos vou para escolas à espera de ver o que calha e fico espantado. Há muita gente que nunca tinha feito nada e que faz coisas muito engraçadas. Chegam a enviar dez, quinze filmes e depois há um grande sacrifício de escolher um. É uma coisa maravilhosa. Tem um alcance incrível.
O que é que mais gostava que o público levasse ao ver estas duas iniciativas?
Há toda uma série de alvos. Os pais podem perceber que os filhos saem daquelas sessões, de repente vão para a rua e começam a olhar para tudo. Detalhes irrelevantes, um cãozinho que está sempre ali naquele sítio, um sinal de proibido que está virado ao contrário, mas que fica na cabeça. As pessoas começam a perceber que de facto toda a gente tem essa capacidade de observar. E depois, se a câmara for honesta e se fundir com a pessoa que filma, mesmo sem conhecer os instrumentos da linguagem cinematográfica, conseguem produzir coisas muito relevantes. Esta ideia percorre todo o Cinalfama, de que todos podem fazer cinema. E por isso também vamos à procura de realizadores mais desprotegidos, sem agências, sem produtoras importantes a defendê-los, porque achamos importante calcular o mundo para lá dessa lógica de mercado.
Cerca de 60% do público deste festival é composto por públicos estrangeiros. Como é que se consegue criar uma dinâmica entre moradores e visitantes para conseguirem partilhar esta mesma experiência?
Há um momento preciso para isso, que é a recolha da realidade. Os filmes são legendados em inglês, estão lá turistas, e o filme toca nas feridas mais profundas deste tema. E eles são chamados a comentar também, sem qualquer tipo de hostilidade nem ostracismo. Nós convidamos toda a gente a ver e a perceber a problemática hipercomplexa, que não pode cair na lógica mais simples da polarização. Há muitas nuances e às vezes geram-se conversas interessantes entre turistas, moradores e mesmo as pessoas que não falam interiorizam aquele momento. E é um momento que queremos preservar e vai continuar para o ano haverá mais filmes.
O festival já teve várias edições. Há algum momento marcante que lhe tenha ficado na memória de edições passadas do festival até agora?
Houve uma noite em que decidimos chamar a Noite Inaugural do Cinalfama, nas Escadinhas de São Miguel, em 2009. Nessa noite mostrámos A viagem à Lua do Méliès, acompanhado por um guitarrista clássico húngaro. No ano passado, decidimos repetir esse exato momento. O mesmo filme, o mesmo guitarrista, com mais de 17 anos em cima. Primeiro vimos a imagem e depois voltámos ao momento percorrendo o mesmo filme com outro tipo de improviso, a guitarra. E a certa altura acabei por dizer também, com alguma emoção que ali, naquelas escadas, está também a pessoa que se veio depois a tornar a minha mulher. Esse momento foi muito marcante, porque foi um recapitular, agora o Cinalfama legitimou-se bastante. Foi muito emocionante, houve pessoas que vieram comentar, e isso é super gratificante, vieram falar comigo e dizer que este festival é diferente, que nós sentimos aqui uma vibração muito pessoal, muito humana. Esse momento marcou-me, seguramente o que mais me marcou.
Lisboa perdeu alguns dos seus espaços culturais e de convívio nos últimos anos. Isto gerou algum tipo de dificuldade na organização do festival?
Nós fomos expulsos pela privatização de um pátio onde tivemos os nossos tempos mais áureos, em que estávamos no Tascabito do Rosário, à beira da muralha da Alfama, com pessoas que vinham e às vezes tinham de voltar para trás, porque não tinham espaço, e já traziam os seus colchões. Naquela altura tivemos de sobreviver e fazer um pequeno interregno, mais um exemplo de um sítio onde aconteciam coisas culturais, mas que agora, por ser um condomínio de luxo, já não pode existir. Aquela dinâmica que estávamos a criar agora reencontramos em grande, o espírito voltou.
Este ano, segundo os números, receberam 1.700 filmes. Este número cria algum tipo de expetativas?
A mim, o festival não traz prize money, não é um festival de classe A como Cannes, é um festival com um nível mais local, de alcance cultural nacional e regional. É difícil nós tentarmos avaliar o impacto que o festival já tem, a única coisa que eu posso explicar a estes números é a coerência. As pessoas sabem, este festival é muito cozy e vale muito a pena. Alguma coisa está a ser bem feita ao longo de muitos anos. É a única explicação que eu encontro, essa coerência.
No passado, já descreveu o Cinalfama como uma “espécie de utopia”. O que é que esta utopia mais conseguiu concretizar até agora? E o que é que gostava que esta utopia alcançasse no futuro, que ainda não tenha alcançado já?
Uma utopia é uma coisa que nos guia apenas, nunca vamos lá chegar. Esta ideia de trazer um espírito comunitário através do cinema obviamente nunca se concretiza na sua plenitude. É um ideal, mas é algo que nos norteia. É esta questão que nos preocupa. Há um declínio do convívio e do contacto e isso se reflete também no cinema. E nós queremos combater isso, combater as Netflix desta vida, que fazem com que as pessoas não saiam de casa, com subprodutos hiperformatados. E há de facto um público português muito ávido de coisas fora da caixa, de coisas fora de formato, e essas pessoas dão-nos ânimo, porque de facto há pessoas tão interessantes que vêm ao festival e querem uma coisa semelhante a nós. Portanto, é uma coisa por concretizar, como todas as utopias, mas que é um farol.
Este ano temos um país convidado, que é a Polónia, com a presença de um embaixador polaco e com a iniciativa da Noite de Cinema Polaco. Que diálogo é que espera criar entre os moradores e visitantes de Alfama e a cultura polaca?
Nós estamos a ver o bairro, mas somos cosmopolitas e totalmente abertas ao mundo, porque não é possível olhar para o bairro sem saber o que é que se faz no mundo. Temos de olhar para o local com uma lente global e olhar para o global através de uma lente local também. Esse fluxo, para lá e pra cá, é necessário. Temos uma categoria dedicada ao diálogo intercultural e queríamos honrar algumas das cinematografias que nos têm marcado muito. E começámos por países muito importantes na nossa história, a Alemanha, a França, o Brasil. E queríamos homenagear a Polónia, porque temos recebido ao longo destes 17 anos filmes maravilhosos.
A Bring Your Own Pillow já se tornou uma imagem de marca no festival. Como surgiu esta ideia de fazer esta iniciativa e o que é que este momento mais traz ao festival?
É que a nossa casa é onde nós quisermos e, portanto, queremos ter um espírito de intimidade a ver filmes num sítio outdoor e pouco controlado. Nós não temos autonomia para barrar grandes entradas, portanto, a ideia é criar ali uma espécie de microcosmos de conforto e criar esta ideia de casa e intimidade. A almofada é um dos objetos mais ligados à intimidade no mundo.
Há projetos para futuras parcerias?
Nós estamos em vias de lançar uma parceria que vai ser estruturante para o Cinalfama com a Sociedade Boa União. É uma sociedade perto do Museu do Fado, que tem uma história cultural riquíssima, mas que está algo deprimida porque muitas das pessoas que faziam a textura e o tecido social terem saído e, portanto, muitos destes clubes têm de ser redinamizados, sem perder a sua identidade. Foi nesse sentido que os abordámos, eles têm um espaço, que é uma tristeza que aquilo nunca tenha sido descoberto, tem uma sala de espetáculos com uma boca de cena lindíssima, tem uma sala de convívio com jogos tradicionais, uma sala de tertúlias, uma biblioteca antiquíssima com livros que são tesouros, uma esplanada fantástica. Aquilo é um convite à dinamização cultural, portanto, vamos fazer coisas muito interessantes em todo o tipo de áreas. Uma coisa muito pouco falada é a ligação entre cinema e teatro, por exemplo, de workshops para atores de cinema, que tem um déficit enorme em Portugal. Também vamos ter salas de ensaio para companhias de teatro, sessões de cinema, sessões de dança, algumas festas temáticas, tertúlias. A ideia é levar a dinâmica do Cinalfama, mas extravasa-la brutalmente, porque vamos para campos que o Cinalfama ainda não conhece bem e a própria Sociedade Boa União vai estar connosco, ao leme, a criar sinergias connosco. É suposto arrancar em setembro, esperemos que seja integrado na rede Um Teatro em Cada Bairro. Vão ouvir falar muito sobre isso nos próximos tempos. A Sociedade Boa União com Cinalfama é um grande casamento.