Era o princípio do fim. Do texto. Das letras desorganizadas cuspidas para as teclas à prova de água sem sabor e de perdigotos. Desfocado da vista, do ângulo ou da perspetiva, o resultado era sempre o mesmo. Forte. Intruso. Provocador.
Era o princípio do fim. E isso era certo.
Francisca não sabia ser outra ou ter outra forma de tensão verbal. Uma forma de estar à frente, na primeira plateia e de preferência, no palco. A de fazer as perguntas indiscretas, acompanhada do seu café de dupla dose, com olhar aproximado e detalhado. Não era meiga no enredo e arredava mobília leve, para chegar-se ao palmo de distância da roupa vestida por outro corpo. A que cobria defeitos, apontava falhas e realçava o mais belo. Havia sempre belo. Mesmo no torto, no enfermo, no pouco lúcido.
Fisgava os sapatos, a sua predileção e prolongava-se nas expressões. Contava as que se repetiam e enumerava as faciais, as desviantes de um olhar distraído por outro movimento, de quem não gostava do despercebido ou o do que procurava no fundo da sua gaveta cerebral, a resposta política, polida e predicada. Alistava-se nas bocas que se arriscavam de linhas coloridas, de preenchimentos a lápis ou seringa. A cor chamava-a a atenção. Seria arrojo? Apelo? Grito?
Francisca franzia o nariz na dúvida, mordia o lábio inferior entre a palpitação do suspense e cruzava as pernas para criar tensão em outros cruzamentos, que não os mentais ou os entre o ar que a outra boca expirava. Adivinhava-lhes as histórias e as origens. Só pelo passo, pressa e pausa entre frases.
Pousava-se junto à cadeira da mesa menos discreta, acompanhada de umas costas retas, sorriso amplo, uma audição de tísica e um olhar de primeira. Uma cusca doutorada em conversas paralelas, perpendiculares e de todas as direções, que ao alcance do diâmetro dos seus ouvidos, desenhados por moldes distintos, mas há muito treinados, escrevia histórias. E um dia escreveria um livro.
De olhar certeiro e fantasia elaborada, via o que os outros descuidavam e construía um enredo que só podia ser verdade, pelo movimento das quatro mãos que fingiam não se querer entrelaçar, a talha da barba de três ou quatro dias e pela forma como ela segurava a chávena e limpava os lábios bem pintados, com o guardanapo de folha tripla. Um mal-intencionado. O guardanapo, claro. A achar-se de pano.
Francisca, aparentava uma figura pouco distraída. Uma sentinela sensível ao tom, à luz e ao contraste. Os seus bens mais ativos e eram muito bem desenvolvidos para cinema de mudos, surdos ou trilingues, não fosse ela uma aficionada pelas línguas latinas, as que se dobravam e tocavam no céu da boca, aprimorando os sabores doces, para enganar os amargos. O que vinha de corpo quente, fala mansa e queimava. Fogo de vida.
No seu dia, Francisca deglutia sem engasgo, ao seu paladar apurado, a mais presa das sociedades que lhe saciavam as brincadeiras de criar personagens e de abanar a cabeça, a quem ainda não acordara do sopro dos adormecidos. Todos secos. Nem ela, nem ninguém, conseguia prever, quando e que bela ou príncipe os salvaria.
Lá iam eles, todos os iguais, os bonecos andantes e esperançosos com o milagre de acordar noutra vida, que não a sua de plástico não reciclado e poluente, até ao último suspiro.
Caminhavam apressados atrás do dia que desejavam que terminasse, das conversas superficiais com pó nos cantos e areia nos olhos, partilhadas entre espaços abertos, com vista para cabeças bem penteadas, cheiro a bica da esquina e a almoços aquecidos no micro-ondas da cantina. Entre reuniões pouco funcionais, descansavam as pernas e exibiam os egos, que transcendiam as paredes de vidro, para que a ninguém lhes escapasse a cegueira de não estar a viver.
Almas secas de sangue e viciadas nos minutos que contavam para as badaladas ouvidas em todos os toques escolares, mas que ali soavam a quartel de bombeiros. A pressa. Lá iam eles. Saíam na emergência de chegarem à parte do dia que lhes sabia a doce na ponta da língua, como se não tivessem o direito de saborear-se em todas as outras horas.
Como se esse tempo não fosse descontado dos dias que nos sobram.
Por mais que a Francisca veja e escreva, os sentidos das almas secas não se sintonizam e permanecem adormecidos. De ouvidos moucos, seguem cegos sem degustar, no inteiro, no justo e no verdadeiro, o paladar da vida. Evitam o ser alma viva. Alma luz. Alma presente.
Sejamos poupados no desperdício e esbanjemos na alegria de dar e ser verdadeira vida.
Crónica escrita por Filipa Mota Nesbitt