Com mais de 130 capas da Playboy, uma das marcas mais icónicas do mundo, e centenas de ensaios assinados por todo o mundo, Ana Dias tornou-se uma referência incontornável na forma como o nu é representado: com força, intenção e identidade.
Natural do Porto, a fotógrafa portuguesa é hoje a mulher que mais Playmates fotografou na história da Playboy, e fá-lo com um olhar que desafia o preconceito e a repetição. Para Ana, o nu não é tabu, é algo poderoso e belo.
A sua prioridade é sempre a mesma: criar uma ligação verdadeira com a modelo, para que ela se sinta segura, respeitada e valorizada. Porque, como diz, “a nudez não tem de ser um motivo de vergonha, pode ser uma expressão de orgulho, força e beleza.”
Quais foram as tuas primeiras inspirações na arte e como é que isso te levou à fotografia?
Sempre tive uma grande paixão por arte e imagem. Desde pequena, adorava desenhar, ver cultura pop na televisão e folhear revistas. As pin-up girls de Gil Elvgren e Alberto Vargas foram, sem dúvida, das minhas primeiras grandes inspirações visuais. Mais tarde, ao estudar Artes Plásticas, aprofundei ainda mais essa ligação com o mundo artístico. Mas foi na fotografia que encontrei a forma mais direta e autêntica de dar vida às minhas ideias. A câmara tornou-se uma extensão natural do meu olhar, permitindo-me criar imagens cheias de cor, emoção e significado. A partir desse momento, soube que era esse o caminho que queria seguir.
Quando e como é que percebeste que a vertente do erotismo feminino seria o caminho a explorar na fotografia? Existe alguma referência que te tenha influenciado?
Percebi que queria explorar o erotismo feminino na fotografia quando comecei a ver o nu como algo poderoso e belo, e não como tabu. Desde os primeiros anos na universidade, já trabalhava com modelos de nu para desenho ao vivo, o que me ajudou a desenvolver um olhar natural e respeitoso sobre o corpo. Sempre me fascinou mostrar a sensualidade de forma autêntica, com personalidade. Desde cedo, senti vontade de retratar o corpo feminino com força, não como objeto, mas como sujeito. Referências como Helmut Newton e Pompeo Posar influenciaram-me bastante, mas sempre procurei criar algo meu, com a leveza, a ousadia e a sensibilidade que acredito que o olhar feminino pode trazer à nudez.
“Quando há autenticidade e qualidade, a nudez é percebida não como provocação gratuita, mas como celebração do corpo e da liberdade feminina.”
Para muitas pessoas, fotografar para a Playboy ainda carrega um certo estigma ou preconceito em relação à nudez. Alguma vez sentiste esse pré-conceito com o teu trabalho?
Pessoalmente, nunca senti esse preconceito em relação ao meu trabalho. Talvez pela forma como abordo a fotografia, sempre com uma intenção artística clara e um profundo respeito pela mulher. A verdade é que, desde o início, o meu trabalho tem sido bem recebido, até por públicos que, à partida, poderiam ser mais céticos. Quando há autenticidade e qualidade, a nudez é percebida não como provocação gratuita, mas como celebração do corpo e da liberdade feminina.
Como é a preparação para uma sessão? Como é o ambiente entre ti e a modelo e quais são os principais desafios?
Antes de cada sessão, preparo tudo com bastante cuidado: penso no conceito visual, escolho a localização, o styling, a luz e o mood que quero transmitir. Gosto de construir um universo coeso, onde todos os elementos se ligam e contam uma história.
Mas, mais importante do que o planeamento, é o que acontece no set: criar uma ligação verdadeira com a modelo. Faço sempre questão de partilhar o conceito e as poses com antecedência, para garantir que está tudo alinhado e confortável para quem vou fotografar. Criar um ambiente seguro e de confiança é essencial. Fotografar o corpo é, muitas vezes, um momento de vulnerabilidade, por isso é fundamental que a mulher se sinta segura, respeitada e valorizada.
O maior desafio é capturar algo que vá além da imagem bonita: quero mostrar atitude, autenticidade e força. E isso só acontece quando há empatia, abertura e uma entrega verdadeira de ambas as partes.
“Procuro sempre que o erotismo nas minhas fotografias seja guiado pela intenção, sensibilidade e respeito.”
O teu trabalho é frequentemente elogiado pela forma como equilibra sensualidade com sofisticação. Como é que asseguras que as tuas fotografias sejam ao mesmo tempo eróticas e elegantes?
Procuro sempre que o erotismo nas minhas fotografias seja guiado pela intenção, sensibilidade e respeito. A elegância surge naturalmente quando existe um cuidado especial na forma como represento o corpo feminino, desde a luz e composição até ao styling e direção da modelo.
Não se trata apenas de mostrar pele, mas sim de contar uma história e transmitir uma emoção.
Acredito que é essa abordagem consciente e sensível que permite que as minhas fotografias sejam, ao mesmo tempo, sensuais e sofisticadas; eróticas e elegantes, com alma, intenção e autenticidade.
Que cuidados tens para que as modelos se sintam à vontade e empoderadas à frente da câmara?
Antes da sessão, falo com a modelo e partilho detalhes do moodboard para garantir que ela se sinta confortável com o conceito. Esta abordagem é fundamental para que ela esteja segura e confiante.
Durante a sessão, procuro criar um ambiente descontraído, onde ela sinta que tem controlo total sobre o seu corpo. Quando a modelo percebe que está a ser retratada com beleza e respeito, entrega-se de corpo e alma, e é essa confiança que transforma as imagens.
Em 2015 participaste no webshow “Playboy Abroad”, onde viajaste para vários países para realizar ensaios. Qual o episódio ou o destino que mais te marcou e porquê?
Todos os países onde fotografei foram especiais à sua maneira, e é quase impossível escolher um favorito. Mas, se tivesse que destacar, talvez as Bahamas, o Japão e a Islândia tenham sido os que mais me marcaram.
Nas Bahamas, senti que o meu estilo encontrou a sua casa: aquela luz perfeita, o calor, a praia, o mar, toda aquela vibe tropical… foi como estar no sítio certo para criar o que mais gosto.
O Japão foi um lugar que me inspirou profundamente: a mistura entre tradição e modernidade desafiou-me a ser super criativa e sempre respeitosa.
E a Islândia? Aquela paisagem bruta e selvagem deu-me liberdade total para explorar a conexão pura e poderosa entre o corpo e a natureza, foi mágico.
Cada lugar trouxe uma energia única que ainda hoje influencia o meu trabalho.
Houve algum sítio em que sentiste que tiveste de ultrapassar obstáculos culturais para manter a tua linguagem autoral?
Sim, houve locais mais conservadores onde precisei de ultrapassar alguns obstáculos culturais para manter a minha linguagem autoral. Por exemplo, em Marrocos e no Egito, tive de adaptar a produção e ser especialmente sensível às tradições e normas locais, sem nunca comprometer a essência do meu trabalho.
“A nudez não tem de ser um motivo de vergonha, pode ser uma expressão de orgulho, força e beleza.”
Em 2019, uma imagem tua a fotografar uma modelo foi capa do The New York Times. Como foi a sensação e o que significou para ti? De que forma esse reconhecimento influenciou o teu percurso profissional?
Foi uma sensação verdadeiramente surreal ver uma imagem minha, a fotografar uma modelo, na capa do The New York Times, uma das publicações mais prestigiadas do mundo. Para mim, foi um reconhecimento enorme, não só do meu trabalho enquanto fotógrafa, mas também do percurso que tenho vindo a construir.
Senti que estava a representar não só as mulheres fotógrafas, a afirmarem-se num meio ainda maioritariamente dominado por homens, mas também uma nova forma de olhar para a sensualidade: com respeito, empoderamento e arte. Esse destaque trouxe uma visibilidade internacional muito importante e abriu portas para novos projetos e colaborações.
Costumas dizer que, através da nudez e da sensualidade, pretendes transmitir empoderamento feminino. Como vês esse papel? Já recebeste algum feedback marcante nesse sentido?
Costumo receber mensagens de mulheres que, ao verem os meus ensaios fotográficos, começaram a olhar para o próprio corpo com mais amor, confiança e liberdade. Muitas delas disseram-me que adorariam posar para a minha câmara. Para mim, isso é o maior elogio que posso receber.
A nudez não tem de ser um motivo de vergonha, pode ser uma expressão de orgulho, força e beleza. É exatamente essa mensagem de empoderamento que quero transmitir em cada fotografia, mostrando que o corpo feminino é uma fonte de poder e autenticidade.
Além das colaborações com a Playboy, apresentaste trabalhos em galerias de arte, como a “Playboy World” em Paris. Que temas exploras fora do universo da revista?
O que mais gosto mesmo é trabalhar com a Playboy. É a base da minha carreira e dá-me uma liberdade criativa enorme, com a qual me identifico 100%. Hoje em dia, tenho a sorte de poder focar-me quase exclusivamente na Playboy, o que considero um privilégio enorme.
Claro que, de vez em quando, aceito projetos que se alinham com o meu estilo ou que me desafiam de forma positiva. Por exemplo, recentemente fotografei a nova campanha de swimwear da Kim Kardashian para a SKIMS e fui convidada para fotografar um ensaio com a Sports Illustrated, que ainda está para acontecer. São oportunidades incríveis que me permitem explorar outras vertentes dentro da fotografia de moda e sensualidade.
Além disso, o meu trabalho tem sido exibido em galerias de arte, onde as minhas fotos deixam as páginas das revistas para ganhar vida em grande formato, criando uma presença impactante, que só é possível quando se vê a imagem de perto e em tamanho grande.
Que conselho darias a um jovem fotógrafo que sonha trabalhar com ensaios de moda ou nudez artística? Quais competências, atitudes ou posicionamentos consideras essenciais?
Antes de mais, acho que não se deve começar logo por fotografar nu. Isso exige muita experiência e sensibilidade. É importante fotografar bastante, aprender a usar a luz a favor e, aos poucos, ir encontrando o próprio estilo.E nunca esquecer o mais importante: respeitar sempre quem está à frente da câmara. A confiança é tudo para uma boa fotografia.