André Leitão: “Vou continuar a trabalhar e a tentar desbravar caminho no audiovisual português” 

Com um percurso que cruza teatro, televisão e cinema, André Leitão tem-se destacado como umas vozes mais promissoras e versáteis da sua geração.

Natural de Lisboa, começou no palco e rapidamente conquistou espaço no ecrã, somando projetos de sucesso dentro e fora de Portugal. Em “Rabo de Peixe”, série portuguesa da Netflix que se tornou um fenómeno internacional, deu vida a uma das personagens mais queridas do público – um entre muitos papéis onde provou a sua sensibilidade como ator.

Nomeado pela Forbes como um dos jovens mais promissores do país, André move-se com a curiosidade de quem quer experimentar tudo, e a entrega de quem encara a arte como o seu lugar natural.

 

Como é que começaste a interessar-te pelo teatro e pela representação? Houve algum momento decisivo na tua infância ou adolescência?

É uma pergunta difícil (risos) porque quando somos mais novos e começamos a experimentar atividades, tudo acontece muito por impulso. Desde cedo tive gosto em fazer teatro, em vestir a pele de outras pessoas e pensar: “como seria se eu fosse assim?”. Lembro-me do início de cada ano letivo, a minha mãe perguntar se havia alguma atividade extracurricular ligada ao teatro, porque eu queria mesmo muito (risos). Nunca foi algo pensado de forma lógica, surgiu de forma muito natural.

Quando cheguei ao 10.º ano, na altura de escolher o percurso, percebi que teria de optar por línguas e humanidades, porque ninguém falava de cursos artísticos. Mas a minha mãe ficou a matutar e disse-me: “Sabes que tens alternativas, existem escolas de teatro.” Para mim, até aí, o teatro era só um hobby e ser ator parecia uma coisa inalcançável. Mas ela mostrou-me que era possível fazer disso uma profissão. Obrigada, mãe, por essa lucidez (risos). A partir desse momento, foi tudo muito óbvio para mim, foi como um peixe a entrar num aquário e a perceber que aquele era o seu ambiente.

 

Participaste em “Rabo de Peixe”, uma série portuguesa da Netflix que conquistou público dentro e fora do país. O Carlinhos é uma das personagens mais marcantes e carismáticas da série. Como te preparaste para dar vida a este papel?

Falar sobre Rabo de Peixe e sobre o Carlinhos é sempre muito especial. Tive a sorte e, claro, com muito trabalho, de abraçar esta oportunidade. Vestir o Carlinhos foi, acima de tudo, um trabalho de grande respeito. Era uma personagem com particularidades muito sensíveis na atualidade, ligadas a questões de identidade de género, sexualidade, e aos preconceitos sobre o que um homem “pode” ou “não pode” vestir. São temas que, na minha cabeça, nem deviam ser questões, mas que, infelizmente, ainda o são na sociedade.

Tive o cuidado de construir uma personagem com uma identidade muito própria. O Carlinhos dorme com homens, por vezes homens casados, num contexto onde era apelidado de “sabela” – um homem que se veste de mulher e que gosta de homens. Muitas vezes, essas pessoas acabavam por ser abusadas por figuras mais “homem macho”.

Quis que o Carlinhos fosse mais do que esses rótulos e estereótipos, que não fosse reduzido a uma caricatura. Era importante dar força ao Carlos por aquilo que ele representa no interior: ele é um excelente amigo, tem uma enorme sensibilidade para a música, é divertido, generoso, carismático, e acrescenta nuances muito importantes ao grupo de amigos.

A preparação foi delicada. A minha preocupação foi sempre partir do interior da personagem. Sabia que estava a tocar em temas sensíveis e por isso tentei incorporá-los com verdade, mas sem nunca deixar que definissem por completo quem ele era. O que faz o público ligar-se a uma personagem é a sua humanidade, aquilo que ela é por dentro, independentemente de como se veste ou de quem ama.

Sentes que foi uma responsabilidade ainda maior interpretar esta personagem?

Sim, precisamente porque ainda existe essa carga em torno de interpretar uma personagem gay, como se isso, por si só, fosse algo marcante ou fora do comum. Mas para mim, a questão era: além de ser gay, quem é esta personagem? O Carlinhos é muitas coisas, e a sua orientação sexual é apenas um pormenor, não o foco.

Esse foi o meu trabalho na construção do Carlinhos: garantir que a sua sexualidade não o definisse por completo. Porque a sexualidade de alguém é apenas uma entre tantas outras características que formam uma pessoa.

 

A série teve grande impacto internacional. O que mais te marcou nas reações do público de fora de Portugal?

Esse impacto foi mesmo um ponto-chave para eu sentir que o trabalho com o Carlinhos resultou e que conseguimos transmitir aquilo que queríamos. No início, confesso que tinha algum receio de que as pessoas ridicularizassem a personagem. Mas a maior prova de que o Carlinhos é muito mais do que a sua sexualidade foi o facto de, até hoje, nunca ter recebido comentários ofensivos. Pelo contrário: fui, e sou, abordado por todo o tipo de pessoas, das mais diversas idades, géneros e religiões. Todas se identificam, de alguma forma, com a personagem. E isso deixa-me verdadeiramente feliz, porque mostra que olharam para o Carlinhos pelo que ele é, e não apenas pelo que ele representa à superfície.

Houve até momentos em que, ao ver quem se aproximava, pensei que iriam gozar comigo. E afinal, eram pessoas a dizer que adoravam a personagem. Deixa-me mesmo contente.

Recebi mensagens de todas as partes do mundo, algo que nunca esperei. Ainda há pouco tempo, um grupo de americanos cruzou-se comigo na rua e ficou muito feliz por me ver. Pensei que estavam a viver cá, mas não, estavam apenas de viagem e tinham visto a série nos Estados Unidos.

 

Mesmo com o sucesso na televisão e no cinema, continuas ligado ao teatro. O palco continua a ser o teu lugar favorito?

O palco não é o meu lugar preferido, mas foi onde nasci. Não tenho preferências, prefiro é estar a trabalhar (risos). Gosto genuinamente de cada meio por razões diferentes. É como perguntar a um pai qual o filho de que gosta mais. Amamos de formas diferentes.

O teatro tem coisas que adoro e que o cinema não oferece: o contacto direto com o público, a intensidade do momento presente, o facto de não haver “corta” – é o ator ali, completamente exposto, a dar tudo. Tem esse lado muito humano, muito cru e real.

Já o audiovisual oferece uma beleza estética, uma construção e uma liberdade narrativa que te permite explorar mil e uma possibilidades que o teatro não tem, e também adoro.

A arte é mesmo isso: são várias formas de expressão. E eu gosto de pertencer a todas elas… porque sinto que pertenço mesmo a todas.

A Forbes destacou-te como um dos jovens mais promissores de Portugal. Esta distinção mudou a tua forma de ver o teu caminho e os teus sonhos?

Honestamente, não (risos). Fico muito feliz e lisonjeado com qualquer distinção, claro, mas isso não muda a forma como encaro o meu trabalho nem as minhas expectativas. Valorizo o reconhecimento, mas não é isso que me move, e acho que não devia ser o que move nenhum artista.

A verdade é que fiquei mesmo surpreendido. Há tanto talento promissor na nossa área que, genuinamente, não estava à espera de estar entre os nomeados. Recebi a notícia com muita felicidade, sem dúvida, mas não muda quem sou nem como trabalho. Dá-me, talvez, alguma coragem extra para enfrentar os desafios que vêm aí.

 

Que projetos futuros te entusiasmam mais e o que gostarias de explorar ainda mais na tua carreira?

Continuo a ter um fascínio enorme por cinema, séries e teatro, e adorava continuar a trabalhar nessas áreas. Em breve vou integrar um projeto que ainda não posso revelar, mas que me entusiasma muito: é uma personagem bem diferente de mim, e vai ser um desafio incrível dar-lhe vida.

Vou continuar a trabalhar e a tentar desbravar caminho no audiovisual português… e, quem sabe, também no internacional.

 

Fora da profissão, quem é o André?

O André é um jovem que, mesmo a caminhar para os 30 (risos), sente que vai continuar a ser sempre jovem. Alguém cheio de vontade de fazer muita coisa e que quer, cada vez mais, desafiar-se como artista e associar-se a movimentos que sejam importantes para a sociedade, para as minorias, ou para quem precisa de voz.

Sou também alguém que quer estar sempre pronto para o próximo projeto… e para me divertir, claro. Procuro ter saúde e que a minha família também tenha.

E, no fim do dia, sou um jovem que procura ter trabalho (risos).

PUBLICIDADE
Deixar um comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Subscreve e acede a conteúdo exclusivo!

Ao pressionar o botão de subscrição, confirmas que concordas com a nossa Política de Privacidade e Cookies