Lote 19 – Felicidade por Metro Quadrado é a nova criação da Companhia da Esquina, a partir do romance Quando as Girafas Baixam o Pescoço, de Sandro William Junqueira. A adaptação e encenação são de Jorge Gomes Ribeiro.
A peça parte de um espaço vazio numa urbanização, destinado à construção de um edifício que nunca chegou a existir: o Lote 19. Entre o humor, a poesia e o quotidiano, o espetáculo aborda temas como a vida à margem dos centros urbanos, as relações humanas e a necessidade de criar laços num contexto de isolamento.
O elenco reúne Ana Lúcia Palminha, André Nunes, Ângelo Torres, Beatriz Nabais, Carla Chambel, José Mateus, Madalena Perdigão, Paula Neves, Pedro Pernas, Rita Fernandes e Tiago Costa.
Acede à entrevista ao ator André Nunes, do elenco da peça.
O ator, de 47 anos, estreou-se no Teatro Nacional de São João, já trabalhou com companhias de teatro como A Barraca, Teatro Terra e UAU, integrou o elenco de espetáculos como Felizmente Há Luar!, Dia do Pai e A Maluquinha de Arroios e ficou conhecido por interpretar a personagem Gil na telenovela Ilha dos Amores.
O espetáculo parte da obra Quando as Girafas Baixam o Pescoço, de Sandro William Junqueira. Como foi o processo de adaptação deste texto ao palco e de que forma esse processo influenciou o teu trabalho como ator?
Eu ainda não conhecia a obra. Vi primeiro o texto da adaptação e depois fui ler um pouco da obra original. É um texto bastante criativo, interventivo e, ao mesmo tempo, muito humano. É sobre um bairro e as suas personagens têm uma particularidade engraçada, que é terem nomes de estereótipos. Temos a “Mana Móvel” e a “Mana Imóvel”, que são duas irmãs, uma está mais imobilizada e a outra cuida dela. A peça aborda muito as diferenças sociais e os desafios que as pessoas deste bairro enfrentam. No meu caso, a minha personagem é um bocado peculiar. É um fulano que lê livros, que está viciado. A única coisa que lhe dá paz de alma é a literatura. Só que está casado com uma mulher que não lê. Portanto, temos aqui um conflito emocional-intelectual. A peça tem diálogos, monólogos e cenas de grupo, e tudo vai desaguar numa reunião de condomínio. Temos também música, graffiti e outros elementos que criam todo o universo destes bairros.
A peça aborda temas como a memória, a esperança e a procura da felicidade. Como é que descreves a importância de se falar destes temas hoje em dia?
São sempre temas que nos amedrontam e que representam os nossos fantasmas, muitas vezes bem reais. A questão da habitação está muito presente: conseguir pagar o crédito ou a renda, ter condições de habitação. Acho que é uma das nossas grandes dificuldades no país neste momento, portanto, tudo o que dizemos aqui é super atual. Há também uma personagem que dá um curso sobre como se mata uma pessoa em 30 segundos. É uma metáfora para todas estas coisas da sociedade e dos Estados que nos vão matando lentamente. Não matam rápido, mas matam lentamente. A peça fala também de desigualdade social, educação e sexualidade. Mas há sempre esperança. O dia seguinte vai ser melhor. Acho que é também uma boa ironia sobre a nossa sociedade.
Quais foram os maiores desafios na construção da tua personagem?
“O Homem que Lia Livros” é uma personagem complexa e tem uma contenção interessante, o que é um desafio. É uma pessoa que vive muito refugiada nos livros. Se só leres livros e o resto da tua vida ficar para segundo plano, se não procurares emprego, não fizeres compras, não fizeres as coisas práticas do dia a dia, não dá para funcionar muito bem assim. É uma pessoa aparentemente banal, desiludida e triste. E a mulher, a Ema, quer afeto, quer intimidade, quer sexo também. Quer aquilo de que um casal normalmente precisa. E ele não tem esse interesse. Há ali uma falta de conexão entre os dois. Ele refugia-se nos autores, nos livros e na ficção, fugindo um bocadinho à realidade. É uma personagem contida, mas depois vai ter uma explosão. Esse é um dos desafios: perceber essa mágoa e essa falta de conexão com a parceira. E depois tenho outro desafio com a personagem do “Homem Exemplarmente Vestido”.É uma personagem que simboliza um bocadinho os 2%, o capitalismo e quem vive acima do sistema. Faz um discurso sobre como se mata uma pessoa, com aquela ironia e aquele absurdo de quem vive acima da sociedade. Não me identifico completamente com isso, mas é interessante de fazer. É uma espécie de vilão dos tempos atuais. Tenho aqui dois pólos completamente opostos e é interessante trabalhar isso.
O que é que distingue este espetáculo de outras produções em que já participaste?
Penso que existe uma grande diversidade neste espetáculo. Temos graffiti em cena, música, som, efeitos relacionados com a cidade e algumas projeções de vídeo. O estilo das cenas e a rapidez com que se passa de uma cena para outra também não são comuns. As personagens são muito caricatas, mas têm muita profundidade. Tens fragmentos em que as personagens fazem um desabafo sobre a sua vida e depois vês um bocadinho dessa vida em cena. Penso que é um espetáculo diferente, criativo e que vai transportar as pessoas para um bairro característico, com o qual muitas se vão identificar.
Como descreves o trabalho desenvolvido com o encenador, Jorge Gomes Ribeiro?
Já trabalhei com o Jorge há algum tempo, em contextos diferentes. O Jorge faz uma dramaturgia muito profunda e elaborada, muito ligada à estética e à personagem. É um encenador que sabe bem o que quer e leva-nos por esse caminho. Tem também um grande mérito na adaptação e na construção dos diálogos. Não é fácil conjugar todos estes elementos: grupos de atores, música, bicicletas, graffiti. Temos vários elementos que tornam a peça muito diversificada. Nunca é tudo igual.
O espetáculo reúne um elenco muito alargado. Como foi o processo de criação em conjunto?
Temos um grupo extenso e também muito forte artisticamente. Acho que existe uma boa onda e estamos todos a trabalhar para o mesmo. Há cenas que não são fáceis com muita gente no palco. Só com a repetição e escutando-nos bem uns aos outros é que conseguimos fazê-las funcionar. Temos estilos diferentes, mas existe uma comunhão e uma familiaridade. Existe quase um trabalho cooperativo, em que nos ajudamos uns aos outros e, às vezes, damos opiniões. Acho que isso é importante. Só precisamos da rodagem.
O que é que esperas que o público leve consigo depois de assistir ao espetáculo?
Espero que o público se questione. Que leve também um pouco de poesia, alguma tragédia, algum drama e, espero eu, algumas gargalhadas. Acho que há uma beleza nas personagens e na maneira como lidam com as dificuldades. Como é que sobrevivem neste ambiente e como é que se entreajudam. Existe muito isso do bairro, de as pessoas se unirem e protegerem-se umas às outras. Penso que vão levar também um lado visual e musical muito forte. É um contexto muito nosso, muito humano, muito português. Pessoas que vivem situações muito críticas e mesmo assim conseguem rir, comunicar e viver. Portanto, será também uma tensão de sobreviventes.
Há algum momento do espetáculo que te tenha marcado durante os ensaios?
A reunião de condomínio é um dos momentos que mais me tem marcado. Temos de estar todos juntos, ao mesmo tempo, numa grande azáfama. Alguém quer só ler a ata e recolher as assinaturas, enquanto os restantes estão sempre a falar dos problemas dos prédios. Tens o homem desempregado, tens outro que se está a divorciar, e todas estas pessoas têm os seus problemas. É um caos controlado e social. Também me tem marcado o discurso do Homem Exemplarmente Vestido. Os atores gostam de fazer vilões, de experimentar o outro lado. Neste caso, interpretar um arrogante do capitalismo dá-me um certo gozo porque não é a minha realidade. Gosto de sentir a transformação que as personagens permitem. Neste caso, experimentar esse outro lado é muito interessante.