Recentemente, defendi, nas páginas da Ensaio, uma ideia que, à primeira vista, soa quase herética: a defesa da futilidade. Argumentei, com alguma convicção, que o supérfluo não é um erro do nosso tempo, mas uma necessidade antiga. Sempre fomos assim. Humanos precisam de intervalos, de distrações, de coisas que não servem para nada além de tornar o peso da existência um pouco mais leve.
Nem tudo pode ser profundo. Nem tudo deve ser útil. Ainda concordo. Há dignidade no inútil quando ele nos devolve o fôlego. Manoel de Barros é meu pai.
Mas, desde então, uma dúvida incômoda tem se instalado, dessas que não fazem barulho, mas também não vão embora. Até que ponto o supérfluo que consumimos ainda é descanso… e quando ele passa a ser sintoma?
Porque há uma diferença sutil, quase imperceptível, entre escolher o banal como pausa e depender dele como anestesia.

Os vídeos continuam lá: as frutas que falam, os roteiros apressados, as piadas que não chegam a ser piadas. E continuo, vez ou outra, assistindo. Não por interesse genuíno, mas por inércia. Como quem mastiga sem fome. Como quem não desliga a luz por não querer encarar o escuro.
Foi ali, nesse gesto automático, que minha própria defesa começou a rachar.
Sim, precisamos do supérfluo. Precisamos do leve, do inútil, do que não exige nada de nós. Mas há algo de melancólico quando o que não exige nada se torna exatamente o que mais consumimos. Como se estivéssemos constantemente negociando com o mínimo de atenção, de emoção, de presença.
Não é o morango narrador que preocupa. É o fato de ele ser suficiente.
O problema não é a futilidade em si, mas o quanto ela se expandiu para ocupar espaços que antes pertenciam a outras coisas: ao tédio criativo, ao pensamento disperso, até mesmo ao desconforto de existir sem distração. Hoje, qualquer segundo vazio parece pedir preenchimento imediato e aceitamos qualquer coisa que cumpra essa função.
Inclusive o tosco. Inclusive o descartável. Inclusive aquilo que, no fundo, sabemos que não nos acrescenta absolutamente nada.
Ainda acredito no direito ao supérfluo. Mas começo a suspeitar que, em algum ponto do caminho, deixamos de usá-lo como descanso e passamos a usá-lo como fuga. E fuga constante, ainda que confortável, cobra seu preço.
A pergunta que fica, e que talvez eu devesse ter feito antes naquele ensaio, não é se precisamos da futilidade.
É por que ela tem sido suficiente para nos manter ocupados… e, ao mesmo tempo, estranhamente vazios.
Crónica escrita por Bruna Martiolli
Fico me perguntando até onde o supérfluo vai ocupando espaços na cabeça, onde tinham que estar justamente o “tédio criativo, ao pensamento disperso, até mesmo ao desconforto de existir sem distração” conforme citado na cronica, é um scrolling infinito que vai nos ocupando e tirando até o que não deve ser supérfluo, o que tem significado, profundidade, e nos tornando assim como o título, anestesiados.
EXCELENTE (mais uma vez) e obrigado pelo escrito.
Aqui quero indicar — ou me limitar a citar —:
I. O meme*: “Que nunca nos falte o supérfluo”, de Val Marchiori (socialite, empresária, apresentadora e ex-modelo brasileira, conhecida por sua participação no reality show Mulheres Ricas). Concordo muito: o supérfluo não é algo necessariamente dispensável, mas constitui parte de nossa presença viva no mundo para além do trabalho (e suas múltiplas expressões). A vida humana é também fruição;
II. A cultura — em sua múltipla definição — acolhe esses vazios e, ao nos nutrir, pode tanto nos alienar quanto nos oferecer sentido. Nesse aspecto, exige-se reflexão e, certamente, atos para sair da inércia. E aqui vou me limitar a indicar, especificamente, a noção de “ginásio do discernimento” do Papa Francisco, no contexto da literatura, conforme sua carta:
[https://www.vatican.va/content/francesco/pt/letters/2024/documents/20240717-lettera-ruolo-letteratura-formazione.html](https://www.vatican.va/content/francesco/pt/letters/2024/documents/20240717-lettera-ruolo-letteratura-formazione.html)
Não obstante, infelizmente, a vida tem sido tão dura — são tantas crises — que a “anestesia do supérfluo” tende, senão a ajudar, ao menos a apaziguar minimamente. Mas também pode nos adoecer, afetando a alma ou nosso psiquismo.
Talvez seja válido ler:
Saber dos Antigos: Terapia para os tempos atuais, de Giovanni Reale
As seis doenças do espírito contemporâneo, de Constantin Noica
Ou ainda o convite crítico e reflexivo de um pensamento em psicanálise, como o de Contardo Calligaris (Escritor e psicanalista brasileiro-italiano) em sua obra: aproveitar a vida e suas dores.
E isso é o que digo — mais uma vez, muito obrigado.
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* O termo “meme” foi cunhado pelo biólogo Richard Dawkins em seu livro O Gene Egoísta (1976) para descrever unidades de transmissão cultural — ideias, comportamentos ou estilos — que se replicam de mente em mente, de modo análogo aos genes na evolução biológica.