Beatriz Albuquerque, artista plástica portuguesa com uma carreira internacional, reúne em “Corpo em Ação” mais de duas décadas de uma prática artística que une performance, participação e ativismo. O seu trabalho explora como o corpo se torna um espaço político e como a arte pode transformar realidades, aproximando artistas e público num diálogo constante.
A exposição, em exibição no Museu da Vila Velha até 6 de setembro, oferece uma imersão no seu trabalho provocador e envolvente.
“Corpo em Ação” percorre mais de 20 anos do seu trabalho. Se tivesse de escolher um gesto que resuma o que é o seu corpo em ação, qual seria?
Eu diria que é a minha performance “Cor”. Em 2004, juntei-me à turma da Marina Abramović em Braunschweig, na Alemanha, depois de já ter participado nos seus workshops Cleaning the House. Fui uma das pessoas escolhidas para integrar o grupo que ela formou – o Independent Performance Group. Era um coletivo em que cada um desenvolvia o seu trabalho individualmente, mas todo o processo acontecia dentro de uma lógica de comunidade.
Houve um workshop marcante em Cádiz, no centro de arte NMAC, e essa experiência teve muito peso na minha decisão de começar a viajar com frequência para a Alemanha. Estava no último ano das Belas-Artes e fazia estas idas intensivas duas semanas a cada quatro meses. Foi nesse contexto que criei a peça “Cor” (ou “Colors”), muito simples na sua forma: uso um batom e começo a pintar os lábios, exageradamente, até que a cor se espalha e o rosto se transforma quase numa máscara, que pode lembrar até os caretos. Fiz essa performance algumas vezes, sempre de forma bastante rápida.
Quando a turma da Marina terminou, ela foi para os Estados Unidos e, coincidentemente, nesse mesmo ano fui tirar o mestrado em Chicago. Logo ao chegar, fui convidada a apresentar uma performance numa galeria. Lembro-me de seguir um grupo do meu departamento até ao local, que nem sequer aparecia no mapa da cidade. Achei estranho, e os meus colegas explicaram: “No mapa do turista, não aparecem as zonas más.” A certa altura, percebi que estávamos numa comunidade maioritariamente latina. Vi uns santinhos na esquina, e inicialmente pensei que eram manifestações religiosas, mas depois entendi que estavam ligados a mortes e gangues. Na altura, nem percebi, até achei aquilo tudo bastante artístico.
Quando cheguei à galeria, avisaram-nos que havia algumas tensões com a comunidade local. Havia dois espaços distintos, e tudo parecia calmo até um grupo de miúdos entrar e gerar um grande rebuliço. De repente, um deles, que devia ter uns dez anos, entrou com uma arma. Nem sequer conseguia segurá-la bem, mas apontou para toda a gente. Eu estava mesmo ao lado da porta e pensei: “Vou morrer aqui. Vim de Portugal para fazer uma performance e vou levar um tiro” (risos). Outros jovens e adultos entraram também, e a tensão era palpável… mas acabou por passar.
Mesmo com aquele ambiente instável, decidi seguir com a minha performance. Com o meu sotaque espanhol, dei o sinal com um apito e comecei. Foram 10 minutos intensos. Ao terminar, vi a transformação nos olhos de quem estava ali. Houve silêncio, depois aplausos. Alguns dos líderes do grupo vieram ter comigo e disseram coisas como: “Eu percebo isto. Isto sou eu. Isto somos nós. A discriminação, as máscaras.” Para mim, esse momento é o que representa o corpo em ação: a arte a transformar o espaço, o outro e a nós próprios.
Nesse momento, a agressividade desapareceu. Um deles disse-me: “Agora eu percebo o que queres dizer.” A partir daí, comecei a trabalhar de forma mais direta com o público, com uma abordagem mais ativista.
O corpo em ação é esse instante de transformação quando, através de uma ação, conseguimos ver algo mudar no outro.
A arte da Beatriz é muito assim, de convocar as pessoas a participar e a criar. Num tempo em que o público é muitas vezes espetador passivo, que procura nesse encontro com o outro?
Nesse encontro, procuro provocar algo dentro da própria pessoa: que surja um pensamento novo sobre a sua vida, algo que nunca tinha sido visto daquela perspetiva. Quero que esse momento desperte qualquer coisa no quotidiano dela, que a faça olhar para o mundo de forma diferente. Pode ser um olhar, uma conversa que nasce a partir disso. Talvez não transforme totalmente aquela pessoa, mas pode desencadear uma mudança em alguém à sua volta. O que procuro é esse movimento de ação, de questionamento – uma reação positiva, que promova igualdade e aceitação.
“Activism” integrou uma ação de protesto contra os cortes na cultura. Na sua opinião, o que ainda falta à arte contemporânea portuguesa para se tornar uma verdadeira ferramenta política?
Eu acredito que toda a arte é política, seja portuguesa ou estrangeira. Todos nós somos políticos, quer queiramos quer não, porque refletimos a sociedade em que vivemos. Eessa sociedade é, por si só, política.
A arte é inerentemente política porque está inserida no contexto em que existe, com todas as suas preocupações e desafios. Por isso, não acho que falte algo à arte contemporânea portuguesa para ser uma ferramenta política, ela já o é.
Usa videojogos e cultura pop como linguagem artística. O que lhe interessa tanto na cultura pop para a transformar em arte?
A cultura pop já é arte em si mesma. O seu exagero, por exemplo, pode ser visto como glitching, que é um movimento artístico. Por isso, para mim, tudo é arte. Vejo a arte como a sensação do belo e do sublime, não apenas na natureza, mas também em muitas outras formas que nem sempre reconhecemos como arte. Para mim, videojogos, gamificação e tudo o que está à nossa volta também são arte. Estamos rodeados de arte, há quem use essa terminologia e quem não, mas, no fundo, tudo é arte.
No dia 6 de setembro, vai trabalhar “de graça” para quem quiser. Como funciona esse processo de colaboração com quem participa?
O que digo às pessoas é que podem participar, como fez o Valter Hugo Mãe, que veio muito preparado. Tivemos uma conversa onde ele me explicou o tema e as cores predominantes, além do tempo, que era de cinco minutos. Só não especificou qual parte do corpo queria usar, então eu escolhi os pés. Tenho formação em ballet, por isso consigo desenhar com os pés, e o resultado foi quase como aquelas estampas japonesas que mostram montanhas e terraços, um paraíso minimalista.
As pessoas podem acompanhar todo o processo. Tenho uma história interessante de alguém que pediu uma pintura abstrata e quis estar comigo durante a criação. Depois de alguns dias, essa pessoa disse: “Ai meu Deus, não sabia que o abstrato demorava tanto,pensei que fosse em meia dúzia de minutos. Acho que agora só venho buscá-la pronta.”
Quando recebo um pedido, já crio imagens na minha cabeça. Enquanto a pessoa vai falando, vou formando um “filme” mental, moldando a imagem de acordo com o que me dizem.
Tem uma carreira com forte presença internacional. O que é que leva sempre de Portugal consigo e o que é que traz de volta?
Levo sempre comigo um pouco de Portugal e também trago algo de volta. Grande parte dos meus projetos refletem o confronto entre estes dois mundos. Sou portuguesa, com um olhar português, mas a experiência nos Estados Unidos trouxe uma outra perspetiva. Quando cheguei lá, foi um choque, eles têm uma hierarquia muito forte, um capitalismo muito presente, e foi aí que comecei a questionar muita coisa.
Descobri também que a rua pública, lá, na verdade, não é tão pública quanto pensamos. Em Portugal, a rua é pública, podemos fazer performance livremente. Nos EUA, a rua em frente a uma loja pertence ao dono da loja. Se ficarmos mais tempo que o permitido, podem chamar a polícia ou mandar-nos recolher para uma linha invisível. Contudo, a legislação americana diz que, se estivermos em movimento, a polícia não pode multar sem pedir identificação.
Num festival de rua em Nova Iorque, fiz uma performance em movimento:comecei num Starbucks, fiz um grafiti e a polícia acompanhou-me o caminho todo. No fim, perguntaram-me o que estava a fazer, e respondi: “O que estava a fazer, já fiz.” Sabia que, por estar em movimento, não podia ser multada.
Aprendi que, lá, a rua não é verdadeiramente pública. Mas eu, como portuguesa, quero ocupar a via pública, e ocupo! (risos) Esse pedaço de mim vai sempre comigo.
Tem histórias muito engraçadas e interessantes ao longo do seu percurso. Quer partilhar algumas?
Sim, por isso é que criei o projeto “Wonder Memories – Peregrinos da Memória“. Quando voltei para Portugal, tinha milhares dessas histórias na cabeça e pensei: como é que vamos guardar todas estas experiências do português pelo mundo?
Tenho mesmo muitas histórias. Por exemplo, quando fui ao The Kitche – um espaço em Nova Iorque – fui convidada para fazer uma performance chamada “Predict the Future through Chocolate”. Estava agendada para 20 minutos, mas a fila era tão grande que acabou por mais de duas horas e o curador avisou que tínhamos que fechar.
Na performance, eu criava a minha taxonomia e “lia” o futuro das pessoas através dos chocolates. As pessoas nem precisavam dizer a pergunta, pensavam nela e eu fazia a leitura.
Houve uma senhora que se sentou e a resposta dela foi: “Sim, vai ser complicado no início, vai haver discussões, mas depois vai tornar-se realidade.” Ela não queria acreditar, disse que estava errada e pediu uma nova leitura. Ela mordeu o chocolate de novo, eu tirei e dei basicamente a mesma resposta. Eu nem sabia qual era a pergunta, só dizia o que o chocolate mostrava, mesmo que não fizesse sentido para ela.
No fim, ela contou-me qual era a pergunta: a sogra tinha comprado a casa ao lado da dela e queria mudar-se, não queria alugar, e a pergunta era sobre como ia ser esse processo (risos). Fazia tanto sentido que ela não queria aceitar aquela resposta (risos).
Tenho outra história parecida: um rapaz fez-me uma pergunta, eu dei-lhe a resposta, e ele perguntou se podia contar qual tinha sido a pergunta. A resposta que eu dei foi: “Tem de ver o que é que os outros partilham e gostam para que todos possam estar em harmonia.”
A pergunta dele era: “Como faço para os meus irmãos gostarem de mim, brincarem comigo e não me ignorarem?”
O Valter Hugo Mãe diz que usa a arte para apontar “um mundo melhor”. Que mundo é esse, para si?
Para mim, é um mundo de igualdade e aceitação. Um mundo onde todos nos sentimos amados, respeitados, onde temos o nosso espaço e podemos contribuir.