“Boa Noite, Mãe” estreia na Malaposta a 25 de setembro: “É importante as pessoas saírem sensibilizadas porque às vezes não se apercebem que na sua intimidade há outra pessoa que não se sente assim tão bem.” 

A peça “Boa Noite, Mãe”, da dramaturga norte-americana Marsha Norman, estará em cena de 25 a 27 de setembro no Centro Cultural da Malaposta, em Lisboa. Com encenação de Miguel Maia e interpretação de Inês Rosado e Lucinda Loureiro, a produção é da Companhia de teatro Cepa Torta. 

Escrita em 1980 e vencedora do Prémio Pulitzer de Teatro em 1983, a peça acompanha a relação entre uma mãe e uma filha durante uma noite marcada por uma decisão irreversível. A filha anuncia à mãe que pretende suicidar-se nessa mesma noite e revela que tudo está preparado. A partir desse momento, as duas permanecem juntas numa conversa sem possibilidade de fuga. 

Depois da passagem pela Malaposta, “Boa Noite, Mãe” será apresentada no TEMPO – Teatro Municipal de Portimão, a 17 e 18 de outubro, e no Auditório Carlos Avilez, no Estoril, a 20 e 21 de fevereiro de 2027.

Aceda à entrevista ao encenador Miguel Maia.

 

Marsha Norman partiu da ideia de escrever sobre algo que a aterrorizasse para fazer esta peça. O que é que este texto lhe provoca enquanto encenador?

Este texto aterroriza-me de duas formas. Uma delas é o tema, que é bastante absurdo, porque este tipo de situações não ocorre desta forma. Quando alguém se suicida, não avisa com tanta antecedência, e, portanto, a Marsha Norman cria aqui uma situação absurda e que é muito difícil de aguentar sem intervir. Isto é uma história muito bem escrita e que não nos deixa descansar. Eu não costumo trabalhar repertório, textos já feitos, eu costumo escrever à medida que vou trabalhando num tema, crio textos a partir dos atores, ou faço adaptações de textos literários, portanto, é uma espécie de estreia minha. Eu queria pegar um texto com uma história com princípio, meio e fim, e surrealizá-lo, começando por uma cenografia completamente fora do que é normal fazer-se neste tipo de texto e também procurando ter alguns momentos em que dizemos ao público “vejam como isto é difícil”, criar alguns momentos de distanciamento, quase brestiano. 

 

Como foi o processo de encenar uma peça sobre suicídio sem transformar o suicídio no espetáculo em si?

O texto já traz um bocadinho isso, é sobre muito mais do que uma mulher que se quer suicidar. Este texto é iminentemente feminista, mostra-nos uma mulher que tem questões não resolvidas, rodeada por um ambiente patriarcal. Há uma série de figuras masculinas que surgem, o irmão, o ex-marido e o pai dela, e que tiveram um impacto importante na sua vida e na da mãe, que nem sempre foi produtivo. Acabamos por sentir uma espécie de claustrofobia destas duas mulheres, rodeadas por um ambiente feito por homens. Esta é uma pessoa a quem sempre foi negada agência, tanto pela mãe, que ela própria era invisível perante o marido, como depois por outras pessoas que não viram quem ela realmente era. Ela diz na peça que nunca chegou a ser quem era para ser, e agora que está melhor, com mais saúde e tem possibilidade de tomar decisões sobre si própria, a decisão que vai tomar é esta. Esse lado da agência feminina, para mim, interessa muito neste espetáculo. 

 

Quais foram as escolhas visuais para que o cenário revele aquilo que as personagens não querem dizer?

O drama também é personificado pela casa. A casa também é uma personagem, é o lugar onde a opressão aconteceu e onde aquelas mulheres viveram presas. É interessante pegar na casa e, de alguma forma, fazê-la “explodir”. Tornar alguns elementos mais expressivos e torná-la um espaço não iluminado, como se fosse uma espécie de ambiente fronteiro, um não-lugar. Por isso, pegámos nos elementos funcionais de uma sala, uma cozinha e um quarto e o Nuno Tomaz (cenógrafo e aderecista) propôs um conjunto de formas geométricas que são também obstáculos entre aquelas duas mulheres porque elas estão sempre em oposição.

Como foi o trabalho com as atrizes Inês Rosado e Lucinda Loureiro na construção da relação mãe e filha? 

Foi muito boa porque elas são extraordinárias. A Inês e a Lucinda são de gerações diferentes. A Lucinda já tem 48 anos de vida teatral e traz-nos uma experiência muito forte e uma enorme capacidade de se adaptar a propostas desafiantes. A Inês é uma atriz muito plástica e que rapidamente entende o que é necessário fazer. É óbvio que isto vai buscar emoções e sítios um bocadinho mais negros. É muito difícil trabalhar isto sem nos emocionarmos ou sentirmos que estamos a pisar em terreno instável e frágil. Mas elas conseguiram ter uma enorme coragem e ligaram-se logo muito as duas, portanto, foi muito fácil trabalhar com elas. 

 

Houve alguma descoberta durante os ensaios que tenha alterado a sua leitura inicial da peça? 

Nós fomos sempre descobrindo várias coisas nos textos. Mesmo que os leiamos mil vezes, só depois de estarem no corpo dos atores é que percebemos o que está a acontecer, e isso é extraordinário. O que eu descobri é que o texto tem muito mais comédia do que eu imaginaria. É muito fácil nós cairmos numa abordagem super dramática, trágica do destino destas duas pessoas. Mas ao mesmo tempo está cheia de humor negro, e eu acho que isso foi muito divertido. Descobrir que estas mulheres podem ser quase personagens absurdas. No limite, até podia ser feito com duas palhaças em cena a fazer gags cómicos. Isso foi muito divertido descobrir.

 

Esta peça é sobre duas pessoas, mas fala também da sociedade em geral, da dificuldade em reconhecer o sofrimento dos outros. Que reflexão gostaria de provocar no público que vai ver este espetáculo? 

Eu não gosto muito de fechar significados. Gostava de deixar muita coisa em aberto, porque já me aconteceu muitas vezes as pessoas verem uma peça e têm opiniões completamente diferentes. Mas, acho que é importante a questão da escuta, a peça fala muito disso. Não me parece que a mãe seja culpada de tudo, nem que a filha esteja isenta de culpa. É importante as pessoas saírem sensibilizadas porque às vezes não se apercebem que na sua intimidade há outra pessoa que não se sente assim tão bem. Isso já seria positivo. 

 

O texto foi escrito nos anos 80. O que lhe parece mais atual neste texto? 

O Estado do Mundo. Isto foi escrito antes de o muro de Berlim cair, numa altura de grande tensão entre os dois blocos, e o medo do comunismo ainda muito presente. Atualmente, o Estado do Mundo está muito mais assustador do que nos anos 80. Mas, é uma peça intemporal, porque fala da questão do patriarcado, que ainda é bastante atual. Claramente, ainda vivemos num ambiente que força as pessoas a fecharem-se numa relação que é oprimida por homens. Mas, por outro lado, fala de uma relação entre duas pessoas, e isso é intemporal. Nesse aspecto, é um clássico. 

 

Houve algo particularmente mais difícil na construção deste espetáculo? 

Foi difícil não cair sempre no drama total, em que está toda a gente a chorar, porque a peça é muito mais do que isso. Isso foi difícil de fugir. A peça puxa um bocadinho para isso e nós tentámos dar muito mais luz e tridimensionalidade às personagens e à relação entre as duas, do que simplesmente estarem as duas a agredir-se ou a chorar no ombro uma da outra.

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