“Caminho do Céu” em exibição no Teatro São Luiz

O espetáculo Caminho do Céu, do dramaturgo espanhol Juan Mayorga, encenado por Rita Cabaço, estreou a 30 de setembro na Sala Mário Viegas do Teatro São Luiz, em Lisboa. 

“Sempre pensei que se surgisse a oportunidade de encenar, iria escolher esta peça, não só porque tem um grande potencial cenicamente, mas também pela forma como aborda temáticas como a desumanização, a opressão e a violência”, conta a atriz e encenadora. 

A peça parte de um episódio histórico relacionado com o Holocausto: a criação, pelos nazis, de uma falsa cidade judaica em Terezín, na atual República Checa, destinada a encobrir perante observadores internacionais as condições de vida dos prisioneiros do campo de concentração.

O espetáculo propõe uma reflexão sobre propaganda, memória e responsabilidade individual, questionando o papel de cada pessoa na construção do presente e a forma como a história pode repetir determinados mecanismos de violência e manipulação.

“Partir da história de um campo de concentração que é encenado para manipular a opinião pública, para falar de uma forma mais abstrata sobre a ciclicidade da História e os mecanismos de desumanização, opressão e violência que tendemos a repetir. O absurdo está hoje tão presente nas grandes figuras mundiais e nas decisões que tomam, ao ponto de estar a controlar o pensamento, a razão e os códigos de conduta que dávamos por garantidos para viver em sociedade”, diz Rita Cabaço.

Este espetáculo conta com a interpretação de pessoas sem experiência teatral prévia, de diferentes origens e faixas etárias, que foram selecionadas através de uma open call, que recebeu muitas candidaturas. “O facto de eles não terem a intenção de serem atores e estarem ali apenas pelo prazer de estar em cena, em comunidade, faz com que a generosidade que empregam seja ainda maior. E aquilo que eu tento é poder retribuir essa generosidade através da experiência que lhes posso proporcionar.” 

Os participantes em palco são Brenno Borges, Cecília Graterol, Constança Ferreira, Eduardo Henriques, Emília Silva, Francisca Lopes, Guilherme Veloso, Idalina Martins, Luiz Rodrigues, Maria do Mar, Paulo Almeida, Rita Lopes e Romeu Castanheira. 

“Para além da questão da diversidade, estava à procura de corpos que não estivessem completamente à vontade em cena, ou seja, quanto menos a experiência, melhor. Entrar em cena coloca o corpo num lugar de maior tensão, dúvida e estranheza, tudo isso foram fatores que achei importantes para espelhar em cena”.  

Este espetáculo marca a estreia de Rita Cabaço na encenação, que enfrentou o desafio de encenar não-atores em palco.

“Estar a dirigir atores que estão a representar o espetáculo que eu imagino faz-me aprender muitas coisas sobre mim como atriz. É como se eu me visse a mim própria, através deles em cena e percebesse certos mecanismos que tenho de trabalhar. É eu ganhar uma perceção maior do meu trabalho como atriz através do meu olhar como encenadora.” 

O espetáculo estará em cena até 11 de outubro no São Luiz. Depois, a peça será apresentada a 6 de novembro no Teatro Viriato em Viseu e a 12 de dezembro no Cine-Teatro Louletano. 

“Cada espectador é um espectador, haverá centenas de interpretações diferentes. Gostava que pudesse servir de espelho para aquilo que nós somos desde sempre e que provavelmente continuaremos a ser.” 

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