Há histórias que precisam de ser contadas. Catarina Rodrigues, engenheira química de formação e contadora do mundo por vocação, sabe disso melhor do que ninguém. Autora de 1001 Coisas que Nunca te Disse e Daniel, o Guardador de Sonhos, transforma realidades esquecidas em narrativas que desafiam o leitor.
Os seus livros não são apenas ficção – são “chamadas de atenção”, como ela própria descreve, para temas que a sociedade muitas vezes ignora. Inspirada pelos avós – foi com a avó, aos 88 anos, que se mudou para Bruxelas, numa aventura que deu origem ao seu mais recente romance, Quando o Amor é para Sempre.
Como surgiu o gosto pela engenharia e simultaneamente pela escrita?
Sou engenheira química não praticante (risos). Depois de concluir o curso, enveredei pela área de consultoria informática, onde trabalho há 11 anos.
Desde que aprendi a escrever, senti vontade de expressar-me em palavras: adorava criar textos, poemas e até peças de teatro, que costumava representar nos serões com os meus avós. A minha avó estava a costurar e o meu avô a ler o jornal, mas paravam sempre tudo para me ouvir e aplaudiam como se tivesse feito a coisa mais espetacular do mundo. Ainda guardo algumas dessas folhas antigas.
Sempre me senti realizada na escrita, mas a minha avó dizia: “isso é muito bonito, mas, neste país, arte e cultura não vestem a camisa a ninguém nem põem pão na mesa.” E como sempre gostei de ciência, física e matemática, seguir Engenharia Química foi uma escolha natural, oferece-me a estrutura de que preciso. Acho que consegui juntar o melhor dos dois mundos.
Em que momento sentes o impulso para dar início a uma nova história?
Escrevo de forma muito intuitiva. Costuma surgir-me uma ideia – pode ser depois de conhecer alguém, ler um artigo no jornal ou ouvir uma música – e imediatamente começo um brainstorming interno: penso em quem vai contar a história, qual a mensagem que quero transmitir e o tema que quero explorar. Quando sinto que já tenho muita coisa na cabeça, estruturo a timeline. Sigo sempre a minha intuição e, quando percebo “é este tema, é esta a hora”, paro tudo e mergulho na escrita de forma quase obsessiva (risos).
Como é que, tanto a mentalidade científica quanto o conhecimento de desenvolvimento pessoal, influenciam a forma como crias conflitos emocionais e constróis as relações entre as personagens?
O meu background em engenharia ajuda-me a ser muito estruturada. Sou super organizada e encaro a escrita quase como um projeto de engenharia (risos), com tudo bem definido. Claro que, depois de avançar, a história acaba por ganhar vida própria e me surpreender, mas gosto de iniciar sempre com um ponto de partida e de chegada bem claros. Gosto de saber para onde vou antes de começar.
Por outro lado, a formação em desenvolvimento pessoal aguçou-me a capacidade de observação e a sensibilidade para perceber o que está do outro lado. Acredito que o mais fascinante é ouvir a história de cada pessoa: cada um de nós tem uma história única e só querer conhecer, sem julgar, é o pano de fundo para criar imensas histórias espetaculares, mesmo que sejam só ficção.
Se tivermos essa sensibilidade, conseguimos escrever uma história humana em que as pessoas se revejam. Um dos meus objetivos é que, ao ler, o público pense “podia ser eu, eu também já senti desta maneira”. Para mim, as narrativas mais tocantes são aquelas que são profundamente humanas.
1001 Coisas que Nunca te Disse foi o teu primeiro livro, em 2018. Como reagiu o público a esta estreia?
O público foi muito acolhedor e generoso. Por se apresentar num formato de cartas e ter um tom mais reflexivo, não é um livro consensual: ou entras na história e aprecias esse estilo, ou não entras e achas uma seca. Consigo perceber quem diz “não é para mim” (risos). Para quem gosta acaba por ser muito tocante.
“Acho que, quando as coisas não nos afetam, não pensamos muito nelas.”
Em Daniel, o Guardador de Sonhos (2024), de onde surgiu a ideia de criar uma personagem que literalmente “guarda” sonhos, e que mensagem querias passar ao leitor?
Essa ideia surgiu durante o segundo confinamento. Eu estava a percorrer o Instagram de uma antiga professora de trapézio – ela gere a página “Um Artista Aí em Casa” e desenvolvia kits para as crianças fazerem com os pais, misturando artes e leitura. Foi aí que ela partilhou a sua história de vida: após um parto, apanhou uma infeção hospitalar e ficou completamente surda – uma realidade que eu, que ouço perfeitamente, nunca tinha imaginado. Acho que, quando as coisas não nos afetam, não pensamos muito nelas.
E durante a pandemia? Os surdos precisam da língua gestual para conseguirem compreender, e nós estávamos de máscaras. Como é que um surdo vivia? Foi um período de muita solidão para a comunidade surda e senti que faltava representá-los na literatura, sobretudo na infanto-juvenil.
Nasceu assim o Daniel: um menino surdo com um implante coclear que tem a capacidade de ouvir os sonhos mais profundos escondidos nos corações das pessoas. Quis demonstrar a empatia: nem todos os ouvidos ouvem, mas todos os corações falam. O Daniel percebe esses sonhos e carrega-os às costas – como se tivesse uma mochila cheia de pedras – até descobrir que a única forma de aliviar esse peso é ajudar cada pessoa a concretizar o seu sonho. Mesmo que não mude toda a vida de alguém, ser um ombro amigo já transforma a vida de quem cruza o seu caminho.
“A minha avó é a minha fonte de inspiração para tudo.”
Sabendo que Quando o Amor é para Sempre é inspirado numa história verídica da tua vida, como foi o processo de transformar essa experiência pessoal num romance?
Foi incrível e completamente inesperado. Quando decidi levar a minha avó comigo para Bruxelas e começámos a viver juntas, nunca imaginei que pudesse ser matéria para um livro. Estava tão mergulhada na nossa rotina que nunca achei que os nossos episódios e dilemas domésticos pudessem ser interessantes. Até que uma amiga editora me sugeriu: “Por que não escreves sobre as aventuras de levar a tua avó para o estrangeiro? As pessoas precisam de conhecer essas histórias.”
Ao mesmo tempo, tinha acabado de ler E se eu morrer amanhã, da Filipa Fonseca Silva, que dá voz a uma protagonista sénior a descobrir a sua sexualidade – outra realidade pouco representada. Achei que fazia sentido revisitar a nossa vida e contá-la conforme ia acontecendo: umas partes vinham das memórias antigas, outras eram mais recentes e outras eu ia escrevendo em tempo real.
Apesar de ter um pano muito ficcional, foi interessante falar da nossa rotina, dos nossos desafios e do papel do idoso na nossa sociedade. Senti que estas mulheres precisavam de ser representadas. Foi uma espiral de emoções: louco, emocionante, duro, difícil, divertido, porque a minha avó é muito cómica. Foi uma viagem de vida (risos).
Como é que a tua avó reagiu?
Quando lhe disse que ia escrever sobre a nossa vida, ela disse que eu era maluca (risos). É uma história também muito peculiar: no livro, a protagonista tem 85 anos, mas a minha avó mudou-se comigo para Bruxelas com 88.
O meu avô tinha falecido inesperadamente, eu já tinha as malas feitas para partir e sabia que ela ficaria sozinha. Ao mesmo tempo, não podia recusar uma proposta de trabalho tão boa, com tudo alinhavado. A única solução foi levá-la comigo. Perguntei-lhe “Queres vir comigo?” e ela respondeu logo que sim – nem precisei de tirar da lista de argumentos que tinha preparado. A minha avó é a minha fonte de inspiração para tudo (risos).
“Os meus livros são uma chamada de atenção: ‘vocês precisam de conhecer esta história e ouvir sobre esta realidade’.”
Foi um desafio expor essa parte íntima?
Foi um grande desafio, sobretudo quando falei do meu avô. Para mim, ele foi uma das pessoas mais importantes da minha vida: inspirou-me muito, mas era também um homem do seu tempo – autoritário, misógino e um marido distante. Era rígido com o meu pai e o meu tio, que nunca conseguiram criar uma relação próxima com ele, e a minha avó viveu um casamento infeliz
Tu conheces alguém que, para ti, é uma referência e inspiração, mas que para os outros surge como uma pessoa completamente diferente. Conseguir perdoar isso e entender que o meu avô era alguém que eu amava profundamente e, ao mesmo tempo, muito imperfeito, foi a parte mais difícil.
Os teus avós são uma grande fonte de inspiração para ti…
São mesmo, em tudo. Acabo sempre por voltar aos meus avós de alguma forma, porque eles são as minhas referências de vida. São a minha história. A minha narrativa está, desde sempre, intrinsecamente ligada à deles.
Nos teus romances, a família, o amor e o autoconhecimento são temas recorrentes. Como escolhes os temas que vais abordar em cada livro?
Eu tento dar voz a temas que considero importantes, mas pouco explorados. Por exemplo, o papel do cuidador informal é fundamental na sociedade, mas não tem reconhecimento social nem financeiro, e raramente o vemos retratado na literatura.
Gosto de identificar realidades que existem ao nosso lado, mas que passam despercebidas e dar-lhes destaque. É preciso ouvir. Acho que os meus livros são uma chamada de atenção: “vocês precisam de ouvir conhecer esta história e ouvir sobre esta realidade”.
Como definirias o “tom” ou a “personalidade” que atravessa todos os teus romances? Existe um fio condutor ou cada um tem identidade própria?
Acho que há, sim, um fio comum: todos os meus livros são muito humanos. Não tento camuflar nada – exponho o bom e o mau, a fragilidade e a falha. Apesar de a minha escrita ter um toque poético, é muito direta e crua na sua essência. Aceito quem sou e expresso-me sem medo. Todos os meus personagens são assim.