Cid Castro apresenta exposição Face Grafitti

No passado domingo, dia 14 de junho, o artista plástico brasileiro Cid Castro presenteou-nos com a exposição individual “Face Grafitti” num ambiente descontraído, tal como o pintor, no espaço Palaphita, na Casa da Guia em Cascais.

Através de texturas e tags, Cid Castro personifica em tela, retratos de pessoas reais que admira. A exposição conta com 16 quadros de vários atores, músicos, atletas, comediantes e realizadores. São eles José Condessa, Daniel Oliveira, Dino D’Santiago, Nuno Markl, Laura e Lucas Dutra (filhos de Cid Castro), Tó Trips, Cristiano Ronaldo, Madalena Aragão, Gabriel O Pensador, Maria Alice Medina, Ruth Bader, Alexandre Montenegro, Raul Schmidt, Carlos D’Almeida Ribeiro e Shiva (cadela de Cid Castro). O evento servirá não só para dar a conhecer as peças feitas pelo pintor, que se estreia como artista plástico independente em Portugal, mas também para oferecê-las aos retratados que marcaram presença na exposição.

Com a exposição foi lançado o site oficial, onde qualquer pessoa poderá ver as obras do artista, fazer um pedido de encomenda, ou até mesmo entrar em contacto direto com o artista e acompanhar o seu trabalho em futuras exposições.

 

Começou a pintar nos anos 70, por influência do seu pai e dos seus tios que também eram pintores. Quais foram os principais conselhos, sugestões e inspirações que recebeu desde pequeno para se dedicar à pintura?

O meu pai pintava mais como hobby, não era a profissão dele. Os meus tios realmente viviam da pintura e era uma pintura muito comercial. Eles expunham pinturas na Praça da República em São Paulo. Cada um com um estilo diferente, uns faziam florestas queimando, outros faziam aquelas ondas quebrando nas marinas. Eles pintavam todos os dias, a não ser no final de semana e os filhos também depois viraram pintores. Influenciou-me bastante o convívio com eles no meio dos pincéis, do cheiro forte das tintas, trabalhava-se com tintas muito tóxicas. A influência maior que eles tiveram em mim foi a parte pictórica, a parte da mistura das cores, das texturas que eles pintavam. Isso mexeu muito com a minha cabeça, do ponto de vista artístico.

 

Em 1984 criou o logotipo de Rock in Rio, que é utilizado até hoje e trabalhou como designer publicitário. Consegue explicar as diferenças entre o mundo do design para a publicidade e o mundo da pintura que faz agora?

A grande diferença é a parte comercial. A publicidade usa todos os mecanismos que existem como arte, a música e os atores com o objetivo final de comunicar institucionalmente uma marca e efetuar vendas.  Por mais que a gente tenha acesso a toda essa panóplia de tudo que acontece na cultura, é refletido na comunicação. E essa é a maior diferença na parte puramente artística, porque não quer dizer que eu não queira ganhar dinheiro com a arte, mas há uma liberdade muito maior na hora de você conceber a obra do que no caso da publicidade, que acaba sendo muito restritiva.

 

Nasceu e começou a pintar no Brasil, depois, emigrou para Portugal em 1989.  Que diferenças é que sentiu no mundo da pintura e do design quando se mudou para Portugal?

Quando eu vim para cá, eu não pensava em voltar a pintar, o que eu pensei mesmo era vir para a publicidade. A pintura ficou muito afastada de mim durante os anos que eu trabalhei em publicidade no Brasil, não dava para conciliar as duas coisas. Quando eu cheguei aqui, foi um impacto muito grande, porque a comunicação e a publicidade, tem de refletir a cultura local, e eu não conhecia praticamente nada da cultura local. A gente tem uma ideia pelo que vê e lê, mas a vivência mesmo da cultura local é fundamental. Seja na parte visual de comunicação, como também na parte do vocabulário, da gramática. Mas eu acho que uma das grandes características do imigrante é a capacidade de adaptação. Então você vai aprendendo a conviver com uma gramática nova, e nesse ponto, a língua portuguesa de Portugal tem uma vantagem muito grande, porque há muito mais palavras. Nós comemos muitas palavras lá no Brasil, aqui nós vamos ficando com muito mais vocabulário. Mas até a gente pegar mesmo a melhor forma de comunicar dentro daquilo que o consumidor de outro país tem, é realmente um bocado duro.

 

Em 2004, resolveu aventurar-se na escrita e lançou o seu livro “Metendo o Pé na Lama – Os bastidores do Rock in Rio de 1985”. Sendo pintor e artista, como é que foi esta sua aventura noutra arte?

Escrever o livro sobre o Rock in Rio era um projeto que eu já tinha há muito tempo, mesmo antes de vir para Portugal, mas nunca consegui dar andamento nisso. O Rock in Rio teve três edições lá, depois não houve mais continuidade. De repente, eu fiquei sabendo que o Roberto Medina estava trazendo o Rock in Rio para Portugal, ele até entrou em contato comigo e tudo. E eu falei, “olha, isso é uma luz para eu avançar com o meu projeto de escrever a história do festival Rock in Rio”. O livro conta os bastidores do festival. Ele começa na agência de publicidade, com o Roberto Medina passando o briefing para a criação do logótipo, e termina no último dia do festival. O meu objetivo não foi fazer um livro histórico do Rock in Rio, foi sim mostrar a visão que eu tive dos bastidores. Quando eu comecei a escrever, as passagens vinham de forma aleatória, não havia uma cronologia. Eu simplesmente lembrava dos factos e ia escrevendo. Depois eu fui ao Brasil e, por sorte, arrumando as coisas que eu usava que tinham sobrado, eu encontrei a agenda de 1984/1985 do Rock in Rio, onde eu anotava os trabalhos que tinham de ser feitos. Então isso facilitou muito para organizar essa cronologia e fazer com que o livro tivesse começo, meio e fim.

 

Já trabalhou na publicidade e na pintura e até já lançou um livro. De todo o trabalho que fez, qual é a coisa que mais gostou de fazer até hoje?

Eu vivo muito o momento. E naquilo que eu faço eu tento me dedicar o máximo possível naquele momento e tentar tirar prazer daquilo que eu faço. Eu posso dizer que hoje em dia o que me dá mais prazer é exatamente fazer os face graffiti. É o que me dá paz de espírito, é o que faz com que eu resgate um bocado tudo aquilo que eu vivenciei de anos atrás. A intimidade com a tela, o estar sozinho. Eu, tela, pincéis, fazer aquela alquimia toda que o trabalho exige. E ainda por cima, apesar de ser muito prazeroso e eu me divertir muito, é com muito gosto que eu vejo que as pessoas gostam muito, apreciam muito ver o meu trabalho. Independente de idade, seja os amigos dos meus filhos, até o pessoal mais idoso. Sem falar que é um trabalho único. Eu, até hoje, nunca vi nada na internet com essa linguagem. Então, eu acho que esse somatório de tudo é o que faz com que o momento atual seja o meu melhor momento.

Em 2014, pintou o seu primeiro quadro com a temática do Face Graffiti. O que é que mais o inspira e diferencia no Face Graffiti em relação a tudo o resto?

O conceito do Face Graffiti não é meu. Face Graffiti é qualquer grafitti que você faz fazendo um rosto. A técnica de utilizar os tags na confeção desse rosto é que acho que individualiza bastante o meu trabalho. Essa eu penso que é a maior diferença. E uma coisa que eu sempre gostei muito dos tags, apesar das pessoas acharem que os tags sujam as ruas e as portas, mas para mim eles criam um movimento, criam um colorido em paredes que são insípidas. Esse movimento todo que eu vejo no Bairro Alto, em Marvila, e com grandes expoentes portugueses dessa área como o Vhils, a Glam, o Bordalo II. Estar dentro desse mundo para mim é uma coisa que é muito interessante e acho também que individualiza muito o meu trabalho em relação ao que já foi feito até hoje. Os tags, na verdade, são muito impessoais, são rabiscos onde cada um tem a sua assinatura e só um grupo muito fechado de pessoas próximas é que sabe de quem é aquele tag. O que eu tento aqui é personificar os tags, ou seja, inspirado nos tags que estão na rua, criar e usar esses tags como uma personificação de celebridades, de pessoas do meio sociocultural português. Seria como retirar um pedaço da parede da rua e colocá-lo dentro de uma casa.

 

A exposição é feita com pinturas de atores, realizadores, músicos, desportistas, etc. Por que razão escolher pintar estas pessoas? 

Como os trabalhos da exposição não estão à venda, o objetivo maior da exposição foi eu ter a liberdade de retratar pessoas que eu admiro, pessoas que muitas delas eu convivo pela facilidade que a vida dos meus filhos como atores propicia, pelo contacto que faço com músicos e com produtores de televisão, que é o meu pezinho na publicidade. Já que tenho essa liberdade de poder escolher, eu fui escolher pessoas que realmente dizem alguma coisa para mim, pessoas que há uma admiração. Mas não pinto só as pessoas, tenho um retrato da minha cadela, que a gente adorava, ela já não está mais aqui e foi uma forma também de tributo. O Cristiano Ronaldo é a única pessoa que eu não tenho contato, mas admiro e é uma forma também de ter um contato, de fazer alguma coisa por um esportista fantástico e que dá tanto para a gente. É quase como uma forma de devolver um bocado para essas pessoas, tudo aquilo de bom que elas dão para a gente.

 

A Face Graffiti é a sua primeira exposição em nome individual em Portugal. Depois de já ter feito tantos trabalhos na área da pintura, uma exposição individual é algo que já queria ter feito antes e ainda não tinha tido a oportunidade ou acha que esta primeira exposição individual veio exatamente no tempo certo?

Eu acho que veio no tempo certo. Lá no Brasil eu já tinha feito exposições individuais, não com esse estilo, eu pintei muito surrealismo, gostava muito de Salvador Dalí, mas aqui em Portugal nunca tinha feito nada porque o projeto começou há dez anos. Eu comecei a estudar os desenhos, a pesquisar as texturas, as tintas, fazer os esboços, a idealizar o projeto todo. Eu não ansiava que esta exposição viesse a acontecer até ela começar a ser produzida. Não fazia sentido nenhum fazer uma [exposição] coletiva, já que são 16 trabalhos, acho que é um número razoável, para se fazer uma individual.

 

O que é que sente que esta exposição traz de diferente no seu trabalho de tudo o resto que já fez até hoje?

Para mim é tudo muito novo, estar pintando agora de novo, nessa minha fase da vida, com 65 anos. Estar desenvolvendo essa técnica para mim também é uma novidade. Poder estar fazendo isso em Portugal, apesar de estar vivendo há 36 anos aqui, é uma novidade muito grande também. Eu estou vivendo um momento único da minha vida e gosto muito que haja essa mudança. Eu acho que na vida, nós temos sempre de mudar. Eu não gosto nada da zona do conforto, acho que a zona do conforto é a pior coisa que pode acontecer para qualquer pessoa. E como sou um eterno inconformado, tenho a certeza que a exposição é um momento completamente novo. Tudo o que eu estou vivendo aqui é de uma novidade do princípio ao fim.

 

Que planos tem para o futuro de próximas exposições individuais, e de outros trabalhos na área da pintura ou do design?

Tenho vários planos, para além da pintura em si, já tenho tido encomendas de trabalhos, mesmo sem a exposição sair, isso é muito estimulante. O meu objetivo é entrar na parte do design de objetos que você possa usar no dia a dia e que seja sempre embasado no conceito dos tags. Eu tenho poleias que seguram uma prateleira que é toda recortada em tags, quero fazer uma cama toda onde a cabeceira da cama em madeira é toda feita em tags, tenho uma motocicleta que eu pintei toda com tags, que vai estar lá na exposição também. E também quero fazer cadeiras, baloiços… ou seja, eu acho que é um projeto interminável, dá para se fazer de tudo um pouco.

PUBLICIDADE
Deixar um comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Subscreve e acede a conteúdo exclusivo!

Ao pressionar o botão de subscrição, confirmas que concordas com a nossa Política de Privacidade e Cookies