Criar, arriscar e estar presente: a nova fase de Fernando Daniel

Com oito anos de carreira, Fernando Daniel entra agora numa nova fase artística, que não é marcada por uma rutura, mas sim por uma evolução natural, refletindo um percurso cada vez mais sólido e maduro.

O novo single, “Juro”, abre caminho para um álbum que mantém as raízes pop, mas incorpora novas influências country. Nesta conversa, o artista fala sobre maturidade, novas sonoridades, as viagens a Nashville e o processo criativo por detrás deste novo trabalho, que considera ser o mais especial da sua carreira.

Revela ainda um lado mais pessoal, ao abordar a vontade de ser um pai mais presente, e fala também sobre o lançamento do Nagana, um espaço que pretende democratizar o acesso ao ensino musical e contribuir para a descentralização da cultura em Portugal.

 

Falando um bocadinho do teu novo single, “Juro”, sentes que marca o início de uma nova era. O que é que sentiste que precisavas de mudar?

Na verdade, não senti necessidade de mudar alguma coisa, porque até aqui as coisas têm corrido bem. O que senti foi uma vontade de explorar coisas novas. Tenho oito anos de carreira e maioritariamente fiz discos pop, com influências diferentes. Este disco continua a ser pop, mas com uma influência mais country.

É um disco que me tem dado muito gosto fazer, uma nova sonoridade que faz sentido nesta fase da minha vida, em que me sinto mais maduro e disposto a apostar em coisas novas. Retrata muito aquilo que tem sido a minha vida nos últimos tempos e, por isso, vai fazer com que este disco seja, na minha opinião, o meu melhor disco até ao momento.

 

O que é que te atraiu nesse universo mais country? E o que te trouxe a experiência em Nashville?

Eu só fui a Nashville por causa desta música e ainda bem, porque descobri um dos sítios mais incríveis no que toca à música. Saio sempre de lá inspirado.

O country aparece aleatoriamente na minha vida,há cerca de dois anos, quando comecei a explorar mais o Spotify à procura de coisas novas. Acabei por “descobrir” um artista que não acompanhava muito, o Post Malone e o disco dele, o F-1 Trillion, marcou-me muito.

Esse álbum levou-me a explorar mais a minha voz, o canto e a composição dentro desse estilo e foi o que me permitiu começar a fazer mais canções, preparar um novo disco, e foi isso que me fez ir a Nashville.

Nashville abriu-me horizontes. Mostrou-me uma forma de trabalhar completamente diferente: sem egos, com espírito de colaboração. As pessoas juntam-se simplesmente para criar  e isso é incrível.

Disseste que o disco terá elementos novos, mas sem uma mudança drástica…

O que quis dizer é que apesar da influência country, eu não sou um artista country. É como se fizesse um disco com influência de fado, continuaria a ser pop.

Este disco é muito diferente na sonoridade, mas as pessoas vão continuar a reconhecer o Fernando de músicas como “Espera”, “Voltas” ou “Melodia Saudade”. Sou o mesmo artista, apenas num registo diferente.

 

Há colaborações que possas revelar?

Há várias, mas para já ainda não posso revelar nenhuma (risos)

 

Falando agora do teu novo projeto de estúdio, o Nagana, em Ovar. O que te motivou a investir neste projeto?

Inicialmente, precisei de um espaço para mim. Encontrei um espaço grande e percebi que podia servir para muito mais.

O Nagana nasce com vários propósitos: descentralizar a cultura, criar novas oportunidades para quem tem menos acesso e, acima de tudo, permitir-me estar mais próximo dos meus filhos.

Quis separar o trabalho de casa e evitar deslocações longas. Assim consigo trabalhar e, ao mesmo tempo, estar presente, levá-los à escola, passar tempo com eles. No fundo, quero ser um pai mais presente e aquilo que eu tenho dito ao longo das últimas entrevistas é que isto foi para estar mais próximo do que mais amo e fazer aquilo que mais amo.

 

E a questão das bolsas para alunos sem recursos, é algo que significa muito para ti? 

Eu não sou nenhum messias nisto, na verdade, há várias instituições que já trabalham nesse sentido. Eu estou apenas a fazer aquilo que acredito que deve ser feito quando se tem essa possibilidade.

Vou oferecer 10 bolsas e sei que há parceiros que também querem contribuir. A escola tem capacidade para 100 alunos e as inscrições estão praticamente fechadas.

Mais do que um estúdio, o Nagana é um complexo, uma marca, e pode crescer muito. Agora estamos a perceber até onde conseguimos ir e quantas pessoas podemos envolver.

Como gostavas de ver o Nagana daqui a 10 anos?

Gostava que fosse um ponto fundamental na cultura local, com impacto nacional, mas sempre a valorizar o local. O país não é só Lisboa e Porto, há muito mais para explorar.

O objetivo nunca foi o lucro. Foi criar um espaço para trabalhar, estar perto da família e ajudar outros. Quero que as pessoas olhem para o Nagana como um lugar de sonho, que nasce de paixão.

 

E quanto ao futuro, vamos ter concertos este verão?

Sim, mas em menor número. Vamos fazer cerca de 40 concertos, mas decidimos limitar porque vem aí um disco novo e precisamos de tempo para o preparar.

Também vou passar algumas semanas nos Estados Unidos, em Nashville, o que reduz a agenda. Queremos garantir qualidade em tudo.

 

Para terminar, o palco continua a ser o teu lugar seguro?

Sim, continua a ser um dos meus lugares favoritos. Mas sinto que, às vezes,estou muito focado em passar uma imagem de profissionalismo, em fazer um bom trabalho e tenho medo de me divertir demais.

Continuo muito grato e feliz, mas percebo que tenho de me permitir divertir mais em palco. É algo que quero mudar, aproveitar mais os momentos e a vida na estrada. Às vezes esqueço-me de me divertir e de ser uma pessoa, digamos, normal.

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