Diogo Belizário tem vindo a construir um percurso internacional entre cinema, televisão e projetos independentes ibéricos. O ator participou anteriormente na série portuguesa A Promessa, onde interpretou a personagem Juan, além de integrar produções como “Lo que nunca te dije pero debería haberte dicho” e várias curtas-metragens desenvolvidas entre Portugal e Espanha.
Recentemente, integrou o elenco de Amarga Navidad, o mais recente filme de Pedro Almodóvar, selecionado para a Competição Oficial do Festival de Cannes 2026. Nesta entrevista, fala sobre como foi trabalhar com o aclamado realizador espanhol, os bastidores das filmagens e as aprendizagens que leva desta experiência.
Quando recebeste a notícia de que ias integrar Amarga Navidad, qual foi a tua primeira reação?
Foi tudo muito rápido e um bocadinho surreal. As gravações já tinham começado há alguns meses quando o Pedro teve a ideia e decidiu criar a minha personagem durante esse processo. Nessa mesma semana contactaram-me para fazer o casting e passado um dia ligaram-me a dizer que tinha ficado com o papel. Na segunda feira seguinte já estávamos a gravar.
Naquele momento fiquei completamente em choque, acho que nem consegui reagir logo. Foi daqueles instantes onde sentimos que algo importante acabou de acontecer, mas ainda estamos a tentar perceber se é real, sobretudo porque trabalhar com o Pedro era um sonho antigo, alguém que admiro muito, por isso quando a confirmação chegou senti uma felicidade enorme e uma mistura de entusiasmo, nervos e gratidão. Claro que a primeira coisa que fiz foi agarrar no telefone e ligar a algumas pessoas porque é uma situação que impossibilita que queiramos guardá-la só para nós.
Trabalhar com Pedro Almodóvar é um objetivo para muitos atores. O que mais te surpreendeu na forma como dirige?
Para mim também era e, de certa forma, continua a ser um grande objetivo. O Pedro Almodóvar é uma referência que me acompanha desde muito cedo. Descobri os filmes dele na adolescência e senti que havia uma forma muito particular de fazer cinema, que acabou por influenciar a maneira como vejo a arte, as histórias e até aquilo que queria para o meu percurso. Os filmes dele têm uma identidade e um imaginário muito fortes e,poder entrar nesse mundo, foi algo muito especial.
Apesar de todo o deslumbramento que possa existir em volta de um nome como o Almodóvar, aquilo que mais me surpreendeu foi a sensibilidade e a precisão com que trabalha cada detalhe alocado à forma como dirige, com atenção e total sapiência do ambiente, ritmo e emoção que procura em cada cena. Existe uma atenção muito grande aos atores, à intenção das palavras, à energia das cenas e à verdade emocional de cada momento. E isso cria uma dinâmica muito intensa no set.
Ver o Pedro a trabalhar foi fascinante, hipnótico e estimulante ao mesmo tempo.
Houve algum momento durante as filmagens em que pensaste: “isto está mesmo a acontecer”?
Sim, lembro-me perfeitamente desse momento porque foi quase cinematográfico. Já estava tudo preparado para começarmos a gravar e de repente chega um carro que imediatamente chamou a atenção de toda a gente. Havia qualquer coisa naquele momento que parecia que tinha um brilho especial, quase como uma entrada de filme. Quando a porta se abriu e o Pedro saiu, lembro-me de sentir uma espécie de choque silencioso. Durante aqueles segundos em que ele caminhou do carro até ao set, eu só pensava: “Uau… é mesmo ele. Isto está realmente a acontecer.” Acho que foi aí que caiu a ficha pela primeira vez. Nesse primeiro dia, entre takes, apanhava-me constantemente a observá-lo, a ouvir tudo o que dizia, não só aos atores mas também à equipa técnica. Queria absorver tudo.
Integraste um elenco internacional muito forte. O que aprendeste ao contracenar com atores de percursos tão diferentes?
O que mais aprendi e que retiro desta experiência, em particular sobre o elenco e a equipa, foi o respeito pela concentração antes das gravações e a forma como cada ator se prepara de maneira tão própria, mas sempre com muito foco. Havia uma tranquilidade muito particular, uma espécie de serenidade entusiasmada num ambiente calmo, mas ao mesmo tempo muito vivo. Foi um espaço de trabalho muito saudável, onde havia rigor, prazer, liberdade mas também uma atenção e concentração afinada.
O filme explora temas como memória e perda emocional. Houve algum desses temas que te tocou de forma mais pessoal?
Felizmente nunca passei por nenhuma experiência muito forte de luto ou de perda emocional, portanto não posso conectar-me muito com isso de forma pessoal, o que se torna um maior desafio para os atores e isso é incrível, podermos sair da nossa zona de conforto e explorar outras sensações. Neste seguimento, acho que o tema que mais me tocou foi essa ideia das fugas emocionais e da dificuldade que muitas vezes temos em parar para sentir verdadeiramente aquilo que nos está a acontecer. Vivemos numa altura em que existe quase uma necessidade constante de distração, estamos sempre a preencher o silêncio com alguma coisa, seja trabalho, redes sociais, relações, planos ou rotinas muito aceleradas. Às vezes nem percebemos que estamos a fugir de emoções mais profundas. Vivemos muito estimulados, mas a verdade é que aquilo que não enfrentamos acaba sempre por encontrar uma forma de voltar.
Depois desta experiência, sentes que mudou alguma coisa na forma como olhas para ti enquanto ator?
Acho que não mudou propriamente a forma como olho para mim enquanto ator. Continuo a ver esta profissão como um percurso longo, quase uma maratona, feita de etapas, sonhos e objetivos que vão sendo alcançados ao longo do tempo. Esta experiência foi a concretização de um desses sonhos, o que naturalmente me deu ainda mais motivação para continuar, mas não sinto que tenha alterado a minha identidade enquanto ator. Pelo contrário, reforçou a ideia de que este é um caminho de trabalho contínuo, de aprendizagem e de evolução constante. Mais como um impulso e uma motivação para continuar esse caminho, e não como um ponto de chegada.
Se pudesses guardar um único momento desta aventura,qual escolherias?
Não consigo escolher apenas um momento. Mas, se tiver de destacar algo, diria que são sobretudo os momentos em que estava a falar e a trabalhar mais diretamente com o Pedro, mas também o contacto com a equipa, que foi sempre extraordinário, com os colegas. Havia um ambiente muito humano e muito generoso no set, e isso marcou-me imenso. Tive a oportunidade de conhecer pessoas incríveis e isso faz com que seja possível aprendermos e levar ferramentas de outros colegas. Acredito que isso é o que devemos guardar de qualquer experiência que um ator tenha, a generosidade, a capacidade de encaixe, a paciência e o saber ouvir e aprender. Aprendemos sempre uns com os outros, em qualquer circunstância da vida, mas, para um ator, os fragmentos que levamos de todas as situações partilhadas são detalhes que poderão fazer a diferença para dar vida a personagens que ainda vão aparecer ao longo dos nossos percursos. E é isso que guardo, destaco e que quero continuar a levar de cada experiência.