Diogo Zambujo lança a 24 de setembro, em todas as plataformas digitais, “Vir a Ser”, o seu álbum de estreia. O disco marca uma nova etapa no percurso do músico e reúne algumas das canções que tem apresentado ao longo dos últimos meses. O álbum inclui os quatro singles já conhecidos: “O Mundo Sou Eu”, “Amor Sem Nome”, “Pisa a Poça”, em colaboração com Tainá, e o mais recente “Contramão”.
Em “Vir a Ser”, Diogo Zambujo cruza diferentes referências musicais. A canção portuguesa encontra influências da música brasileira e do jazz, numa abordagem pop contemporânea, com todas as letras escritas pelo próprio.
O disco foi gravado entre Vale de Lobos, o Audivibe e o Estúdio Roma 49, com produção de André Santos. A mistura e a masterização ficaram, na sua maioria, a cargo de Bernardo Barata. O lançamento do álbum assinala o culminar de uma primeira fase do percurso de Diogo Zambujo e abre caminho a um novo capítulo na sua carreira.
Acede à entrevista ao músico.
O teu primeiro álbum chama-se Vir a Ser. Porquê esta escolha? O que é que este título significa para ti neste momento da tua vida e do teu percurso artístico?
Queria que o nome do álbum tivesse a ver com a ideia de metamorfose e transformação, porque ele vai desde a primeira música que escrevi (há cerca de 10 anos), até músicas que escrevi este ano. Inevitavelmente, acabou por passar por muitas fases na minha vida entre os 17 e os 27, vai desde a adolescência até ao início da idade adulta. Retrata essa constante transformação que está a acontecer e a possibilidade de vir a tornar-me alguma coisa.
Quando é que percebeste que tinhas canções diferentes para conseguir agregar num álbum?
Já tinha escrito algumas sem nenhum objetivo, apetecia-me escrever e escrevia. O conceito do álbum surgiu um bocadinho mais tarde, só após ter entrado na Universal é que a coisa ganhou forma e este caminho começou a ser traçado.
As últimas duas músicas, a Ferida Sarada e a Outro Quarto Qualquer, são as únicas que já foram escritas com o intuito do álbum em mente, porque sentíamos que faltavam algumas músicas. Do espólio que tínhamos, havia muitas que não encaixavam. Foi para preencher essa lacuna.
As letras das canções foram todas escritas por ti. Podemos dizer que são todas autobiográficas?
Algumas sim. Mas, por exemplo, A música Mais Um Dia foi feita porque estava a ler o livro Para Onde Vão Os Guarda-Chuvas do Afonso Cruz, em que um pai perde o filho. E foi o mote para essa letra. Essa música foi escrita no covid e acaba por ser um bocadinho mais deprimente.
Analisando melhor, faz todo o sentido, aquele podia ser o meu estado de espírito na altura, ligeiramente mais dramatizado. Se calhar podemos considerar todas autobiográficas, nem que seja por um mero apontamento.
Se tivesses que destacar uma canção do disco, qual é que destacavas?
Eu diria a Ferida Sarada porque é a música mais fora do baralho, mas que também me representa. Acho que era a peça que faltava do puzzle. Já tinha músicas de todos os estilos que me influenciavam, mas esta é assim mesmo rock, com bateria a dar com força, distorção quase no máximo, foge um bocadinho das outras músicas. Para ser fidedigno ao que vim a ser ao longo deste tempo, fazia sentido também haver uma dessas no catálogo.
Nasceste e cresceste no Alentejo. Que bagagem te deu o Alentejo para a pessoa e artista que és hoje?
Deu-me bagagem mas, por acaso, não em termos musicais. Nunca tive muita ligação ao cante alentejano, fui sempre muito mais virado para o rock, para a música brasileira e para o jazz.
Eu não renego o Alentejo, pelo menos na minha maneira de ser, de levar as coisas com vagar, com calma. Esse lado mais contemplativo ajuda muito na escrita.
Esta é uma maneira otimista de ver os alentejanos. Costumam retratar os alentejanos como preguiçosos mas eles são só contemplativos e estão a apreciar cada momento da vida, ao contrário das outras pessoas.
O disco foi gravado entre Vale de Lobos, o Audivibe e o Estúdio Roma 49. O ambiente destes diferentes espaços influenciou de alguma forma o som do álbum?
Sim. As primeiras quatro músicas que foram lançadas foram gravadas no Audivibe e em Vale de Lobos. Até aí, pautam um bocadinho as diferentes fases que eu vivi nesses dois anos, ainda a estudar e a trabalhar, com muita correria.
No Estúdio Roma 49, eu já conseguia fazer uns trocos com a música e tinha tempo para respirar. Nos outros foi feito tudo de seguida, foram só três músicas em três dias. Em Roma foram sete, a maior parte do álbum foi feita nesses quatro, cinco dias.
Sinto que essa flexibilidade ajudou porque havia uma maior mobilidade entre as músicas: poder colocar um “pormenorzinho” aqui ou ali, ou até acrescentar qualquer coisa. Gostei mais desse pormenor no Roma, senti que houve uma maior flexibilidade e maior à vontade. Acabam por marcar fases diferentes mas todas elas carregam o seu devido peso.
Este disco foi produzido maioritariamente pelo André Santos, e tiveste a colaboração do Bernardo Barata na mistura e masterização. Como é que nasceu esta colaboração e o que é que eles trouxeram às canções?
Trouxeram uma vida nova. Trabalhar com o André como produtor foi uma sugestão do meu pai, e ele depois acabou por imitar. O André teve várias ideias que mudaram muito o rumo das músicas Pisa a Poça e Outro Quarto Qualquer. Acrescentou-lhes umas partes que ainda não existiam. E na Amor Sem Nome, lembro-me de ele mudar a música de guitarra para piano, de repente, e fez toda a diferença, teve um papel preponderante. O Bernardo Barata participou nas tais sete músicas no estúdio Roma. O estúdio é dele, e ele acabou por dar uns quantos inputs, até fez algumas vozes e um baixo, porque ele era baixista dos Diabo na Cruz. Adorei conhecê-lo e, se tudo correr bem, havemos de ter a presença dele em alguns concertos, como convidado até.
Este álbum reúne também uma canção em dueto com a Tainá. Como surgiu esta oportunidade de colaborar com ela?
Conheci-a através de um concerto do meu pai. Ela é muito simpática, e depois, quando lançou o álbum dela, o Âmbar, enviou-me um convite para a listening party. Isso fortaleceu um bocadinho o nosso laço e quando lancei a minha primeira música, ela deu apoio e força, disse que gostava. Quando surgiu essa oportunidade, a música já tinha sido gravada, e eu mostrei-a ao meu tio. Ele disse que a música estava gira mas que ficava mais engraçado com uma voz feminina para haver um contraste. Aí, eu lembrei-me dela, porque ela tem uma voz lindíssima, super doce, que contrasta bem com a minha voz de bagaço. Misturar o português de Portugal com o do Brasil foi um contraste giro porque a música tem um andamento bastante rápido, fiquei muito grato que ela tivesse participado.
Nasceste numa família de músicos. Há conselhos que tenhas recebido desde cedo e que hoje reconheças nas tuas escolhas musicais?
Um conselho que infelizmente não segui foi do meu pai que me disse para seguir logo a música. Ele percebeu que eu gostava muito disto mas infelizmente quem levou a melhor foi o lado materno, que queria segurança e um plano B antes de me jogar aos leões, por isso, fui tirar uma licenciatura primeiro. Se fosse pelo conselho do meu pai, teria seguido logo música.
Costumo pedir muitas opiniões, tanto ao meu tio como ao meu pai, que sei que são honestos. Estou a contar que, se não gostarem de uma coisa, me digam na cara. Quando escrevo uma música, envio-lhes para ver o que é que eles acham.
O que aprendeste sobre ti próprio durante a gravação deste disco?
Aprendi muito sobre mim próprio, apesar de ser uma pessoa contemplativa, eu acho que ali estava muito focado no que se estava a passar. Aprendi muito sobre o processo de criar um disco. Sobre o que vai desde aquela “gravaçãozinha” de guitarra e voz no telemóvel, até ao produto final com mais instrumentos. Isto faz a mesma música mudar completamente. Às vezes, pode parecer-nos uma coisa no microcosmos, mas ser outra coisa completamente diferente no macrocosmos.
Que diferenças notas entre tocar estas canções em estúdio e depois apresentá-las ao vivo ao público?
É um processo giro. Temos vindo a tocar este ano num formato de duo e agora mudei para trio. Tem sido engraçado porque também nos reinventamos, ao fim de um tempo a tocar juntos começamos a descobrir certas manhas, e depois a reduzir-nos ao que temos. Neste caso, só temos uma bateria. Há músicas que têm violoncelos mas não levamos isso tudo para palco. Tentamos adaptar-nos mas mantendo a música fidedigna ao álbum. A cada concerto vamos percebendo: “precisamos de melhorar esta dinâmica aqui, de baixar um bocadinho o som ali”. Apesar de serem as mesmas, as músicas quase que ganham outra vida.
Já tens concertos marcados para depois do álbum?
30 de outubro na Guarda, 31 de outubro em Miranda do Corvo. Depois, em Beja a 7 de Novembro, e 3 de Março, no Maria Matos. E há mais umas datas pelo caminho.
Depois deste primeiro álbum, o que gostavas de vir a ser enquanto artista?
Acima de tudo, gostava que as pessoas gostassem da minha música mas estou aliviado por meter este álbum cá fora, ao fim de algum tempo. Ainda foi uma jornada grande com várias sessões de estúdio. Gostava de vir a ser bem falado.
Já estando o álbum pronto, havia alguma coisa que tivesses feito de diferente?
Só queria que ele tivesse saído mais cedo, era a única coisa.