Entrevista a Gonçalo Braga, ator e criador da série AMICI: “É algo que ainda não existe em Portugal e acho que faz falta.”

É ator e realizador, estudou na Escola Profissional de Teatro de Cascais e ficou conhecido por interpretar Bruno nos novos Morangos com Açúcar. Gonçalo Braga tem 25 anos e prepara-se para estrear a série Amici na RTP ainda este ano, criada e realizada pelo próprio através da sua produtora Centaurea Films. Para além de Gonçalo Braga, o elenco da série também contará com Madalena Aragão, Lucca Picon, Luísa Cruz e Fernanda Rodrigues.

Gonçalo estreou-se na realização em DOLO, o primeiro filme da Centaurea Films e também deu vida a Duarte, um jovem paraplégico na novela “A Protegida” e ao Agente Leitão da série “Lume” da RTP.

 

Começaste como ator nos Morangos e depois decidiste ser também realizador dos teus próprios projetos. Sendo ator, o que é que mais te inspirou a tornares-te realizador?

Eu fiz o casting dos Morangos e estava a realizar o meu primeiro filme, o DOLO. Foi num dia de rodagem de uma festa até às seis da manhã que fui direto fazer o casting. Já existia muito essa paixão de querer realizar e contar as minhas histórias. 

Na Escola Profissional de Teatro de Cascais, em Psicologia, nós apresentávamos peças de teatro acerca dos temas que estávamos a tratar nas aulas, como, por exemplo, doenças mentais. Cada grupo ficava com uma doença mental e tínhamos de criar uma peça de teatro. Quando fomos para o Covid, tudo mudou. Não podíamos fazer espetáculos, mas podíamos fazer curtas. E foi aí que surgiu mais a minha paixão porque, de repente, começo a fazer a primeira curta-metragem para Psicologia e aí percebo que gosto de contar histórias em imagem, através da câmara. Na realidade, o que me fez querer ser ator foi o cinema.

 

Quando vieste para a Escola Profissional de Teatro de Cascais, tiveste como professores o Carlos Avilez e a Beatriz Batarda. O que mais gostaste de aprender com estes mestres do teatro?

A Beatriz e o Carlos são dois mestres, acho que roubo duas coisas diferentes de cada um. Da Beatriz eu roubo o segundo círculo, que é uma técnica que a Beatriz ensina e que eu uso muito ainda hoje como ator, porque me ajuda a conectar com o outro, com a câmara e com o momento presente. E do Carlos Avilez, roubo a força: ele trabalhava muito a força para as personagens connosco. Acho que é muito fácil para qualquer aluno da Escola Profissional Teatro de Cascais, que teve um professor como o Carlos, fazer uma personagem de força, fazer uma personagem trágica, fazer tragédia, fazer drama.

 

Criaste e realizaste a série Amici. O processo de criação desta série foi algo que tu fizeste sozinho sem mostrar a ninguém ou foi um processo mais coletivo em que foste contando a pessoas e perguntando opiniões?

Eu fiz juntamente com a Larissa, que é uma argumentista do Brasil, mas a história partiu de mim, a partir de um desgosto amoroso. Eu gosto muito de fazer o luto das coisas através da criatividade e da arte. Transformo as minhas emoções em algo que eu quero fazer no futuro a nível criativo e artístico. Foi aí que surgiu o Amici, em 2021. 

Em 2023 foi para a gaveta já escrita, era uma longa-metragem, chamava-se “O que as ondas trazem” porque eu não sabia quando iria fazer uma longa-metragem. Na altura, eu nem tinha feito o meu primeiro filme, o DOLO, só foi feito em 2023. Tinha acabado de abrir a minha produtora, estava a fazer uma curta-metragem, pensei “vamos com calma”. E em 2025 surgiu a oportunidade de tirar esse projeto da gaveta a convite da Câmara Municipal de Cascais.

Quais foram as diferenças entre fazer o filme DOLO e a série AMICI?

Fazer uma curta-metragem e uma série é bem diferente. Eu estou a chegar à fase de montagem, mas o Amici são três longas-metragens, enquanto o Dolo era uma curta-metragem de 45 minutos. Fiz o DOLO numa semana e o Amici em seis semanas. 

É uma carga horária bem diferente. Estamos com uma equipa muito mais tempo, é muito mais cansativo, são muitos mais décores, muito mais pessoas para lidar, muito mais história para contar. Temos mesmo de ter o projeto na nossa cabeça, mas também precisamos de uma equipa que nos ajude. Se não tivermos uma equipa de realização bem forte, que por vezes nos lembre que somos realizadores, atores, produtores e criadores, acaba numa complicação. 

O bom de ser criador é que eu conheço a história como ninguém, ou seja, eu sabia exatamente o que ia acontecer naquele momento, naquela cena, apesar de ter havido muitas mudanças desde o ano passado. A partir do momento que houve este avanço da Câmara Municipal de Cascais, fiz muitas mudanças no guião. Havia coisas que eu já não me identificava tanto então acabei por as mudar.

 

Como surgiu a oportunidade de fazer uma série para a RTP?

Decidi concorrer para a RTP e ganhei. Fiz a candidatura de dois projetos e ficou o Amici. Eu não achava que ia ficar porque é um projeto que é difícil de ganhar orçamento e apoios. Lembro-me perfeitamente que fui chamado à reunião da RTP para apresentar o projeto dia 10 de setembro. Faço anos a 11 de setembro, ou seja, um dia antes do meu aniversário fui à reunião, apresentei o projeto e, no mesmo dia, passado duas horas de eu ter saído da reunião, tinha o “OK” da RTP. Queriam o projeto e estavam ansiosos para o ter. A partir daí, foi sempre a voar. Com 24 anos, ter a minha primeira série de televisão foi muito fixe. De setembro até agora foi sempre a construir o projeto, a fazer esta história acontecer da melhor maneira possível e com as pessoas certas para fazer o projeto.

 

Porquê a escolha de a série ser gravada em Cascais e como foi conseguir o apoio da Câmara Municipal de Cascais?

A Câmara Municipal de Cascais queria uma série que mostrasse e apresentasse Cascais e eu tinha o projeto certo porque esta série foi escrita para ser passada lá. Eu já tinha essa paixão por esta vila. Tenho o apoio da Câmara desde sempre, foram eles que me incentivaram a abrir a minha produtora [Centaurea Films] que é sediada em Cascais. Sempre me apoiaram com a parte da juventude e da cultura, sempre gostaram dos meus projetos e são pessoas com quem eu tenho um bom relacionamento.  

 

A Madalena Aragão é uma das atrizes que entra na série, que já contracenou contigo nos Morangos com Açúcar. Como é que foi o processo de arranjar o elenco para este projeto?

A Madalena foi a primeira pessoa a entrar no elenco desde o início porque era a pessoa que eu já idealizava para a personagem. O Lucca foi através de casting. Ele fez um casting em Portugal e também no Brasil. Acabou por ser a pessoa certa para o projeto, porque eu acho que ele tem a alma do personagem Felipe. A Fernanda Rodrigues foi a nossa diretora de elenco do Brasil, a Ninive, que me sugeriu. Já gostava muito do trabalho da Fernanda, já a conhecia muito bem e quando a diretora me disse que ela estava cá em Portugal, facilitou muito mais as coisas. Em vez de trazer dois atores do Brasil, trouxe apenas o Lucca porque a Fernanda está cá a viver. Ela era exatamente quem eu andava a pensar para esta personagem já quando estava a escrever, só nunca pensei que ela estivesse em Portugal. Marquei uma reunião com ela e mandei-lhe o guião. Ficou entusiasmada, gostou muito do projeto e da personagem. A Luísa Cruz era uma das ideias que estava na minha cabeça e o Rui Ávila, o produtor executivo, já a conhecia então acabou por entrar em contacto com ela primeiro, e depois eu mandei-lhe o guião, Ela também adorou o guião e a personagem.

O que foi mais desafiante na gravação desta série?

As trocas de décores exteriores é sempre um problema. Às vezes sentimos a necessidade de ter mais tempo para fazer e organizar as coisas, isso acaba por nos afetar. 

As pessoas acabam sempre por ser o maior desafio, porque estamos a lidar com muitas pessoas diferentes, é muito tempo com pessoas que não conhecemos e vamos conhecendo. Às vezes estamos em dias bons, outras vezes em dias maus e a vida é assim. Temos de saber lidar e seguir em frente. Mas correu super bem, a equipa era incrível, não faria isto sem esta equipa. Foi a equipa certa para fazer este projeto. 

A cena mais difícil de gravar é uma cena no meio do mar em que eu ensino uma das personagens a nadar, e tivemos horas dentro do mar gelado e não sabíamos bem como é que a cena estava a ser filmada, porque havia takes que eram gravados e takes que não eram.

 

O que gostaste mais na gravação da série?

Gosto sempre de conhecer novas pessoas, porque enquanto criador e ator, eu vivo muito de observar e conhecer novas pessoas, novas personalidades e novas reações. Gosto sempre de viver a experiência na pele, sentir aquilo, viver aquilo, fazer uma série com tantas pessoas, seis semanas. Tudo a acontecer ao mesmo tempo, trazer atores do Brasil, arranjar dinheiro para fazer a série, pagar às pessoas, arranjar o material, arranjar os décores, é sempre uma loucura. E eu gosto muito dessa adrenalina, das pessoas que eu vou conhecendo e do que elas me vão passando. 

 

A série não tem só atores portugueses, tem também atores brasileiros. Gostavas que esta série fosse exibida no estrangeiro?

Um dos objetivos é colocar esta série no estrangeiro. Acredito e sei que existe essa possibilidade. Estou a trabalhar para isso, gostava que fosse global mas quero muito que vá para o Brasil.

 

A série Amici vai estrear ainda este ano. O que é que tu achas que o público em geral pode esperar desta série?

Pode esperar muito amor, nostalgia e conforto. É uma história sobre luto e amor, não só sobre o amor entre duas pessoas, sobre o amor de família, de amigos, e é sobre o luto de uma pessoa que morreu versus o luto de uma pessoa que está a viver. Por vezes, o luto de uma pessoa que está a viver pode doer ainda mais do que o de uma pessoa que morreu. Porque é aquela pessoa que não conseguimos chegar, por se querer afastar, não querer falar, mas ela continua a existir no mesmo mundo que nós, no mesmo universo que nós. Então acaba por ser mais difícil, porque é uma ferida que nunca fecha.

 

O que é que esperas que esta série traga de novo?

Vai ser uma série que vai dar para falar do tema em si, que as pessoas ainda não sabem, mas vão saber em breve, tudo a seu tempo. É algo que ainda não existe em Portugal e acho que faz falta. É importante falar sobre este tipo de histórias para termos ainda mais histórias destas. Espero que esta série abra portas a mais criadores, a mais realizadores. E que as pessoas, os criadores e os artistas que estão a ler esta entrevista saibam que tudo é possível, basta quererem e basta lutarem.

 

Fundaste a tua própria produtora, a Centaurea Films, em 2023. Até agora, o que mais te orgulhas de ter feito com a produtora?

Orgulho-me de tudo, porque eu não tinha nada, nem conhecimentos. Foi mal saí da escola, não tinha cunhas, não tinha dinheiro, foi tudo sozinho, à procura, a conhecer pessoas, a fazer networking. E eu continuo a lutar todos os dias para fazer aquilo que eu gosto, aquilo que realmente me deixa feliz. Acho que é mesmo possível e sempre acreditei desde miúdo que se nós queremos uma coisa, nós vamos conseguir, se trabalharmos para a ter. A produtora é o resultado disso. Também é muito recente, mas o objetivo é abrir portas a novos artistas, a novos criadores contarem outras histórias. Ainda não tive tempo nem espaço, porque ainda não tenho capacidade para contratar novas pessoas, ainda estou a começar.

 

Tens planos para próximas séries ou filmes que gostasses de fazer no futuro?

O DOLO irá, eventualmente, vir cá para fora como série e está mais próximo do que nós achamos. O objetivo sempre foi ser um episódio-piloto de uma série e está a avançar. Teremos novidades em breve acerca do mesmo. 

É um projeto muito especial no meu coração, porque foi o meu primeiro projeto, e o primeiro nunca se esquece. Eu achava que a primeira série que eu ia fazer ia ser o DOLO, acabou por ser o Amici, mas também fico muito feliz, porque é um projeto muito pessoal. 

Gostava de desenvolver a curta que fiz no ano passado, a Terra de Ninguém, que é sobre dois soldados de diferentes fações que se encontram numa casa abandonada, um porque está ferido e outro porque está sujo, e que têm de sobreviver. Também fala muito sobre relações humanas, e como o ser humano, em situações limite, não olha para aquilo em que o outro acredita, para a sua cor de pele, para a sua orientação sexual, olha-o como pessoa e como ser humano. 

Todos os meus projetos falam sobre relações humanas e sobre questões sociais. A Terra de Ninguém apareceu numa altura em que se achava que uma Terceira Guerra Mundial estaria muito perto e que andavam a dizer nas televisões para nós fazermos um kit de sobrevivência, e eu sonhei com esse filme, escrevi-o e filmei-o, exatamente como o sonhei. Está terminado e irá para distribuição, muito provavelmente, no próximo ano porque estou muito ocupado com a Amici, mas é um projeto que eu gostava de transformar em longa-metragem ou em série. E há também uma série de horror que estou neste momento a desenvolver.

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