Espetáculo Gongada Drag estreia em Portugal em julho

Depois de passar por várias cidades no Brasil, o espetáculo Gongada Drag chega agora a Portugal. Gongada Drag é um espetáculo de humor e arte drag irreverente interpretado por drag queens e humoristas, apresentado pelo humorista Bruno Motta, um dos pioneiros do stand-up comedy no Brasil. O espetáculo irá estar em cena de 13 a 16 de Julho às 21h no Capitólio, em Lisboa, e 17 de Julho às 18:30 e às 21h no Teatro Sá da Bandeira, no Porto. O elenco dos espetáculos envolve drag queens como Rita Von Hunty, Karoline Absinto, Júnior Chicó, Kelly Hilton, Karvel Kina, Diogo Faro, Dagu e Excita Lopran.

Aceda à entrevista ao humorista e promotor do espetáculo Bruno Motta:

 

O show Gongada Drag, já tinha sido feito no Brasil antes. Como é que surgiu a oportunidade de trazer este show para Portugal?

Nós temos viajado o Brasil sempre ocupando espaços e teatros grandes e importantes. Temos visto aumentar o número de pessoas não LGBT que estão indo assistir, e entendemos que Portugal poderia estar no nosso circuito. Primeiro, porque tem muitos brasileiros LGBT trabalhando em Portugal e na Europa, e vemos como eles ficam felizes de o show chegar até eles. [Depois], tinha muitos brasileiros fora do Brasil mandando mensagens para nós e com um interesse muito grande do público em geral nesse show, porque não tem nada parecido. Resolvemos investir para transformar essa possibilidade de Portugal ser um dos nossos destinos da turnê em realidade. O público português gosta muito de boas produções que vão do Brasil para cá.

 

Antes de fazer este show, já tinha feito projetos que também ficaram conhecidos no Brasil, como o Furo MTV e o Espetáculo Improvável. O que é que o espetáculo Gongada Drag, traz de diferente em relação aos seus anteriores projetos?

Eu acho que o Gongada reúne todos os desafios que eu já passei, é um projeto que pode mostrar tudo o que eu já aprendi. O nosso espetáculo tem muito de improviso como linguagem e de espontaneidade mesmo, era o que eu fazia como apresentador do Improvável. Este é um espetáculo grandioso tal como é o “Improvável” e como o “Um Milhão de Anos em Uma Hora”, que é um espetáculo do Colin Quinn e do Jerry Seinfeld, que eu faço no Brasil e posso vir fazer em Portugal, em que eu conto a história do mundo em uma hora. O Furo MTV era uma linguagem muito nova, jovem, rápida, ácida e irônica, e eu trago isso para o espetáculo. No Furo MTV nós organizávamos todas as ideias que achávamos engraçadas e fazemos isso no Gongada Drag com as drags. Todas as reuniões para organizar as ideias vemos o talento delas fazendo acontecer, tal como era no Furo MTV.

 

O que é que mais influenciou a criação do espetáculo Gongada Drag?

A principal [influência] são os grandes shows de comédia drag que eu assisti quando eu era jovem. Grandes shows nas boates que tinham a performance e depois elas se reuniam no final e o que era para ser um agradecimento de cinco minutos virava mais meia hora de show com elas brincando e improvisando. E esse tipo de humor, que tem sagacidade e inteligência, mas tem muito deboche, que era o que a Rogéria fazia quando estava com os grandes comediantes do lado dela são alguns dos exemplos que nós temos [para o Gongada]. E, claro, a RuPaul me inspirou muito na qualidade de produção que ela apresenta no programa e nessa lembrança de que podemos rir de nós mesmos. Eu sou apaixonado pelos roasts de Hollywood da Era de Ouro, que era o Frank Sinatra fazendo um roast da Joan Crawford, da Joan Collins, do Dean Martin. Essa brincadeira, que é muito amigável, eu sou apaixonado, acho muito exuberante, é muito divertido. Eu percebi que tinha uma comunidade de comediantes da diversidade LGBT que hoje eu poderia reunir numa espécie de festival. Todos os shows do Gongada, como são todos diferentes, são como um festival.  

 

Qual a importância deste espetáculo para a representatividade LGBT?

O Gongada é um espetáculo em que viajamos e ouvimos que as pessoas tinham adorado, que era muito engraçado. E eu já escutei isso em outros espetáculos que eu fiz, como o Improvável, por exemplo.  Só que neste ouvimos uma outra coisa, um “muito obrigado” por fazer o espetáculo, por ele estar disponível nas redes sociais, porque esse espetáculo devolve para a comunidade. Ele incentiva as pessoas, ele não só une, entretém e serve como um divertimento para uma comunidade de pessoas. Ele também inspira as pessoas de que é possível a gente rir, passar mensagens, fazer arte, reunir personalidades LGBT num grande espetáculo de produção, com drags de gerações diferentes, comediantes LGBT também, de vivências diferentes. Eu tento sempre lembrar que o show é LGBT, é um espaço difícil para a cultura, principalmente o show LGBT que está vindo do Brasil, sabemos que os brasileiros vão assistir, nosso objetivo é chegar aos portugueses, que eles entendam o que é o show. O espetáculo tem muito propósito de trazer o público heterossexual para assistir, isso para nós é muito importante. Queremos cada vez mais que eles venham, se sintam à vontade, se divirtam, para passar essa mensagem para a frente.

Como é que é a relação entre todas as drags e comediantes na criação e na formação deste espetáculo?

O melhor do Gongada é juntar gerações, estilos de comediantes e drags. Temos drags das antigas, das novas, das redes sociais, dos reality shows. Então, isso traz referências e camadas e até maneiras de trabalhar diferentes. Isso faz o espetáculo ficar muito rico, porque já é um espetáculo muito exuberante. Temos a performance, as roupas, os figurinos, o improviso, a velocidade de comédia dos comediantes, as brincadeiras. O Gongada é como se fosse um grande bolo de casamento. Tem esse material de comédia que elas trazem dentro de todas essas camadas desse bolo.  Nem todas as drags vão ter as ferramentas de comédia, elas podem ter bom humor, fazer muita comédia, ou ser hosts, mas nós, comediantes, sabemos como são as ferramentas. Então, o que nós fazemos é disponibilizar essa ferramenta de produção, que dá show quality e nível de produção ao Gongada. Fazemos algumas reuniões com elas, querendo saber o que elas gostariam de dizer, o que elas acham engraçado, para organizar esses pensamentos com elas, para elas poderem estar muito à vontade no palco, sabendo que está tudo organizado e seguro. É tipo um circo, a gente treina todo o mundo e abre a porta.

 

Com o espetáculo em Portugal, também englobam humoristas portugueses no palco. Como é que foi o processo de contactar humoristas portugueses para participar no espetáculo?

Eu tenho grandes amigos em Portugal, de várias vezes que eu já estive no país fazendo shows. Eu sou apaixonado pelo público português, e já recebi diversos comediantes aqui no Brasil, já viajei com eles. O Hugo Sousa é um grande amigo, que me ajudou a fazer algumas pontes. E eu também tenho muita admiração por algumas drags que estão tanto em Portugal quanto na Europa. A Sinceramente é uma drag de comédia que eu sou muito fã, já nos falamos várias vezes pelas redes sociais e conheci ela aqui no Brasil, ela vai estar no show dia 17, no Porto, e ela também me indicou alguns nomes. E a partir daí, comediantes se dão muito bem. A gente, quando fala com outro comediante, mesmo não LGBT, ele tem uma indicação, ele conhece alguém que acha que combina com o trabalho. Então fomos fazendo pontes e convites para algumas drags e comediantes, inclusive sabendo que queremos voltar. Alguns adoraram o convite, mas não puderam aceitar nessas datas, mas é ótimo para nós, sempre fica a vontade de voltar.

 

Nos espetáculos do Gongada no Capitólio em Lisboa e no Teatro Sá da Bandeira no Porto, o elenco não é sempre o mesmo em todos os espetáculos. Porque é que o elenco vai mudando e o que é que isso traz de novo?

O elenco do Gongada nunca é sempre o mesmo justamente para a gente não só garantir que o espetáculo é diferente, mas para deixar muito claro para o público que a experiência de ir ao Gongada Drag é única. Se você não foi nesse, volte e venha quantas vezes quiser. Temos os nossos comediantes principais que estamos levando do Brasil, que estão em todos os shows, a Rita Von Hunty, a Karoline Absinto e a Júnior Chicó. Aí nós temos duas convidadas que são as brasileiras RuGirls, que fazem parte do Drag Race. Na cidade de Lisboa temos a Kelly Hilton, do Drag Race Alemanha. E no Porto, em todas as sessões, temos a Miss Abby OMG que é do Drag Race Holanda. Aí a partir daí para cada data temos uma drag e um comediante convidado. E isso faz o espetáculo ficar muito rico para nós também, porque isso nos dá diversas experiências. E também mostra que buscamos sempre diversidade de todos os tipos no nosso elenco. Isso também é muito importante.

 

Qual é a parte mais desafiante de fazer o show Gongada Drag em Portugal?

É tipo uma montanha-russa. A parte mais desafiante é ficar lembrando de não olhar para baixo. Quando a gente pára para pensar que cada espetáculo do Gongada Drag de duas horas é um espetáculo diferente, para o público só comunicamos “volte, é um espetáculo diferente”. Mas isso quer dizer que a gente se reúne, monta um elenco diferente, faz as reuniões, um design, uma arte, um marketing, uma organização de produção daquelas performances, daquelas músicas, daquelas necessidades. Tem gente com esse nível de produção que faz um espetáculo e viaja cinco anos. Nós fazemos um por vez, então eu tento não lembrar disso, só continuar fazendo.

 

Onde mais é que gostava de levar este espetáculo no futuro?

Dessa vez escolhemos fazer um bom trabalho nos dois pontos principais de Portugal. Mas a ideia é viajar um pouco mais para aqueles lugares que sejam centrais principalmente para os brasileiros, mas para que todo o público em volta daqueles lugares na Europa queira ir para aquela cidade, se divertir e também assistir o Gongada. Então, Barcelona e Madrid são cidades que gostaríamos de estar, porque sabemos que são lugares onde tem brasileiros em volta. Provavelmente na Alemanha, numa cidade que as pessoas na Europa, os portugueses, os brasileiros gostariam de visitar. E onde mais conseguirmos também levar o espetáculo em Portugal, porque já estamos recebendo mensagens de outras cidades que gostariam de ter o espetáculo. É um espetáculo de grande produção, diferente de um stand-up. Então a gente não consegue ocupar os lugares que o stand-up ocupa, precisamos de lugares um pouco maiores, com palco, de produção, de estrutura, uma plateia grande. Mas a gente pretende, da próxima vez, fazer uma gira bem maior. Para isso, a gente precisa saber se o público português vai abraçar o show.

 

Quais são os planos para próximos espetáculos em Portugal, para além do Gongada?

Eu quero voltar a ir a Portugal, além do Gongada, com o meu espetáculo solo, “Um Milhão de Anos em Uma Hora”, ir fazendo comédia stand-up também, ir fazendo programas de televisão, de comédia, de improviso, que é uma linguagem que eu gosto, que mais domino, para poder encontrar novamente com meus colegas portugueses, comediantes, que eu sou apaixonado. Eu sou apaixonado pela comédia à la carte, pelos improváveis de Portugal, tantos com quem eu sempre tive uma troca muito grande, e sou um grande admirador. Então, eu quero trabalhar mais em Portugal de novo, porque essa troca é muito rica.

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