Enquanto autora de thrillers, uma das questões mais comuns que me põem em entrevistas e conversas é: “Porquê o thriller, porquê mistérios, crimes e terror?” A minha resposta é, no meu entender, lógica: porque gosto de explorar o lado mais negro da mente humana, de tentar perceber quem somos de verdade, enquanto indivíduo, quando ninguém nos está a ver. Mas, quanto desta curiosidade está associada a um estranho e obscuro prazer?
Nos últimos anos, muito graças a fenómenos como Freida McFadden, John Marrs e até o lusófono Raphael Montes, temos assistido a um crescendo de leitores deste género de livros que, durante muito tempo, foi (quero crer que injustamente) considerado literatura menor. Sou, obviamente — porque também o escrevo —, leitora ávida de ditos thrillers. Por gosto, porque me interessa o lado comercial, porque são também fonte de inspiração e objeto de análise. Gosto de ser enganada — em igual medida, gosto de enganar os meus leitores —, gosto de criar teorias, do sabor da vitória quando estou certa, e da adrenalina ao perceber que estou completamente errada. Gosto de narrativas que me incomodem, que me provoquem esgares quando estou a ler numa sala de espera, que façam a minha pele arrepiar-se de uma dor que passa, estranhamente, das páginas para o corpo físico.
Em paralelo com a questão do porquê (“Porquê o thriller, porquê mistérios, crimes e terror?”), vem também o “Onde vais buscar a inspiração?”. Novamente, a minha resposta cai no lado lógico: basta ler as manchetes nos jornais, as parangonas na televisão, os títulos nas redes sociais. Quantas e quantas vezes não dou por mim a perguntar: ainda dizem que a ficção é inverosímil? E é nesta dualidade que encaixo a minha grande questão: onde traçamos a linha entre a indignação e o prazer? Estou atenta às opiniões gerais dos leitores (meus e do género) e dou por mim a perceber que estamos numa busca coletiva e exponencial do macabro. A apatia que muitos leitores sentem perante a descrição detalhada de uma cena de crime, por exemplo. A necessidade de que o dito crime seja o mais sangrento, visceral e atroz possível. Procuramos segredos hediondos, mãos manchadas de sangue e pensamentos sórdidos. Queremos mais, e mais, e mais.
Que prazer é este, que nos permite desejar o pior numa narrativa, mas ficar revoltados com as notícias que lemos? Onde se traça esta linha velada que nos separa em duas existências: a que não pode ver notícias porque o mundo está louco, mas que se regozija a ver um documentário de true crime nos serviços de streaming ao sabor de uma piza?
“É só ficção!”, dirão muitos de vós. Claro que sim, da mesma forma que escrever sobre crimes não faz de mim uma assassina. Mas não deixa de me fascinar este lado da nossa mente que me diz que uma ação é errada, que me revolta as vísceras imaginá-la, e que, de uma forma quase dissociada da minha essência, de quem sou como pessoa e não como autora, me leva a tirar notas, ideias e criar uma cena.
Ou não será que aquilo que procuramos num thriller é, na verdade, uma fuga à realidade? Quase como a procura incessante de uma segurança que a atualidade não nos transmite. Uma forma de nos mostrar que o mundo pode ser bem pior. E, como tal, queremos sempre mais, o mais macabro, o mais hediondo, o mais condenável. Queremos, talvez, encontrar nas páginas uma amostra do potencial lado mais negro da mente humana, uma faceta que queremos que fique apenas na narrativa ficcional.
Será que, na verdade, já ultrapassámos o ponto de não retorno, e a Humanidade está tão negra que a ficção já não lhe faz jus? Estará o género thriller a morrer e a tornar-se literatura leve?
Crónica de Anabela Lopes