Num mundo de tanto conforto e fast food, em algum momento, sofrer virou quase um símbolo de status acadêmico. Virou uma espécie de competição para descobrir quem está mais cansado, quem dorme menos, quem está há mais tempo sem vida social, quem mais odeia a própria tese e quem toma mais café para futuramente desenvolver algum problema cardíaco. É bonito quase morrer para academia.
Como diria Miguel Esteves Cardoso “Ninguém tem pena de pessoas felizes” porque basta dizer que está às mil maravilhas com o projeto (porque sim, tem gente que gosta do que faz) e pronto: é performático.
É claro que há pessoas fazendo pós-graduação em condições muito difíceis. Gente sem bolsa, trabalhando ao mesmo tempo, cuidando de filhos, enfrentando problemas financeiros, orientações péssimas, ambientes acadêmicos adoecedores. Não estou falando disso. Estou falando de outra situação.
Você tem tempo para pesquisar. Tem acesso à universidade, biblioteca, livros, orientação, condições materiais para fazer aquilo. E a sua principal ocupação naquele momento é… estudar uma coisa que você escolheu estudar.
E ainda assim parece quase proibido dizer: cara, que privilégio.
Às vezes eu tenho a impressão de que falar que você gosta do doutorado pega até mal. Você precisa acrescentar imediatamente: “mas estou acabada”, “mas minha saúde mental”, “mas não aguento mais olhar para a tese” e “meu cabelo ta sempre bagunçado”.
É como se gostar diminuísse a seriedade do trabalho. E eu penso justamente o contrário.
Eu acho uma coisa absolutamente extraordinária poder passar alguns anos da vida lendo, pesquisando e pensando profundamente sobre uma pergunta que me interessa. É difícil? Claro. Às vezes dá vontade de jogar o computador pela janela? Também.
Mas existe uma diferença enorme entre uma coisa exigir muito de você e uma coisa ser necessariamente miserável.
Talvez a academia tenha romantizado tanto o excesso de trabalho que nós começamos a achar que o sofrimento comprova a importância daquilo que fazemos.
E não comprova. Você não precisa odiar o doutorado para estar levando o doutorado a sério. Na verdade até estranho passar quatro anos falando apenas sobre como é horrível poder fazer pesquisa. É quase como ter dinheiro e passar o tempo inteiro reclamando do enorme inconveniente de ter dinheiro.
Pode haver problemas, claro. Mas ainda existe privilégio ali. E eu acho que a gente pode reconhecer os dois.
Crónica de Bruna Martiolli
Muito bom, e obrigado! Finalizei recentemente a graduação em Direito (bacharelado) e reconheço, sim, as lutas, as dificuldades, os momentos de felicidade e também as lutas homéricas. E, mesmo diante de tudo isso, reconheço o privilégio de viver e experimentar cada uma dessas experiências.
Enfim, a crônica me lembrou especialmente o contato com Contardo Calligaris, em Aproveitar a vida e suas dores:
“Meu ideal não é a felicidade, mas a variedade e a intensidade das experiências, sejam alegres ou penosas.”
Muito mais poderia ser dito, e certamente ainda há muito a aprender. Mas vou me limitar, por enquanto, a indicar sete livros que considero especialmente interessantes:
Carta de uma orientadora: Sobre pesquisa e escrita acadêmicas, de Debora Diniz;
Professores pesquisadores (Coleção O Valor do Professor, vol. 6), de Gabriel Perissé;
Crítica da vítima, de Daniele Giglioli;
Como Ler Livros, de Mortimer J. Adler e Charles Van Doren;
¿Qué tal sería ser culto?, de Peter Bieri (título original em alemão: Wie wäre es, gebildet zu sein?);
Introdução à vida intelectual, de João Batista Libanio;
Estudante de Verdade: Guia Prático de Virtudes no Estudo, de José Roberto Mello Porto.
São leituras diferentes entre si, mas que, cada uma a seu modo, ajudam a pensar sobre a formação intelectual, a escrita, a leitura, a pesquisa e, sobretudo, sobre a maneira como nos relacionamos com o conhecimento e com as próprias experiências.