Festival do Crato 2026 arranca com cinco dias de música, tradição e cultura alentejana: “O festival está a ficar uma marca muito forte e a ganhar um grande peso entre os festivais de música do nosso país.”

O Festival do Crato está de regresso ao Alto Alentejo até 29 de agosto, com uma programação que cruza música, cultura, gastronomia e artesanato. Com uma média de cerca de 100 mil visitantes por edição, o evento quer afirmar-se como um ponto de encontro entre diferentes gerações e visitantes de várias regiões do país.

Além dos concertos, o recinto integra uma feira de artesanato e gastronomia, dedicada à valorização dos produtores e das tradições locais. A experiência é complementada por uma zona de campismo destinada aos portadores de passe geral com campismo, permitindo aos festivaleiros permanecer no recinto durante toda a programação.

A programação arrancou a 25 de agosto, com Gipsy Kings by Diego Baliardo, a que se juntam A Batalha do K-Pop, Elyas e Pears. No dia 26 de agosto, subiram ao palco Slow J, Dub Inc, Bispo e Zanova. Já a 27 de agosto será marcada pelas atuações de Veigh, Papillon, Soraia Ramos e Breyth. A programação de 28 de agosto conta com Calema, Sara Correia, Delfins, Kura e Ana Isabel Arroja. O último dia, 29 de agosto, encerra o festival com Calum Scott, Buba Espinho, Karetus e Projeto Remember Old Times.

Acede à entrevista ao diretor do festival.

 

Estamos perante a 40.ª edição da Feira de Artesanato e Gastronomia do Crato. O que significa chegar a este marco e que balanço faz do percurso do festival até aqui?

A Feira foi tendo uma evolução, a partir dos anos 2000 acrescentou um figurino de festival de música. No entanto, um tipo de evento não vive sem o outro. Portanto, é uma evolução que decorre paralelamente, uma vez que também mantemos a Feira de Artesanato a funcionar (que tem entrada gratuita) e, no outro lado, funciona o Festival do Crato. Este também incorpora muito essa mística de várias gerações, que vieram ao Crato como Feira de Artesanato, e mantêm-se hoje a vir, porque faz parte das suas vidas. Eventualmente, hoje já trazem filhos e netos, e isso também provoca o Festival do Crato a ter uma oferta muito diversificada relativamente aos gostos musicais.

 

O que distingue o Festival do Crato de outros grandes festivais de verão realizados em Portugal?

Acima de tudo, o facto de ser no centro de uma vila do Alentejo, que tem cerca de 3.500 habitantes, e que nestes cinco dias, se transforma para receber mais de 20.000 pessoas por dia. É um festival numa zona pavimentada com a nossa calçada alentejana, e que também mantém dinâmicas para trazer várias gerações ao festival. Relativamente à oferta musical, dividimos sempre: temos dois dias direcionados para o público mais jovem e dois dias para aquele público mais experiente.  

 

Como foi feito o equilíbrio entre artistas internacionais e a aposta em artistas nacionais e emergentes?

Queremos manter esse equilíbrio: ter sempre uma vertente de artistas portugueses, que para nós é muito importante, mas também ter algumas novidades a nível internacional e agradar a várias idades. Este ano havia muitos festivais e obrigaram-nos a fazer uma coisa que não é muito habitual. Fechámos primeiro os cabeças de cartaz e depois fomos completando com projetos que nos iam chegando. Às vezes, há propostas de projetos que ainda são emergentes e também vamos à procura de um equilíbrio com alguém que já tenha estado no Crato, como é o caso dos Delfins, que regressam ao fim de algumas décadas. 

 

Houve algum artista ou projeto que tenha sido particularmente difícil de trazer ao Festival do Crato este ano? 

Sim, tivemos que ter alguma paciência para o tempo de espera da resposta positiva de Calum Scott. 

 

Que concerto ou artista considera que poderá ser uma das grandes surpresas desta edição? 

O dia que vai ser mesmo um dia daqueles à Festival do Crato será a sexta-feira. Há muita expectativa de ver o espetáculo dos Calema neste contexto, é sempre diferente. Pessoalmente, tenho uma grande curiosidade em ver o concerto de Papillon. 

O Festival do Crato está integrado na Feira de Artesanato e Gastronomia do Crato. Qual é a importância desta ligação ao território para construir a identidade deste evento?

A importância é que conseguimos trazer um grande número de pessoas através dos gostos musicais. Posteriormente, misturamos também a oferta do artesanato, cultura e tradição das nossas regiões. Aliada a isso, trazemos a gastronomia alentejana, que é muito rica nas tasquinhas, no nosso restaurante oficial. Também temos um palco onde misturamos um pouco de showcooking, artesãos a trabalhar ao vivo, para que as pessoas possam experienciar a cultura alentejana. Vamos estrear um conceito no festival, que é a Digital Box que vai funcionar junto ao campismo no Parque Aquático. Vamos trazer artistas que são youtubers ou que têm projetos com os seus próprios canais. Misturamos muito a aposta nos meios digitais, mas queremos manter o artesanato e a gastronomia para que as pessoas reconheçam as mais-valias do Alentejo, que são as suas tradições, cultura e pessoas. 

 

Como descreve a evolução do público que vai ao festival nos últimos anos? Qual é o perfil do festivaleiro que vai ao festival? 

O primeiro festival pelo qual fui responsável foi o de 2018. Tínhamos um público muito jovem e agora, aumentamos um pouco essa faixa etária. É uma mistura muito grande. Diria que temos um terço de jovens entre os 16 e os 25 anos, o outro terço são famílias inteiras com crianças que começam a vir ao Festival do Crato ao colo e que mais tarde vão estar na primeira fila do palco a ver os seus ídolos, e por fim, há ali uma mistura de várias faixas etárias no outro terço que tem muito a ver com o dia. Dias 26 e 27 será um público mais jovem e nos outros dois dias será um público um bocadinho mais sénior.

 

Organizar um festival desta dimensão, numa vila no interior coloca alguns desafios ao nível da segurança, da mobilidade, estacionamento, alojamento, etc. Quais foram as maiores dificuldades logísticas na organização do festival? 

Nós temos uma grande preocupação e não facilitamos com a segurança. Fazemos um investimento muito grande nesse campo, com segurança privada, Guarda Nacional Republicana, Proteção Civil, assistência médica e socorristas permanentemente no recinto. Há uma presença muito dissuasora de comportamentos menos positivos. 

O Festival do Crato tem uma rede de transportes no Alto Alentejo de cerca de nove percursos, que permite que quase todas as pessoas do Alto Alentejo possam vir de autocarro ao Festival do Crato. Tem uma parceria com a Rede Expressos e com a CP para que quem tenha passe do Festival do Crato, tenha descontos entre 20% a 30%. O ano passado ultrapassamos as 32 mil pessoas que usufruíram destes transportes públicos, o que também é bastante positivo para nós. Temos uma zona definida para pessoas com mobilidade reduzida, com estacionamento e entrada reservada, casas de banho adaptadas e circuitos sinalizados. Temos uma grande preocupação com a inclusividade e com a mobilidade das pessoas.

 

Qual é a importância da componente do voluntariado ligada ao projeto EcoMove Crato?

Este ano incrementamos uma nova preocupação que é a questão dos resíduos. O EcoMove Crato é uma campanha com jovens voluntários que vão estar a circular durante 4 horas do evento nos dois recintos, na Feira e no Festival, para incentivarem as pessoas a fazerem a separação dos resíduos, para que possamos diminuir a nossa pegada neste contexto da responsabilidade social.

 

Estão à venda passes de 4 dias com e sem campismo e bilhetes diários que permitem viver o festival de diferentes formas. Que evolução é que têm sentido na procura pelo festival? 

Há sempre uma componente muito forte na compra de passes de 4 dias. Já esgotamos o camping ocasional há mais de uma semana e na sexta-feira (28) e no sábado (29), tenho quase a certeza que vamos esgotar os bilhetes diários. Ainda estamos longe de esgotar os dos dias 26 e 27, mas houve uma evolução muito forte nas últimas 24 horas. O que me deixa muito satisfeito porque tivemos alguma chuva durante os últimos dias que poderia retrair as pessoas de vir ao festival. Estou muito satisfeito, é muito positivo. 

Qual é a importância de continuar a ter o campismo para a experiência do Festival do Crato? 

O campismo dá uma dinâmica de 24 horas à vila do Crato. Esta aposta nos transportes públicos também tem este condicionalismo. As pessoas vêm no transporte àquela hora e estão menos horas no Crato. O campismo permite que 1.500 jovens possam estar em permanência na Vila do Crato e movimentar-se junto dos cafés, restaurantes, supermercados e farmácias. Isso é muito positivo para a economia local. Além de todas as empresas que trabalham connosco (os nossos parceiros e patrocinadores), esta possibilidade de apresentar 1.500 jovens por dia traz dinâmica diária à Vila. Também já há jovens que optam por alugar casas e quartos na Vila do Crato e nos arredores.

 

Qual é o próximo grande desafio do Festival do Crato?

A Feira de Artesanato e Gastronomia e o Festival do Crato vivem juntos há 40 edições. Mas neste momento, para bem dos dois eventos, vamos ter que tomar uma decisão de eventualmente separar as datas dos mesmos. Em termos de comunicação, muitas vezes existem grandes confusões que não são benéficas para o Festival nem para a Feira. Nós gostávamos de antecipar a Feira de Artesanato e Gastronomia e ter, pelo menos, um trimestre de intervalo entre os dois eventos. O próximo grande desafio do Festival do Crato passa por esta profissionalização toda que fomos obrigados a ir colocando no festival, agregando mais patrocínios e parceiros, e também trazendo ainda mais espetáculos que acrescentem valor àquilo que é o Festival do Crato. Procuramos sempre equilíbrio financeiro e social. 

 

Há vontade de trazer mais artistas internacionais no futuro, ou a prioridade continuará a ser artistas nacionais? 

Enquanto eu for responsável, continuará a ter obrigatoriamente um espaço considerável para as produções nacionais. Acho que quem trabalha a nossa língua, os nossos projetos, merece esse espaço, e nós teremos sempre isso como objetivo. No entanto, também percebemos que existe uma concorrência forte neste mercado dos festivais e que teremos que estar preparados para ela. Isso exige que tragamos sempre dois a três grandes momentos de nível internacional ao Crato. 

 

Qual foi o momento mais marcante que viveu enquanto responsável do Festival até hoje? 

O momento mais difícil foi a pandemia, quando tivemos que cancelar o Festival. Tive vários momentos marcantes, mas eu guardo muito as atitudes. Há dois anos, um artista teve um percalço e atrasou-se mais de uma hora e o Richie Campbell prontificou-se para antecipar a sua entrada em palco, para que quem estava no Festival não notasse tanto aquilo que se estava a passar. Esse momento, para mim, foi muito marcante do ponto de vista pessoal e realçou o equilíbrio e sentimento que existe pelos projetos portugueses.

 

Há algum concerto de uma edição anterior que guarde de forma particularmente especial?

Ivete Sangalo, em 2019, acho que foi um momento extraordinariamente marcante. Há dois anos, os James e no ano passado tivemos Skunk Anansie que também foi fantástico. Há muitos anos atrás, os Scorpions. Tivemos vários de Xutos e Pontapés, já vieram ao festival cerca de três vezes e é uma banda que tem uma relação muito forte com o Crato. Os artistas vêm ao festival do Crato com um enorme gosto e carinho, e isso leva-me, enquanto responsável, a proporcionar todas as condições de comodidade para eles. Temos um backstage totalmente decorado, com muito conforto, e privacidade para cada um deles, temos muito cuidado com esse tipo de coisas. Fazemos uma oferta aos artistas com uma pequena lembrança que gostamos que guardem nos seus estúdios ou salas de troféus e gostamos de deixar a nossa marca com eles, porque eles são a alma do festival do Crato, os criadores, os artistas e o público também.

 

Há algum artista que nunca tenha vindo ao festival do Crato e que ainda sonha trazer? 

Gostava de trazer Depeche Mode e Manu Chao ao Crato. São duas abordagens diferentes, mas há muitos anos que andamos a tentar e ainda não conseguimos chegar a bom porto. Pode ser que algum dia, ou eu, ou outro responsável do festival, os consiga trazer. Estarei lá a aplaudir na primeira fila. 

 

O que acha que esta edição do festival do Crato traz de diferente de todas as edições passadas do festival? 

É um festival muito mais molhado. Este ano tivemos o presente da chuva, mas tivemos a sorte de durante a noite nunca chover. Uma coisa que é inevitável é a consolidação daquilo que as últimas duas edições vêm dizendo às pessoas: que o festival está a ficar uma marca muito forte e a ganhar um peso muito forte entre os festivais de música do nosso país. Eu diria que estamos nos cinco melhores festivais de música, com respeito por todos os outros. 

E dizer aos outros festivais que continuem a trabalhar para divulgar a música portuguesa, trazer a cultura às pessoas. Divulgar a arte é muito importante, principalmente no interior, onde nós não temos tanta oferta privada. Espero que existam entidades públicas e  associações que continuem a fazer coisas fantásticas no nosso território. Tratar cada pessoa seja de onde for com o mesmo equilíbrio, responsabilidade e respeito. 

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