Festival MED26: “Mais do que música, é um espaço de encontro entre culturas” 

Paulo Silva acompanha o Festival MED desde a sua primeira edição e é hoje diretor de um projeto que ajudou a construir ao longo de 22 anos. O percurso começou na produção, passou pelos palcos secundários, pela programação nacional e artística, até assumir a direção do festival. Ao longo destas mais de duas décadas, viu o MED crescer e afirmar-se como uma referência nacional, mantendo uma identidade assente na descoberta, no encontro entre culturas e na abertura ao mundo.

Nesta conversa, Paulo Silva fala sobre a evolução do conceito de world music, a construção do cartaz de 2026, a importância da “Cidade MED” e o papel dos festivais num contexto marcado por conflitos e divisões. Entre música, identidade e interculturalidade, deixa uma ideia clara: mais do que um festival, o MED quer continuar a ser um espaço de encontro.

 

Estás ligado ao Festival MED26 desde a primeira edição. O que te conquistou inicialmente neste projeto? A dimensão artística? O peso internacional?

Estou desde a primeira edição do festival. No início estava mais ligado à produção, depois fui passando por várias áreas: palcos secundários, programação nacional, programação geral e, agora, ocupo também a direção do festival.

O que é que me conquistou? Muita coisa… A sua dimensão mas sobretudo a filosofia do MED. Foi isso que me levou a manter esta ligação durante estes 22 anos. Acho que o festival tem uma missão muito própria e muito nobre: dar a conhecer o melhor que se faz na world music e criar pontes entre públicos. Essa força da descoberta é algo que os festivais precisam cada vez mais.

 

O MED26 apresenta-se como um world music festival. O que significa, em 2026, esse conceito?

Tenho uma opinião muito própria sobre isso. Embora usemos a designação world music festival para situar o gênero musical do festival, acho que hoje a ideia de world music precisa de ser repensada.

É um chapéu demasiado grande. Nos anos 80 e 90, o termo servia muito para categorizar tudo aquilo que não encaixava nos estilos dominantes ou que vinha fora do universo anglo-saxónico. Acabou por se transformar numa categoria enorme, que reúne estilos muito diferentes.

Hoje há festivais que já utilizam termos como global music. Mas o mundo mudou, o acesso ao conhecimento, às plataformas digitais, ao Spotify, às redes sociais, permitiu-nos chegar a sonoridades que antes eram praticamente inacessíveis. Tenho debatido isso com vários colegas da área, porque sinto que este conceito precisa de evoluir.

Este ano encontramos artistas vindos do Norte de África, Europa de Leste, propostas entre jazz, folk, eletrónica e tradição. Houve uma narrativa ou ideia-base que guiou a construção deste cartaz?

Nós anualmente tentamos trazer propostas novas, novas sonoridades e equilibrar artistas consagrados com bandas emergentes, nacionais e internacionais.

Claro que apostamos muito na questão internacional, mas nunca deixamos de apostar na música portuguesa. O MED é uma montra para o mundo, mas também uma oportunidade para quem nos visita conhecer aquilo que se faz em Portugal.

Ainda existe muito a ideia de que Portugal é apenas fado. Viajo bastante por feiras internacionais e continuo a sentir isso. Temos projetos extraordinários noutras áreas musicais e o festival também tem essa missão: mostrar que Portugal faz muito mais do que apenas fado.

 

Tó Trips parece uma escolha particularmente simbólica nesta edição. O que representa a presença dele no cartaz e que lugar ocupa dentro da identidade que querem construir para o MED?

O Tó Trips tem sido um amigo antigo do festival. Já passaram por cá vários dos seus projetos, os Club Makumba, os Dead Combo e agora os Fake Latinos.

Tive oportunidade de ver este novo projeto há alguns meses e acho o Tó Trips um músico absolutamente essencial na nossa cena musical, sempre com propostas muito arrojadas, na sua forma de tocar e na sonoridade. Este ano tivemos a sorte dele aceitar estar cá e o projeto dele é mesmo muito bom e a primeira vez que o vai apresentar será em Loulé.

Além disso, ele representa muito aquilo que o festival é: propostas alternativas, diferentes sonoridades e percursos musicais que nunca seguiram uma lógica mainstream. Esse espírito de descoberta encaixa muito bem no MED.

O conceito de “Cidade MED” sugere um festival que sai do recinto e ocupa a cidade. Como nasceu essa ideia?

Ao longo dos anos fomos percebendo que o festival cresceu muito para além do recinto.

Começámos em 2004, inserido na programação do Euro 2004, num espaço diferente da cidade, e não correu particularmente bem. Mantivemos a ideia, mas mudámos o local para o centro histórico de Loulé.

As primeiras edições foram tímidas, mas o festival foi crescendo. Passámos de dois palcos para três, depois quatro e hoje temos doze espaços de música.

Depois da pandemia percebemos que o festival ultrapassava claramente aquelas “quatro paredes”, digamos assim, começamos a perceber que o festival extravasava fora do seu habitat, da zona histórica, e este ano optamos por avançar com Cidade MED, que surge precisamente dessa vontade de levar o festival para fora do recinto, tanto fisicamente como em conceito.

Queremos começar a viver o festival mais cedo, decorar a cidade, criar uma espécie de aquecimento, oferecer programação cultural gratuita e envolver mais a comunidade. Também é uma forma de agradecer à cidade, porque o MED é muito acarinhado pelos louletanos.

 

Vivemos um período marcado por guerras, polarização e divisões. Um festival construído sobre encontros culturais ganha hoje um significado diferente?

O MED sempre foi um festival de encontros e partilha.

Vivemos momentos difíceis, numa era de conflitos, de urgência, de algoritmos e rapidez. E acho que festivais como este são importantes para mostrar que diferentes culturas conseguem coexistir em harmonia e trazer mais conhecimento de outros países, de outras tradições.

Não é apenas o MED, muitos festivais ligados a esta área têm esse papel agregador: defender a diversidade cultural, criar espaços de convivência e mostrar que só temos a ganhar quando conhecemos o outro.

 

Para terminar, se esta edição do MED26 fosse uma viagem, onde começava e onde terminava?

Este ano vamos ter a edição mais internacional de sempre, com 30 nacionalidades representadas e o maior número de artistas em palco até hoje.

A viagem podia começar em Portugal, mas podíamos viajar até ao Brasil, podíamos ir a Marrocos, Cabo Verde, Coreia do Sul… Há imensos países… Hungria.

Tantos que vamos poder ter cá sonoridades muito diferentes e muitas vezes em formato de fusão. Nós abordamos as duas questões no festival. As sonoridades mais tradicionais, apresentadas de uma forma mais pura. Mas também gostamos muito de receber, e eu pessoalmente gosto muito dessa área, das áreas de fusão, onde conseguimos cruzar elementos étnicos com outras sonoridades, talvez mais urbanas, que temos hoje em dia. E isso talvez ajude até a dar a conhecer e a chegar a um público com todos esses novos sons, nestes casos antigos, que se fazem por todo o mundo.

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