O compositor Jorge Peixinho vai contar com um concerto exclusivamente dedicado à sua obra, no Festival Música Viva, a iniciar-se no próximo dia 28, no Teatro S. Luiz, em Lisboa, segundo o programa divulgado pela associação Miso Music Portugal.
Dedicado à “obra política” do compositor, o concerto realiza-se no segundo dia do festival, 29 de abril, e é protagonizado pelo Ensemble MPMP, em octeto.
O programa inclui “CDE“, de 1970, obra com a sigla da Comissão Democrática Eleitoral, coligação da oposição que ousou apresentar-se às eleições viciadas da ditadura do ano anterior, “Elegia a Amílcar Cabral“, de 1973, dedicada ao líder da luta pela independência de Cabo Verde e Guiné-Bissau, assassinado nesse ano, e “A Aurora do Socialismo (Madrigale Capriccioso)”, composta em 1975–1976.
Na apresentação do concerto, a plataforma MPMP – Património Musical Vivo, com origem na associação Movimento Patrimonial pela Música Portuguesa, apresenta Jorge Peixinho (1940-1995) como “um caso singular” na música portuguesa, citando o crítico e sociólogo Augusto M. Seabra, que atribuía ao compositor “o efetivo início de práticas musicais contemporâneas em Portugal”.
A MPMP sintetiza o percurso de Peixinho, “o seu trabalho seminal na electroacústica, na música incidental para teatro ou no contacto com as práticas contemporâneas de outras disciplinas artísticas, […], o aguerrido trabalho de divulgação da música contemporânea”, incluindo as primeiras apresentações de John Cage no país, no início da década de 1960, os primeiros cursos dedicados à música nova, a fundação do Grupo de Música Contemporânea de Lisboa, em 1970, e a sua abordagem da contemporaneidade, muito além dos cursos de Darmstadt, como “a tarefa de pensar o que seria uma música política”.
“Numa originalidade absoluta no caso português — seja na ‘Primavera Marcelista’ ou no PREC (como as obras deste programa), seja no período democrático até hoje —, nenhum outro compositor foi tão empenhado na expressão musical dos seus ideais políticos em música, e nos seus ideais musicais na política”, lê-se na apresentação do concerto.
“As suas partituras abertas à decisão individual e dependentes da escuta atenta entre os membros do ensemble oferecem modelos de sociabilidade que podem ser descritos como democráticos”, sustenta a MPMP que recorda como as obras do concerto “são testemunhos vivos do espírito de resistência democrática ao regime salazarista e da vontade de construir um país melhor”; obras que também lembram que, “tal como a música, a política emerge essencialmente das nossas próprias mãos”.
Jorge Peixinho formou-se em Piano e Composição no Conservatório Nacional de Lisboa, onde estudou com Jorge Croner de Vasconcelos. Aprofundou a formação na Academia de Santa Cecília, em Roma (1958-1961), trabalhou com Luigi Nono, em Veneza, frequentou os cursos da Academia de Basileia, com Pierre Boulez e Karlheinz Stockhausen, com quem desenvolveu projetos de composição coletiva em Darmstadt, Alemanha.
Trabalhou no Institute for Psychoacoustics and Electronic Music, em Gante, na Bélgica, no Estúdio de Música Experimental de Bourges e no IRCAM – Instituto de Pesquisa e Coordenação de Música e Eletroacústica, em França.
Desde o início, a sua obra destacou-se em festivais internacionais. De muitos recebeu encomendas a que respondeu com estreias.
A Casa da Música, no Porto, fez de Jorge Peixinho figura central do programa “Música e Revolução”, em 2010. O New Music Consort, do Canadá, dedicou-lhe uma semana da sua programação em 1990.
A obra de Jorge Peixinho soma perto de duas centenas de composições. É autor de “Políptico” e “Concerto de Outono“, para orquestra, de quatro premiados Recitativos para conjuntos de câmara, de cinco Estudos para piano, entre os quais “Mémoire d’une présence absente”.
Escreveu “Meta-Formoses – Concerto para Clarinete Baixo“, uma das suas mais interpretadas peças a nível internacional. Estreou “Morrer em Santiago“, em 1973, no Teatro S. Luiz, em Lisboa, então paredes meias com a sede da PIDE, polícia política da ditadura portuguesa, pouco depois do derrube da democracia chilena pelo golpe militar.
Peixinho também compôs para teatro e cinema, para “Macbeth”, de Shakespeare, “Diário de Um Louco”, de Gogol, para textos de García Lorca, Tchekhov, Strindberg, assim como para os filmes “A Pousada das Chagas”, de Paulo Rocha, e “Brandos Costumes”, de Alberto Seixas Santos.
Projetos como “Luiz Vaz 73″, nos 400 anos d’”Os Lusíadas“, e outros desenvolvidos com Ernesto de Sousa e Almada Negreiros estabelecem Peixinho como pioneiro no cruzamento de disciplinas artísticas.
A importância da literatura na sua obra passa por composições como “Euridice Reamada”, sobre Herberto Helder, “Leves Véus Velam”, a partir de Fernando Pessoa, “Coração Habitado”, de Eugénio de Andrade, e “Viagem da Natural Invenção”, sobre Camões, Mário de Sá-Carneiro, Sophia de Mello Breyner Andresen e Herberto, só estreada em 2000, nos Encontros Gulbenkian de Música Contemporânea.
Para crianças, compôs “A Madame Borboletra“, com “instrumentinhos e brinquedos”, a partir da peça de Maria João Reynaud.
O Festival Música Viva, organizado pela associação Miso Music Portugal, toma este ano a “Insurgência” por tema, perante “o estado do mundo”, e vai decorrer de 28 de abril a 03 de maio, no Teatro S. Luiz, em Lisboa, com oito concertos, para perto de 30 obras – cinco em estreia absoluta -, de compositores como Fernando Lopes-Graça, Steve Reich, György Ligeti, Marta Domingues, Solange Azevedo e Miguel Azeguime.