Festival Setentrional celebra a música contemporânea portuguesa em Penafiel

Fernando Tomaz

Entre os dias 1 e 10 de julho, Penafiel acolhe a primeira edição do Festival Setentrional, promovido pelo Ponto C, um espaço cultural de referência na região do Tâmega e Sousa. Com uma programação que cruza géneros como o jazz, o fado, a música de intervenção, o blues e a música erudita contemporânea, o festival afirma-se como uma celebração da música portuguesa atual, reunindo alguns dos mais relevantes intérpretes e compositores da cena nacional.

A curadoria artística está a cargo de Mónica Guerreiro, que destaca o objetivo de tornar o Ponto C “um palco privilegiado para vários géneros de música, cimentando a relação com a contemporaneidade e com a excelência artística”. A proposta do Festival Setentrional é clara: dar visibilidade à criação musical feita hoje em Portugal, valorizando a diversidade estética e os diferentes percursos criativos.

A abrir o festival, no dia 1 de julho, a Orquestra do Norte, sob direção de José Eduardo Gomes, sobe ao palco do auditório do Ponto C para o concerto inaugural. Em destaque estão duas obras de compositores portugueses: “Maidan”, de Pedro Emanuel Pereira, em estreia absoluta, e “Sons da Terra”, da compositora Anne Victorino d’Almeida.

No dia 3 de julho, o público é convidado a refletir sobre o papel das mulheres na história da música. A partir das 16h30, é gravado o podcast Femina, com a jornalista Vanessa Augusto e a musicóloga Inês Thomas Almeida, na Casa da Caturra. Segue-se, às 18h30, uma conferência da mesma investigadora sobre o tema “O apagamento das mulheres na história da música”. Já à noite, o compositor e pianista António Victorino d’Almeida protagoniza um concerto a solo no Centro Paroquial de Peroselo.

No dia seguinte, 4 de julho, a fadista Carminho apresenta o seu mais recente álbum, “Portuguesa”, pelas 21h30. Considerada uma das vozes mais marcantes da sua geração, Carminho traz a Penafiel um trabalho aclamado internacionalmente, que cruza tradição e modernidade. Nomeado para o Grammy Latino na categoria de Melhor Álbum de Raízes de Língua Portuguesa, “Portuguesa” inclui temas como “O Quarto”, presente na banda sonora do filme “Poor Things”, de Yorgos Lanthimos.

O Mosteiro do Salvador de Paço de Sousa será o cenário do concerto protagonizado pelos irmãos Fernando Costa (violoncelo) e Luís Costa (piano), no dia 5 de julho, às 18h00. O recital, intitulado “Canção de maio & outras breves”, apresenta obras de diferentes épocas, com destaque para a peça “Breves & Breves”, de Anne Victorino d’Almeida.

No dia 6, a programação continua com um recital do jovem pianista Rodrigo Teixeira, às 17h30, que interpretará obras de Pedro Emanuel Pereira, Francisco Lucena Pais e Franz Liszt. Mais tarde, pelas 19h00, o grupo L-Blues, de Barcelos, apresenta no anfiteatro do Ponto C o seu álbum “Labirinto”, um trabalho que percorre sonoridades entre o rock, o folk e o blues, num trajeto musical repleto de inquietações.

A 8 de julho, o Quarteto Caleidoscópio apresenta “Vórtice (para o fim de um tempo 2.0)”, uma peça multidisciplinar que combina música, instalação sonora e iluminação. Com autoria de Catarina Sá Ribeiro, Daniel Moreira e Miguel Resende Bastos, e encenação de João Delgado Lourenço, esta criação reflete três visões sobre o fim do tempo e desafia os limites tradicionais do espetáculo musical.

No penúltimo dia do festival, 9 de julho, os pianistas Pedro Emanuel Pereira e Rem Urasin apresentam um concerto a dois pianos, às 21h30. O programa inclui obras de compositores portugueses como Joly Braga Santos e Pedro Emanuel Pereira, e ainda de nomes russos como Farit Yarullin e Sergei Rachmaninoff, cruzando diferentes gerações da chamada escola russa de piano.

O encerramento do Festival Setentrional acontece no dia 10 de julho com um concerto de homenagem ao mestre da guitarra portuguesa Carlos Paredes, no ano em que se assinala o centenário do seu nascimento. O pianista Mário Laginha sobe ao palco acompanhado por Julian Argüelles (saxofone), Romeu Tristão (contrabaixo) e João Pereira (bateria), numa fusão entre o jazz e a herança musical de Carlos Paredes, que promete ser um dos pontos altos do festival.

O Setentrional aposta também numa programação pensada para os mais novos. Nos dias 2, 5, 6 e 10 de julho, a instalação “Das gavetas nascem sons” convida famílias e crianças a explorar sons e texturas em 42 gavetas interativas. A instalação, que combina filme e performance, transforma o som guardado em histórias partilhadas, num verdadeiro “instrumento-poema”.O Festival Setentrional propõe-se assim a ser um espaço de encontro entre a tradição e a inovação, entre o erudito e o popular, entre o passado e o futuro da música portuguesa. É um convite à descoberta e à escuta, no coração do Norte.

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