Filipa Mota Nesbitt: “Apoiar novos autores não é apenas publicar livros, é  criar condições para que essas vozes permaneçam, cresçam e sejam ouvidas”

Filipa Mota Nesbitt estreia-se na literatura com “Senhora de Si”, o seu primeiro romance, escrito a partir da urgência de contar uma história própria. Entre a força da escrita e os desafios da estreia, Filipa teve de aprender a lidar com a visibilidade limitada do mercado português, onde lançar um livro significa não só escrever, mas também promovê-lo e criar espaço para que novas vozes sejam ouvidas.

A experiência mostrou-lhe que publicar é apenas o início. Manter o interesse dos leitores, conquistar espaço nas livrarias e fazer com que o livro chegue a quem o queira ler exige persistência e estratégia: tarefas que a autora assumiu numa estreia em que cada passo era também uma aprendizagem sobre o mercado literário português.

 

Dizes que nunca é tarde para seguir os nossos sonhos e libertar as personagens que vivem em nós. Foi assim que nasceu “Senhora de Si”?

Sim, mas não de forma romântica. “Senhora de Si” nasce mais de uma urgência do que de um sonho. Houve um momento em que percebi que prolongar uma vida de vontades alheias me custava a saúde, um preço muito alto. Quando ganhei coragem para fazer as perguntas certas e aceitei que a história merecia ser contada, a escrita surgiu, já com uma personalidade muito definida.


“Senhora de Si” é feita de vontade própria, de respostas ao passado e de um desenho de caminho para o futuro. O caminho certo da coragem: reunir em páginas a paixão do enredo, o mistério da construção dos capítulos e o desconforto de fazer pensar. Ou simplesmente sentir.
A minha escrita surge para vencer o medo de sentir.

 

É um livro sobre perda, cura e a coragem de enfrentar os fantasmas do passado para encontrar um novo sentido na vida. Como foi escrever algo tão denso logo à primeira?

Não pensei muito no peso do livro enquanto o escrevia. Pensei no rigor: como gostaria que o leitor o lesse, com pausas para refletir, com entrelinhas para pensar e com sentido de humor para respirar. 

Escrevi a partir de um lugar honesto, pelo que a densidade não foi uma escolha, mas uma consequência. Foi um processo exigente, mas também muito claro. Sabia que não queria suavizar, nem explicar em excesso. Preferi confiar no leitor e na força dos silêncios. Fiquei mais leve após escrever este romance. Creio que era necessário retirar esta camada, para agora avançar para outras histórias, talvez menos íntimas.

 

Há algum autor português contemporâneo que te tenha influenciado na escrita do livro?

Mais do que influências diretas, houve companhias. Ótimas companhias.

Dos autores portugueses contemporâneos sou, declaradamente, apaixonada pela escrita do Afonso Cruz. Os livros do Afonso ensinam-me o quotidiano como lugar de revelação, e não como decoração, o mistério do silêncio subentendido nas palavras e a literatura como salvação, quando falamos das dores e dos medos.

Também admiro muito as autoras Dulce Maria Cardoso e a Teresa Veiga. Ensinam-me que a complexidade feminina não precisa de ser simplificada para ser legível. Sou viciada na prosa poética da Matilde Campilho e nos poemas da Cláudia Sampaio. São inspirações repetidas na minha cartilha.

Na verdade, inspira-me quem escreve sem concessões, mesmo sabendo que isso implica risco. Sem medo, escrevem-se as melhores obras, ou pelo menos as mais reais, as verdadeiras, as que ficam na memória.

Lembras-te da primeira frase que escreveste para “Senhora de Si” e que ainda está no livro?

Lembro-me do impulso mais do que da frase em si. Talvez seja uma frase escrita quase sem pensar, muito próxima do corpo, e por isso sobreviveu. Não sei identificá-la, mas muitas das primeiras frases caíram. Ficaram apenas as que continham já o tom do livro: contido, atento, insistente. Isso, sim, estava definido.

Quis escrever como gosto de ler: com pausa, pensamento e lápis para sublinhar o que esboça um sorriso ou desvenda uma pista. O que sempre tive claro, quase inegociável como ponto de partida e também o ponto de chegada, foi o título: Senhora de Si. Foi capa, mote e destino. De Amélia. E da autora.

 

A Amélia é inspirada em alguém?

A Amélia conta a minha história. Foi a personagem que sempre falou mais alto. Vivia numa inquietação para contar o que se passara consigo e como pretendia libertar-se. Não fugi.

A personagem funciona como um espaço de elaboração, uma forma de dar estrutura, ritmo e silêncio ao que, vivido, era demasiado disperso. Permiti que Amélia fosse a protagonista de uma história que considero reconhecível para outras vidas levadas sem um propósito claro.

“Senhora de Si” é auto-ficção, mas não no sentido confessional ou expositivo. A escrita permitiu criar distância, trabalhar a linguagem e transformar a experiência em matéria literária. Não me interessava relatar factos, mas compreender e desenhar o percurso: por vezes tortuoso, confuso e escuro. Sensações provocadas propositadamente pela narrativa, que condensa muitas mensagens e reflete a prisão mental da personagem. Com tempo, espaço e amizade, o fogo ilumina e o caminho torna-se claro.

Desde que entraste para o Clube das Mulheres Escritoras, houve alguma dica ou conversa que mudou a forma como escreves?

Mais do que uma dica, houve um efeito coletivo: a normalização da dúvida, do processo e da imperfeição. Somos apoio, alento, desafio e comemoração de todos os passos individuais como escritoras e como clube. Trabalhamos para o alcance, reconhecimento e valorização da literatura portuguesa escrita por todos, mas essencialmente por mulheres que criam ficção.

Escrever em diálogo com outras mulheres reforçou-me a ideia de que a escrita não precisa de pedir licença, nem de se justificar. Somos projetos, mãos e letras, e é um orgulho imenso fazer parte desta voz que não se cala.

 

Depois da tua estreia, qual consideras ser o maior desafio para novos autores em Portugal?

A visibilidade sustentada. Publicar é apenas o início. O grande desafio é permanecer, construir leitores ao longo do tempo, sem cair na lógica da urgência ou da autopromoção vazia. Isso exige espaço, tempo e estruturas, que nem sempre existem. 

As livrarias têm um espaço físico muito limitado e todas as semanas entram livros novos. É tudo muito rápido e sem tempo para saborear, como solicita a boa literatura. Manter o interesse do leitor em ler-nos, em conhecer-nos como escritores, em discutir o nosso livro em clubes de leitura, é um grande desafio para o autor.

Houve algo que ninguém te contou sobre publicar em Portugal e que te surpreendeu?

A solidão depois do lançamento. Existe uma ideia muito romantizada do momento da publicação, mas o trabalho mais silencioso começa depois: continuar a escrever, a pensar, a acreditar, mesmo quando o ruído diminui. Ninguém nos prepara para este silêncio. 

Em Portugal, espera-se que o escritor seja também comunicador, gestor de redes, programador cultural e estratega, mesmo quando o seu território natural é o da escrita. Isto pode ser desafiante e implica muita disponibilidade que deveria ser canalizada para a escrita. Temos de procurar palco para falar sobre o nosso romance, sugerir o nosso livro para clubes de leitura ou propor a apresentação nas livrarias e bibliotecas nacionais. Surpreendeu-me que a visibilidade do nosso livro dependa, quase em exclusivo, do trabalho de promoção feito pelo autor.

 

Achas que há espaço para novos estilos e vozes em Portugal, ou o mercado ainda é conservador?

Acho que há espaço, mas não um espaço neutro ou garantido. O mercado literário português continua a ser, em muitos aspetos, conservador, sobretudo na forma como valida certas narrativas, temas e estilos. Ainda existe uma preferência por fórmulas reconhecíveis, por vozes já legitimadas, por uma ideia de literatura segura que vende.

No entanto, sinto que há uma geração de leitores e autores a empurrar essas fronteiras, a pedir textos mais híbridos, mais íntimos. O problema não é a falta de novas vozes, mas o tempo e a coragem que o sistema lhes concede para amadurecerem.

A mudança acontece, mas exige persistência, comunidade e um certo grau de desobediência criativa. A literatura parece que avança mais por fricção, do que por consenso.

Se pudesses mudar algo no panorama literário português para apoiar novos autores, o que seria?

Mudaria, antes de mais, a forma como o sistema distribui legitimidade. Continua a existir a ideia de que a maturidade literária está ligada ao tempo, ao silêncio e à validação por círculos muito fechados. Isso penaliza sobretudo mulheres, autores fora dos grandes centros e vozes que escrevem a partir da experiência vivida, do corpo e da fratura.

Gostaria de ver um ecossistema mais transparente e mais atento à diversidade real das narrativas, onde o risco estético não fosse visto como fragilidade e onde a escrita feminina fosse mais valorizada, pelo seu sentido estético, profundo e poético.

Investiria também na criação de estruturas de acompanhamento: residências, mentorias, clubes de leitura críticos, programas de circulação nacional, que não se limitassem ao momento da publicação, mas que sustentassem o percurso do autor português no tempo. 

Apoiar novos autores não é apenas publicar livros, é criar condições para que essas vozes permaneçam, cresçam e sejam ouvidas. Dar-lhes mais palco, mais estantes e mais voz.

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