Há mais de duas décadas que Guilherme Fonseca sobe aos palcos para fazer rir. Em Amigável, o quinto solo da carreira, transforma episódios dos últimos anos da sua vida, da terapia às relações familiares, num espetáculo que já percorre o país.
Nesta conversa com o Ensaio, fala sobre o processo criativo, a relação “complicada” com as redes sociais, a evolução do stand-up em Portugal e explica porque acredita que a melhor forma de conhecer o seu trabalho continua a ser… vê-lo ao vivo.
“Amigável” é o quinto solo da tua carreira. Em que é que sentes que o Guilherme de hoje é diferente daquele que subiu ao palco para apresentar os quatro anteriores?
Acho que um dos grandes trabalhos de quem faz stand-up comedy é descobrir a sua voz cómica. Quando ouves um texto do Ricardo Araújo Pereira, do Seinfeld ou de outro humorista de quem gostes muito, percebes imediatamente a forma como essa pessoa vê o mundo. O Chris Rock fala num tom, o Eddie Murphy tem uma velocidade, o Lewis Black tem uma irritação. Ou seja, é a voz cómica que distingue um humorista dos outros.
Sinto que, com o tempo, fui ficando cada vez mais confortável nos meus sapatos, descobri melhor a forma como escrevo e entrego as minhas piadas. Estou a encontrar a minha voz cómica e acho que essa é a maior diferença entre os meus espetáculos.
Depois há a experiência. É como ir ao ginásio: quanto mais treinas, melhor ficas. Quanto mais atuas e mais espetáculos fazes, mais a tua comédia evolui.
“”Amigável “,”simpático ” e”brincalhão ” são tudo termos que descrevem a postura de Guilherme Fonseca em palco. Mas também um qualquer labrador que esteja para adoção num canil.” Esta é a descrição do teu espetáculo. Podemos assumir que no mesmo veremos um lado teu mais descontente por seres considerado um “golden retriever”?
Na minha relação com a Rita, e até no nosso podcast Terapia de Casal, estamos sempre a brincar com isso. Dizemos que ela é o gato, porque as pessoas querem fazer-lhe festas, mas ela morde e bufa. Eu sou o labrador: gosto de toda a gente, quero dar-me bem com toda a gente e quero festas de toda a gente.
Acho que as pessoas já me associam a essa personalidade do cão simpático, que abana a cauda e só quer que lhe atirem a bola.
Mas essa sinopse funciona para duas coisas. Por um lado, explica o título do espetáculo, Amigável. Por outro, resume a minha postura cómica, a minha voz em palco. Eu sou uma versão exagerada de mim próprio. A minha personalidade é um gajo simpático, que tem necessidade de aceitação e que mesmo quando está a dizer coisas desagradáveis é como se fosse um amigo a dizer-te essas coisas. Eu não sou nem conflituoso, nem agressivo, nem tenso.
E em palco sou uma versão minha exagerada. O Amigável nasce precisamente desse lado da minha personalidade.
O título “Amigável” surgiu numa fase mais avançada da escrita ou foi o ponto de partida?
Para mim, arranjar um título é sempre a pior parte. Escrever as piadas, construir uma hora de espetáculo e afiná-la é muito mais fácil do que encontrar um nome que consiga resumir tudo.
Tive várias hipóteses em cima da mesa, uma delas não vou dizer porque acho que vou utilizar para outro projeto ou espetáculo. Mas Amigável acabou por ser o título que fazia mais sentido porque junta duas ideias.
A primeira é essa postura que tenho em palco. A segunda é uma história que conto durante o espetáculo sobre um jogo amigável de futebol onde me aconteceu uma coisa que vou recordar para o resto da vida.
Por isso, o título tem esse duplo significado. Mas continuo a achar que dar um nome a um solo é muito mais difícil do que escrever uma hora inteira de stand-up.
O espetáculo fala de terapia, de relações familiares e até de um episódio insólito envolvendo uma celebridade. Houve algum tema que te tenha surpreendido pela forma como o público se identificou? Já aconteceu o público rir numa parte onde não estavas à espera?
Sim. Às vezes escrevo pequenas piadas apenas para servirem de ponte entre duas ideias. Para mim têm uma função muito prática: conduzir o público até à piada que considero realmente forte. E às vezes essas pontes que eu crio surpreendem-me, porque as pessoas acham muito mais graça do que eu próprio achei.
Mas vou desvendar um bocadinho, e dizer uma coisa que me surpreendeu. Quando organizei o espetáculo, tinha sete ou oito grandes beats e havia um que, honestamente, considerava dos mais fracos. É um momento sobre o meu casamento com a Rita, um texto de humor de observação sobre relações.
Achei que era uma situação muito específica da nossa vida e que talvez não tivesse tanta força. Afinal, acabou por ser um dos momentos com melhor reação do espetáculo. As pessoas vêm falar comigo no fim e dizem: “A minha mulher faz exatamente isso” ou “Acontece o mesmo lá em casa”.
Eu acho que estou a ser surpreendido pela quantidade de gente que se está a rever numa coisa que eu achei que era engraçada, mas era mais cá de casa.
Qual o maior desafio no processo de criação de um solo de stand up comedy?
Se dividisse o trabalho de um humorista numa to-do list, diria que a mais difícil é, sem dúvida, escrever.
Escrever é muito complicado porque estás num estado criativo permanente e, ao mesmo tempo, estás sempre a duvidar de ti próprio. Perguntas-te constantemente: “Isto tem graça?”, “Já foi feito?”, “Será que funciona?”. Estás diante de uma folha em branco ou de uma premissa e tens de encontrar uma punchline. Esse processo pode ser bastante difícil.
Ao mesmo tempo, é também a parte de que mais gosto. Gosto desse desconforto da escrita, gosto de estar nessa situação de estar dentro da caixinha de areia e ter de construir castelos.
Depois há todo o resto: experimentar o texto, atuar o máximo possível, descobrir a cadência, o ritmo, a velocidade e ir afinando tudo isso.
Mas, para mim, a parte mais difícil nem sequer é essa. É a relação que um humorista tem de manter com as redes sociais.
Nunca me senti completamente confortável com esse lado. O que eu quero fazer é escrever e testar stand-up, mas também preciso de vender bilhetes. Isso obriga-me a criar conteúdos para chegar a mais pessoas. Esse equilíbrio entre fazer comédia e promover o meu trabalho é, sem dúvida, a parte menos natural para mim.
Sentes que o público português mudou na forma como consome stand-up? Vês grandes diferenças em relação a quando começaste? Que papel tiveram as redes sociais nessa evolução?
Mudou completamente. Quando comecei a fazer stand-up, há cerca de vinte anos, ainda estava na faculdade. Entrei nisto porque um amigo começou a atuar e eu fui atrás dele. Nunca mais saí porque adorei.
Na altura fazia parte de um grupo chamado O Sindicato e o nosso objetivo era criar um circuito de bares em Lisboa onde fosse possível “rodar texto”. Esse circuito já existia no Porto, mas praticamente não existia em Lisboa.
Lembro-me de irmos aos bares propor noites de stand-up e, muitas vezes, termos primeiro de explicar o que era stand-up comedy. As pessoas achavam que íamos contar anedotas. Nós respondíamos que não: eram textos escritos por nós, preparados para serem apresentados em palco.
Hoje, isso parece impensável. Até as nossas avós sabem, bem ou mal, o que é stand-up. Portugal acabou por acompanhar a evolução que já existia noutros países e o público também cresceu com isso.
Atualmente, qualquer pessoa pode ver um espetáculo meu no YouTube ou abrir a Netflix e assistir a um especial de um humorista americano. A concorrência deixou de ser apenas nacional, é o stand-up do mundo inteiro. Mas isso também fez crescer o interesse pela comédia. Nunca houve tanta gente a sair de casa para ver stand-up e acho sinceramente que nunca estivemos tão bem.
As redes sociais tiveram um papel muito importante nessa mudança. Se pensarmos na história da comédia, cada geração de humoristas teve de ir onde estava o público. Nos anos 40 era a rádio. Mais tarde foi a televisão. Hoje são as redes sociais.
É aí que as pessoas estão e, por isso, é aí que nós temos de mostrar o nosso trabalho. Pode não ser a parte de que mais gosto, mas faz parte da profissão. Se queremos que as pessoas conheçam o nosso trabalho e comprem bilhetes para um espetáculo, temos de ir ao encontro delas. É um equilíbrio constante entre aquilo que eu realmente quero fazer, escrever e testar, e a necessidade de divulgar esse trabalho para continuar a encher salas.
Depois de ouvires tantos humoristas a dissecar os seus próprios solos no teu podcast “Má Ideia”, o que aprendeste sobre o teu? Houve alguma conversa que te fez voltar atrás e mudar o processo de criação do “Amigável”?
Excelente pergunta. Nunca tinha pensado nisso, mas acho que sim, há pequeninas coisas.
Uma das coisas boas do Má Ideia é que só convido pessoas cujo trabalho admiro, nunca tive nenhum convidado que fosse um frete, ou uma imposição ou um desconforto, ou substituição por falha de outro convidado. As pessoas que foram ao meu podcast, são pessoas cujo trabalho eu aprecio. Mesmo quando temos formas muito diferentes de fazer comédia, acabo sempre por aprender qualquer coisa.
Lembro-me, por exemplo, de uma conversa com a Bumba. Ela tem uma presença muito mais teatral e física em palco do que eu e dizia-me muitas vezes: “Tens de explorar mais isso. Tu até és engraçado a fazer vozes, podes mexer-te mais em palco, não precisas de estar sempre agarrado ao microfone. Experimenta até te sentires confortável, porque há coisas que podes acrescentar ao teu stand-up que ainda não estás a usar.”
Aquilo ficou-me na cabeça e acabei por experimentar. Neste espetáculo há algumas piadas em que sou bastante mais físico do que era habitualmente, e isso nasceu diretamente dessas conversas.
O mais engraçado foi que, no fim de uma das apresentações de Amigável, a Bumba veio ter comigo e disse-me: “Estás a ver? Aquela piada em que fazes isto… e aquela outra em que fazes aquilo… Era exatamente disto que eu estava a falar.” E, de facto, elas nasceram muito da confiança que tenho nela, da amizade que construímos e da forma como valorizo a opinião dela.
Por isso, sim, sinto que os convidados do Má Ideia acabam por me influenciar. Inspiram-me, desafiam-me e empurram-me a experimentar. E o melhor de experimentar é que não há risco. Se resultar, ótimo. Se não resultar, voltamos atrás.
Achas que o público valoriza mais um espetáculo quando percebe esse processo ou a magia está precisamente em nunca pensar no trabalho que existe por trás de uma hora em palco?
Eu acho que as pessoas valorizam mais, mas nem todas têm interesse no processo propriamente dito. Eu sei que o Má Ideia é um podcast de nicho, feito para quem tem curiosidade sobre o processo criativo. Eu próprio gosto muito de ver esse tipo de conteúdos. Nunca vou abrir um restaurante, mas adoro ver programas sobre chefs e perceber como constroem um prato ou um negócio. Com a comédia acontece o mesmo.
As pessoas gostam de perceber o lado criativo, por exemplo, de como é que um músico escolheu uma música, como é que a Taylor Swift se lembrou de um acorde, ou como é que ela escolheu aquela letra, eu acho que há interesse nisso mesmo que não sejam compositores.
Além disso, acho que conhecer esse processo ajuda a desfazer uma ideia muito comum: a de que um humorista sobe ao palco e improvisa durante uma hora porque é naturalmente engraçado.
Na realidade, há muito trabalho invisível: escrever, testar, repetir, cortar, mudar palavras, afinar o ritmo e até as vírgulas.
Quanto mais o público percebe esse lado, mais valoriza aquilo que está a ver em palco.
Há uma ideia de que o humorista está sempre “ligado”. Fora do palco consegues desligar esse olhar analítico sobre tudo o que acontece?
Para te dar a resposta mais honesta possível, acho que nunca desligo completamente.
É quase um defeito de fabrico, ou de personalidade. Há sempre uma parte da minha cabeça a olhar para as coisas e a perguntar: “Espera aí, isto tem graça? Isto podia ter graça? O que é que acontece se eu olhar para isto de outra maneira?” Ando constantemente com essa lupa ligada.
Agora, isso não significa que esteja sempre na mesma intensidade.
Quando estou em processo criativo, a escrever um espetáculo novo, a testar texto e a atuar todas as noites, esse lado está muito mais ativo. Estou constantemente à procura de ideias, a experimentar coisas novas e a pensar em piadas.
Nesta fase, em que estou a meio da digressão de Amigável, continuo a apontar ideias no telemóvel que um dia podem transformar-se em texto, mas já não vivo completamente obcecado com isso.
É como o comando do volume. Nunca está no zero, há sempre música a tocar. Mas, às vezes, está no vinte e outras está apenas no quatro.
Neste momento, diria que está no quatro. Estou mais focado em continuar a fazer as datas que faltam, afinar o espetáculo e prepará-lo para a gravação. Quando chegar a altura de começar a escrever um solo novo, voltar a ver muito stand-up, testar material e passar noites atrás de noites em palco, aí o volume volta aos vinte.
Escreves para televisão, fazes podcasts e stand-up. Há ideias que sabes imediatamente que pertencem ao palco e outras que nunca funcionariam ali?
Há ideias em que isso é bastante óbvio.
Por exemplo, aquele beat de humor de observação sobre relacionamentos que tenho em Amigável, sobre mim e a Rita, nunca faria sentido levá-lo para o programa de domingo. Talvez pudesse usá-lo no Terapia de Casal e conversar sobre isso com a Rita, mas achei muito mais interessante desenvolvê-lo como um texto de stand-up.
Da mesma forma, se me ocorre uma piada sobre o Primeiro-Ministro, sei logo que, à partida, é para o programa de domingo. Claro que depois pode não entrar. Já aconteceu escrever piadas para o programa e elas acabarem por ficar de fora. Nesses casos penso: “Isto não vai para o lixo.” Posso aproveitá-las para o Twitter, para um Reel ou para um TikTok. Há sempre outras formas de lhes dar vida.
Mas também há muitas ideias que não sei logo onde vão parar.
Tenho um caderno, aliás, ando sempre com vários cadernos atrás de mim, como se vê no cenário do Má Ideia, onde vou apontando pensamentos, perguntas, comparações e pequenas observações. Muitas nem sequer são engraçadas quando as escrevo. São apenas coisas que me chamam a atenção.
Esse caderno é quase um depósito de peças soltas. Às vezes não faço ideia se aquilo vai dar um texto de stand-up, um sketch, um guião ou outra coisa qualquer.
Há pouco tempo, por exemplo, eu e a Rita gravamos um Reel para a FNAC, numa parceria com a Google Pixel. A certa altura, estou a fazer perguntas disparatadas a um funcionário da FNAC e uma delas é: “Toda a gente fala da flora intestinal. Porque é que ninguém fala da fauna intestinal?”
Essa pergunta estava escrita naquele caderno há imenso tempo.
É isso que acontece muitas vezes. As ideias ficam ali guardadas até aparecer o sítio certo para elas. De repente lembro-me: “Espera aí, tenho aqui uma coisa que encaixa perfeitamente.” Vou buscar essa peça e ela encontra finalmente o lugar dela.
Acho que o processo é muito esse: vou colecionando ideias sem saber exatamente para onde vão e, mais tarde, quando surge o projeto certo, começo a perceber onde é que cada uma encaixa.
Se tivesses apenas 30 segundos para convencer alguém a comprar bilhete para o Amigável, o que lhe dirias?
Diria que faço stand-up comedy há vinte anos e continua a ser a coisa que mais prazer me dá fazer. Acho que isso passa para o palco e que as pessoas conseguem senti-lo quando me vão ver ao vivo.
Mas, se alguém ainda estiver na dúvida se vale a pena a pena comprar bilhete para o meu espetáculo, vão ao youtube, eu tenho lá dois espetáculos completos. O primeiro chama-se Pessoa e é um solo muito centrado no processo de luto da morte do meu pai. E sim, apesar do tema, é um espetáculo de stand-up comedy. O outro é Não Faz Sentido, um espetáculo mais abrangente, com temas muito diferentes.
Portanto, se ainda não conhecerem o meu trabalho e estiverem na dúvida, podem ver esses dois solos no YouTube.
No entanto, acho que o stand-up deve ser visto ao vivo, seja o meu espetáculo, seja o do Dagu ou o de qualquer outro humorista, a experiência numa sala é sempre diferente e muito melhor. Por isso, saiam de casa para ver comédia. Obviamente que fico mais feliz se vierem ao meu espetáculo… mas, se não for o meu, vejam outro. O importante é continuar a apoiar o stand-up ao vivo.



