Janeiro: “Mais vale deixar algo por dizer do que dizer demasiado.”

Janeiro apresenta reticências, um novo álbum que aposta num registo acústico e orgânico para recuperar a proximidade entre a canção, a palavra e o público.

Depois da nomeação de fugacidade aos Grammy Latinos, na categoria de Melhor Álbum Pop em Língua Portuguesa, o novo trabalho assume uma dimensão mais íntima e autobiográfica, centrada em temas como o Amor, a Memória e a Natureza, O disco procura também valorizar a poesia e da canção portuguesa contemporânea, cruzando diferentes gerações através de colaborações com artistas emergentes e consagrados.

Os concertos de apresentação de reticências arrancam a 12 de novembro, no Coliseu Club, em Lisboa, e no Porto, a 3 de dezembro, no Hot Five. Para além disso, o músico realiza as Janeiro Sessions com artistas convidados e conversas com o público. 

Acede à entrevista ao músico Janeiro.

 

Porque é que este disco se chama Reticências? O que fica por dizer? 

Entro em momentos de processo criativo assim que acabo um disco. Houve uma responsabilidade acrescida por causa do “fugacidade” ter sido nomeado para o Grammy Latino, que me fez querer voltar à essência da canção. O Reticências é um momento de maturidade, suspensão, tempo, de ver as coisas de outra perspetiva, de uma forma menos dispersa. O “fugacidade” trazia essa cura com a dispersão, embora ela nunca esteja completamente curada. O nosso mundo cheio de estímulos não nos deixa curar isso. 

Mais vale deixar algo por dizer do que dizer demasiado.

 

Dizes que este é o teu primeiro álbum assumidamente sobre amor. O que mudou em ti para sentires necessidade de escrever um disco sobre este tema?

Nós acabamos por fintar falar de amor, de emoção e da nossa própria vulnerabilidade. À medida que entramos na vida adulta perdemos isso e começamos a ganhar outra maturidade emocional para poder falar dessas coisas. Em 2015 estava a cantar o Desencanto: “Às vezes diz-se tanta merda / embora não saiba viver sem ti”. Há uma certa bipolaridade nisso. Agora estou a assumir-me efetivamente apaixonado e a querer falar disso.

 

E disseste também que este é um disco autobiográfico. Foi difícil transformar experiências amorosas pessoais em canções? 

Não foi difícil mas foi um longo processo. São canções com muitas colaborações, o disco é todo feito de canções com amigos. A minha ideia era voltar à organicidade, à guitarra e ao piano. Numa era em que toda a gente está a colocar estímulos em todo o lado, eu quero voltar à essência, à melodia e à harmonia.

 

Falas de três dimensões fundamentais no disco: Amor, Memória e Natureza. Como é que estes três temas se encontram?

Este disco é sobre deixarmo-nos integrar na natureza e impedirmos a nossa memória de nos trair. Quando os traumas nos acompanham e não os esquecemos, ficamos ligados a uma série de coisas de que não precisamos. É muito sobre deixar ir, conseguir olhar para trás e dizer “estou em paz”… Mesmo que haja coisas que ainda estão mal resolvidas.

Falas da natureza como um lugar de cura. O que precisavas de curar quando escreveste este disco?

Nós somos a Natureza e a Natureza somos nós. E o sistema, o protocolo e toda esta confusão citadina, urbana, cosmopolita, pós-modernista tira-nos da conexão humana. A conexão com a natureza é a conexão humana intrinsecamente. Fui descobrindo isso através de todo o processo após lançar o Fugacidade e começar a querer fazer estas canções.

 

O teu disco é “um convite à reflexão e à contemplação no tempo acelerado em que vivemos”. Fazer um disco assim é uma espécie de resistência?

Completamente! Viver noutro tempo mas dentro da realidade, sem estar alienado dela e acompanhando as notícias, o que se passa pelo mundo, as pessoas. Há muita gente que se confunde. Quando se vive isolado, há um certo hermetismo, não é suposto deixarmos de ver as pessoas e estarmos desligados. Eu não me sinto desconectado. Só me sinto mais conectado com uma raiz qualquer.

 

Porque sentiste necessidade de regressar a um registo mais acústico e orgânico depois de fugacidade ser num regime mais eletrónico? 

Esta mudança acontece pela responsabilidade extrema de dar canções às pessoas, dar esta estrutura de bê-á-bá, de canção simples e altamente melódica, harmónica e bem construída. É isso que eu tento fazer aqui e espero ter conseguido. 

 

Este disco quer promover a poesia e a língua portuguesa, trazendo para o centro da criação musical uma dimensão literária e filosófica. Para ti, onde termina a escrita e começa a canção?

Elas estão muito interligadas, são interdependentes. Eu costumo começar pela canção, as palavras são normalmente random. Depois é que começo a escrever e a perceber o que está a vir com aquela melodia e harmonia.

 

Fugacidade foi nomeado para um Grammy Latino. O que mudou depois dessa nomeação?

O que muda é não haver necessidade de validação externa, por ela já ter vindo do lado internacional. Eu não vou estar mais a pensar: “será que eu devia fazer isto?” Há muitas coisas agora na sociedade que não são causa-consequência. Vejo grandes compositores e músicos que não têm hype absolutamente nenhum. A sociedade contemporânea é rápida e depois vejo influencers com imenso hype, que não estão a entregar nada artístico. O que contém aquela peça de arte acaba por ser muito mais profundo de alguma forma.

 

Dizes que queres recuperar a proximidade da canção com quem a ouve. Porque é que essa proximidade se tornou tão importante?

Sempre foi importante mas tornou-se mais importante ser despida, porque a maturidade trouxe-me a visão de que eu estive durante sete discos a complicar uma coisa que as pessoas só querem ouvir a partir da melodia e harmonia. Eu estive a complicar com arranjos, com a necessidade de vanguarda, de ver à frente. Eu tenho o outro lado de produtor e músico de jazz, então quero sempre fazer um beat e um lick de guitarra melhor, por uma banda a tocar como em UK. Estou sempre um bocado nessa discussão, e agora acalmei um bocadinho e decidi só mostrar a canção.

Nas Janeiro Sessions existe uma dimensão de conversa e intimidade. O que é que essas sessões te ensinaram sobre a relação entre artista e público?

Que um concerto não é feito só pelos músicos e artistas. É feito também pelo público. É muito interessante quando se propõe uma narrativa de trapézio sem rede ao artista convidado porque há um canal de improviso em que tudo pode acontecer. Eu tive pessoas a dizer-me “Vocês ensaiaram isto?”. E nós não ensaiamos absolutamente nada. Tudo o que acontece em palco é diferente. O que é proposto ali é transformado pelo público. E isso é uma experiência descomunalmente divertida. Há uma nutrição do público e do artista. Quando há essa reciprocidade, há uma felicidade intrínseca explosiva. 

 

Falas da vontade de juntar artistas emergentes e artistas consagrados. O que procuras numa colaboração: complementaridade ou contraste?

Complementariedade. Mostrar ao público que somos todos artistas. Há diferenças de género, mas não quer dizer que um seja superior ou inferior ao outro. Eu acredito que devemos todos ter oportunidades iguais, equidade. Se eu conseguir lutar para que essa realidade seja verdade na indústria musical portuguesa, isso é fantástico. Há uma união e comunhão pela música, e não uma competitividade.

 

Como surgiu a oportunidade de colaboração com Tatanka, Ana Mariano, Pedro do Vale, Raquel Martins, bibi, IRMA, Valter Lobo e Meta neste disco?

De forma muito orgânica. Esta malta é toda minha amiga. À medida que as canções iam surgindo, eu ia compilando o disco. E outras, eu pensei: “aqui fazia sentido entrar esta pessoa”. Eu já queria que o disco fosse de colaboração, porque a canção puxa a colaboração, assim como as Janeiro Sessions puxam o artista convidado a improvisar comigo. Este disco puxa a colaboração com amigos e um copo de vinho à volta de uma fogueira. 

 

Este disco pretende reforçar a canção de autor em Portugal. Achas que esta está a perder espaço? Como vês o panorama nacional? 

Eu olho para o panorama nacional com uma esperança e luz muito grande. Vejo que temos cada vez mais fonogramas e mix cultural a sair daqui, o que é incrível. Acho que a canção está a perder espaço e temos que a manter viva, por isso é que existe o cantautor. As pessoas viciaram-se muito em associar uma determinada coisa a uma música, e isso faz-lhes sentido mas acaba por não ser a música, mas sim o videoclipe. E eu estou mais focado na canção em essência. 

 

O que vem depois das reticências? 

Vem a tour do álbum. Em Lisboa, 18 de novembro no Coliseu Club. No Porto, dia 3 de dezembro, no Hot Fire. Entretanto, vamos anunciar mais datas. E a seguir, quem sabe mais um ou dois discos… Estou a fazer a banda sonora da peça O Rinoceronte de Eugène Ionesco no Teatro Experimental de Cascais. O primeiro concerto do Reticências já aconteceu em Macau, a convite do IPOR, e toquei com o Miguel Marôco, que vai fazer comigo a tour.

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