João Ferreira, programador do Festival Queer Lisboa: “O cinema queer põe o dedo na ferida, é um cinema muito atento à realidade, tem um propósito que vai para além do cinema e da arte.”

Amarga Navidad

João Ferreira é o diretor artístico do Queer Lisboa, o festival de cinema mais antigo de Lisboa. Ligado ao evento desde 2000, continua a definir o olhar de um festival que, três décadas depois da sua criação, permanece dedicado a pensar o cinema através das experiências LGBTQI+.

Em 2026, o Queer Lisboa celebra a sua 30.ª edição, que decorre de 18 a 26 de setembro. A programação inclui cinema contemporâneo, retrospetivas e debates, mantendo a aposta numa perspetiva crítica sobre as questões queer.

Acede à entrevista ao diretor artístico do Festival.

 

Esta será a 30.ª edição do Queer Lisboa. Quando olha para trás, qual é a sensação de chegar a esta 30.ª edição?

Não deixa de ser uma sensação de conquista, de orgulho e de termos conseguido impor e afirmar um evento cultural que, quando começámos, há 30 anos, não sabíamos que futuro poderia vir a ter, sobretudo pela questão orçamental, nem que continuidade seria possível assegurar. Por isso, é um alívio chegar aqui.

 

O festival começou num contexto social muito diferente daquele em que vivemos hoje. O que mais mudou no Queer Lisboa ao longo destes 30 anos?

Quando começámos, em 1997, não havia mais nenhum festival de cinema em Lisboa, por isso tínhamos várias responsabilidades. Afirmarmo-nos como um festival de cinema queer teve um lado quase pedagógico, de explicar às pessoas a razão da nossa existência.

Nesses primeiros anos, o festival repassava também a história do cinema e mostrava filmes mais antigos, procurando não apenas a representação de personagens LGBTQI+, mas também uma forma e uma estética queer de fazer cinema. 

Atualmente já não existe tanto essa preocupação, porque a existência do festival está instituída para a maioria das pessoas. O mercado, a indústria e a produção cinematográfica mudaram muito em 30 anos. Na altura, tínhamos dificuldade em chegar aos filmes e em programar cinema queer, porque não havia muita produção. Agora é o contrário: o trabalho de programação é muito mais intenso e passa por escolher os filmes e pensar na relevância de cada um.

 

Porque é que ainda faz sentido falar de cinema queer enquanto categoria específica? 

O cinema queer não se limita a uma questão narrativa, não é meramente um filme que representa personagens LGBTQI+. É esse tal olhar sobre o mundo que faz a diferença no cinema queer. 

É uma conquista importante que estas histórias não sejam contadas por outras pessoas, mas pelas próprias pessoas queer. Isto altera completamente a forma de fazer cinema, de olhar para o cinema e para o mundo. Esse é o aspeto mais determinante do cinema queer.

 

O que é que o cinema queer consegue fazer que o cinema mainstream não consegue?

O cinema mainstream tem uma função diferente, e absolutamente legítima. Não tem a mesma ambição, o mesmo fulgor, a mesma base ou o mesmo impulso criativo que o cinema independente e queer.

O cinema queer põe o dedo na ferida, é um cinema muito atento à realidade e tem um propósito que vai além do cinema e da arte. Nesse sentido, é relevante e distingue-se do cinema comercial.

 

O que procura hoje num filme para decidir se deve fazer parte da programação do Queer Lisboa?

O fator cinematográfico é muito importante: a estética do filme e a proposta artística são relevantes no momento da escolha. Depois, procuramos também perceber a relevância política, social e cultural que um filme pode ter.

Colocamos a questão de saber se este filme vai ao encontro das preocupações e daquilo que os espectadores procuram. Há 30 anos, a questão passava muito por nos vermos representados no ecrã. Agora, isso já está disseminado no cinema, na televisão, na literatura e nos meios de comunicação.

Maspalomas

Como é que se equilibra a qualidade artística com a representatividade na seleção dos filmes para o festival?

São casos que têm de ser vistos um a um. Há temas que são absolutamente incontornáveis, como acontece na secção Resistência Queer, em que, nas duas últimas edições, foi fulcral falar do genocídio em Gaza, da guerra na Ucrânia e da situação no Irão. Há um cinema de emergência que fala desses temas. É importante mostrarmos estes filmes pela história e pela realidade que apresentam e que não é mostrada nos meios de comunicação, onde encontramos notícias formatadas, rápidas e tendenciosas. Mesmo este cinema de emergência tem um tempo e uma atenção que as notícias não permitem, e isso pesa na decisão quando há uma realidade que é urgente mostrar. Um festival de cinema queer tem de ter essa preocupação: estar atento à realidade e assumir a missão de mostrar aos espectadores um outro lado dessa realidade.

 

Há comunidades ou experiências queer que ainda estão sub-representadas no cinema?

Há uma excessiva representação do homem gay branco, porque isso também acontece na vida cá fora. E isso acaba por se refletir no cinema, até pelo acesso ao financiamento e aos meios de produção necessários para fazer um filme. 

Sempre houve subculturas mais marginais e sub-representadas na vida. Há menos filmes sobre essas realidades, mas, felizmente, isso vai sendo contornado. Hoje, há um acesso mais fácil à tecnologia para fazer um filme. É possível fazê-lo com menos meios do que há 20 ou 30 anos. 

E essas vidas e histórias acabam por vir ao de cima. É uma parte muito aliciante do nosso trabalho descobrir essas histórias e trazê-las para o festival.

 

Esta edição comemorativa tem uma secção retrospetiva, “Resgatar Futuros”. O que significa esta ideia de “resgatar futuros” e porque é tão importante recuperar filmes e cineastas do passado?

Quando começámos a pensar na retrospetiva deste ano, descartámos as hipóteses de a dedicar a um cineasta ou ao próprio festival. Decidimos olhar para o período anterior a 1997 e construir uma história que chegasse até ao início do festival. Ao pensar numa enorme lista de filmes, começámos a explorar uma ideia de espelho e de diálogo entre eles. Às vezes, filmes díspares no espaço e no tempo acabavam por tocar nos mesmos conceitos, realidades ou temas, e achámos que seria interessante pô-los em diálogo. Interessou-nos a ideia de perceber como se pensavam a cultura, as vidas queer e o seu futuro nos anos 60, 70, 80 e 90. E daí vem a ideia da utopia e de resgatar futuros. É olhar para o passado e perceber o que havia de futuro nele, o que foi conquistado e o que falhou.

 

O festival decorre no Cinema São Jorge, em Lisboa. Ao mesmo tempo, assistimos ao crescimento das plataformas de streaming, como a Netflix. Qual é a importância de manter um espaço de encontro em torno do cinema numa altura em que tantos filmes estão disponíveis em streaming? 

Sempre tive um enorme ceticismo em relação às plataformas de streaming. A experiência do cinema em sala é outra coisa: é um espaço de ritual e comunitário. É completamente diferente ver um filme num telemóvel ou na solidão do quarto e vê-lo num espaço público, em que estamos a ouvir a respiração e a reação das outras pessoas. Essa coletividade ajuda-nos a ler e a ver outras coisas nos filmes. 

O festival tem esse lado de comunidade, onde as pessoas se juntam para viver uma experiência em conjunto e para se conhecerem. É curioso que, há dez anos, se tenha começado a questionar o futuro dos festivais de cinema e que agora se perceba a importância e o peso que têm. Isto é unânime entre espectadores, distribuidores e produtores.

 

O Queer Lisboa já não é apenas um festival de cinema: engloba também debates, festas e exposições. Como descreve esta evolução do festival?

Mostrar cinema sempre foi a base e a vocação do Queer Lisboa. Em muitos momentos, sentimos que era importante aprofundar os temas de alguns filmes ou aproveitar a presença de determinados realizadores para organizar debates. Fazer exposições, homenagear uma pessoa ou um movimento associativo são complementos à programação. É um lado que nos dá bastante gozo, mas também bastante trabalho. Somos uma equipa pequena e não é fácil programar eventos paralelos, mas essa necessidade foi surgindo ao longo do tempo. 

É colocar o cinema em diálogo com outras artes e perceber que nenhuma arte é estanque em si mesma. O cinema não é só cinema. A relação com a literatura e o teatro existe desde sempre. É mostrar também essas outras formas e expressões da cultura queer.

Prosecution © Lotta Kilian_Jünglinge Film

Em 2015, o festival expandiu-se para o Porto. O que ganhou o Queer ao sair de Lisboa?

Na verdade, a história do Porto é antiga. Quando entrei para o festival, em 2000, já tinha havido projeções de filmes no Porto, no Campo Alegre. Sempre houve um namoro com o Porto desde o início. 

Pelas condições financeiras e pela dimensão reduzida da equipa, foi uma coisa que demorou a acontecer. Acabou por acontecer a convite de Paulo Cunha e Silva, na altura vereador da Cultura da Câmara Municipal do Porto. Tivemos então as condições financeiras e o espaço necessários para começar o festival no Porto.Para mim, foi uma experiência incrível, foi quase começar tudo de novo, porque um festival é sempre uma descoberta de uma cidade e de um público. 

Uma coisa que temos vindo a desenvolver muito nestes últimos anos é levar o cinema para outros sítios. Começámos, no ano passado, na ilha Terceira, com um ciclo de cinema num festival que, de repente, cresceu. É muito bom ver o festival de cinema a acontecer noutros sítios, contrariando a ideia trazida pelo streaming de ver cinema em casa.

 

Qual foi o maior desafio de dirigir o Queer Lisboa ao longo destes anos?

As maiores complicações foram sempre políticas e financeiras. Houve períodos muito complicados, nomeadamente na 8.ª e na 9.ª edições do festival, em que chegámos a perder completamente o financiamento. 

Depois, existem os desafios aliciantes de repensar ciclicamente a programação do festival e perceber o que uma nova geração procura num festival de cinema. Isso é quase uma injeção de juventude que recebo. A programação nunca é estanque, tem de ser repensada todos os anos.

 

Ao longo destes anos, qual foi o momento do festival de que mais se orgulhou?

Um dos meus maiores motivos de orgulho é o facto de, desde 1997, não termos falhado uma única edição. Fossem quais fossem as condições, desde sermos expulsos de salas à última hora a outras dificuldades, conseguimos sempre realizar o festival. 

 

O que gostaria que o Queer Lisboa fosse daqui a 30 anos?

Eu não estarei no festival, com certeza. Nestes quase 30 anos, aprendi que não vale a pena projetar demasiado o futuro. Vale a pena projetar um ou dois anos, porque temos alguma perceção daquilo que poderá acontecer. De resto, é um exercício contraproducente.

Temos de estar aqui, no presente, e trabalhar com esse bocadinho de futuro que conseguimos ver agora. Olhar muito para a frente acaba por estagnar o trabalho.

 

Houve algum filme ou momento do festival que o tenha marcado particularmente?

É sempre difícil destacar um momento. Em 2000, recordo a estreia de O Fantasma, de João Pedro Rodrigues, no antigo Cinema Roma, no Fórum Lisboa, e a enorme curiosidade do público, com uma sala completamente a abarrotar para ver o filme. Esse foi o meu primeiro contacto com o festival.

Além dos filmes, destacaria momentos muito especiais com as pessoas que vêm visitar o festival e todo esse lado humano e empático que ele tem.

 

Depois de tantos anos a programar cinema queer, o que ainda o surpreende? 

No festival, ainda sou muito surpreendido pelo público, pela reação das pessoas e pelo entusiasmo. O momento em que chega mais uma edição e percebemos que as pessoas estão à espera dela surpreende-me, porque mostra como continua a ser relevante fazer este festival. Essa energia que vem de fora é muito boa para a equipa.

E o cinema continua a surpreender. Mesmo nas histórias de coming of age, que parecem já estar muito batidas, surge um olhar ou uma abordagem diferente que as torna novamente relevantes. A mesma história pode ser contada de tantas formas, e isso continua a surpreender-me.

Hélène trésore transnationale © Godot Production
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