Jorge Corrula entre a verdade e a censura em “A Noite”

No contexto das comemorações do 25 de Abril, “A Noite” regressa ao palco a partir do texto original de José Saramago. A peça revisita a madrugada de 24 para 25 de abril de 1974, acompanhando a tensão vivida na redação de um jornal num momento em que o país se encontrava à beira da mudança, entre a verdade dos acontecimentos e as pressões do regime.

Nesta adaptação, Jorge Corrula interpreta Jerónimo, um linotipista que representa o operariado dos bastidores da informação. Com uma carreira sólida no teatro e na televisão, o ator traz à personagem uma forte dimensão humana, marcada pelo compromisso com a verdade acima de interesses políticos.

Através desta personagem, a peça levanta questões intemporais sobre verdade, ética jornalística e o poder dos media, revelando-se particularmente atual numa era marcada pela desinformação e pelas chamadas “fake news”.

 

És o Jerónimo na peça “A Noite”. O que nos podes contar sobre esta personagem?

Este texto é uma adaptação. O Jerónimo, que é o linotipista e chefe da tipografia, resulta da fusão de três personagens do original. Alguns personagens foram suprimidos por questões de viabilidade de produção teatral. Assim, o Jerónimo acaba por representar toda a tipografia, que originalmente era composta por várias figuras.

Ele simboliza o operariado que trabalha nos bastidores, neste caso, na cave do jornal, responsável pela impressão. Ao longo da noite, que decorre de 24 para 25 de abril de 1974, surge a dúvida sobre o que publicar: uma notícia pró-golpe militar ou pró-regime. O Jerónimo toma o partido do jornal e da verdade. Inicialmente, afirma que não lhe interessa se o golpe é de esquerda ou de direita, o que lhe importa é relatar o que está realmente a acontecer. Mais tarde, percebe-se que tem informações de que o golpe levará à queda do regime, mas o seu compromisso principal é sempre com a verdade.

 

Achas que ainda existem “Jerónimos” hoje em dia? Isto é, pessoas com esse poder invisível nos bastidores da informação?

Quero acreditar que sim. Seja de forma visível ou mais discreta, acredito que existem jornalistas e outros profissionais dos media conscientes da responsabilidade que têm. Os meios de comunicação são o “quarto poder” e, com isso, vem uma responsabilidade deontológica de contar a verdade, independentemente de pressões económicas ou políticas. Todos temos opiniões, mas o jornalismo deve ser imparcial. Quero acreditar que ainda há muitos “Jerónimos”.

 

A peça aborda temas como censura e manipulação. Consideras que esses temas são ainda mais relevantes hoje, com as fake news e a inteligência artificial?

Sem dúvida. Tocaste num ponto fulcral: as fake news. É um neologismo que José Saramago desconhecia na altura, evidentemente, mas o autor já falava claramente de “notícias falsas”, quem as cria, com que intenções e como circulam. O texto é extremamente atual e até premonitório. Não traz necessariamente algo novo, mas continua muito relevante. É como se tivesse sido escrito hoje.

 

Esta peça mudou a tua forma de ver o papel dos media?

Não mudou, mas reforçou. Reforçou a importância dos media na formação da opinião pública. Hoje em dia, muitas pessoas consomem notícias sem verificar fontes, muitas vezes através de meios pouco fidedignos. Isso torna ainda mais importante a existência de jornalismo sério, baseado na verificação e na ética. Para mim, a peça reforçou a importância da imparcialidade e da liberdade de imprensa.

 

Sendo a peça passada numa noite marcante da história de Portugal, sentiste uma responsabilidade acrescida neste papel?

Sim, senti. Quando me apresentaram a peça, ainda não estava definido qual personagem faria, mas fui eu que escolhi o Jerónimo. Sabia o que ele representava e isso foi determinante. Além disso, há um lado pessoal: numa versão anterior, este papel foi interpretado pelo Pedro Lima, e isso também teve peso na minha decisão.

Durante os ensaios, sugeri que a personagem tivesse pronúncia alentejana, algo que está ligado à minha própria história familiar. Houve uma grande migração de alentejanos para zonas industriais após o 25 de Abril, e isso aproximou-me ainda mais da personagem. Isso deu-lhe um significado ainda mais especial e aumentou o sentido de responsabilidade.

 

Que mensagem gostarias que o público levasse desta peça? E por que razão devem vê-la?

Não é por acaso que a peça é reposta na altura do 25 de Abril. Representá-la na noite de 24 para 25 é altamente simbólico, porque a história decorre exatamente nesse momento. É muito marcante para nós, atores, e também para o público.
A mensagem principal é a importância da liberdade. Muitas vezes diz-se que “o 25 de Abril é todos os dias”, mas isso não pode ser banalizado. Infelizmente, há dias em que não há liberdade, nem de imprensa, nem individual. Por isso, é essencial lembrar o 25 de Abril e o que ele representa.

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