Lídia Franco é uma das protagonistas de Imitação dos Pássaros, a nova criação de Tiago Torres da Silva, que estreia a 30 de setembro no Teatro Variedades. A atriz partilha o palco com Baltasar Marçal e Tiago Fernandes numa peça centrada nas relações familiares, na incomunicabilidade e nos conflitos entre diferentes gerações. O espetáculo estará em cena até 25 de outubro.
A história acompanha Filipe, um jovem que alimenta sonhos que considera difíceis de concretizar. A avó aceita-os com naturalidade e compreensão, enquanto o pai os interpreta como sinais de fragilidade e como um afastamento do percurso que considera adequado.
A paixão de Filipe pelo teatro, em particular pela personagem Nina, de A Gaivota, de Anton Tchekhov, acaba por desencadear tensões familiares que permaneciam escondidas. A partir daí, a aparente normalidade da família começa a revelar um conjunto de ressentimentos, silêncios e afetos por expressar.
A peça acompanha as diferentes formas de solidão vividas pelos membros da família: os mais velhos confrontam-se com o sentimento de abandono, os mais novos procuram ser ouvidos e os adultos lidam com as exigências do quotidiano e com o receio do julgamento exterior.
Os espetáculos têm lugar de quarta a sábado às 21h e aos domingos às 16h, com duração de uma hora e vinte minutos. Os bilhetes podem ser adquiridos aqui.
Acede à entrevista à atriz Lídia Franco.
Enquanto atriz, qual foi o maior desafio de interpretar uma personagem numa peça inspirada em A Gaivota, de Tchekhov?
A trama da peça, com as angústias e as questões do Filipe, que é o meu neto na peça, têm essa raiz no espantoso texto de Tchekhov. Mas uma nova personagem é sempre um desafio e talvez o maior neste espectáculo seja passar por tantas situações limite e nunca deixar de ser aquela avó com aquela história e aprendizagem. Quando as situações são muito extremas, podem facilmente sobrepor-se às personagens e não deixar que isso aconteça é um desafio gigantesco. A memória ainda está boa mas a idade já começa a pesar para decorar tanto texto.
Como descreve a relação de trabalho com os colegas de elenco Baltasar Marçal e Tiago Fernandes?
Sempre fui uma atriz que gosta muito de aprender. Fiz e continuo a fazer workshops que me possam dar mais ferramentas como atriz. Por isso, contracenar com atores tão jovens é sempre uma oportunidade de aprender outras coisas, de entender outros olhares. O segredo para não envelhecer é manter a curiosidade bem viva. Estar no meio de jovens talentosos faz-me sentir que estou viva e bem viva!
Como foi trabalhar com Tiago Torres da Silva enquanto autor e encenador deste espetáculo?
Eu andei com o Tiago ao colo. As nossas famílias eram próximas. Já não é a primeira vez que ele me convida para fazermos teatro e diria que a confiança que ele deposita em mim é “um lugar muito aconchegante”, uma expressão que digo em “Imitação dos pássaros”. Seria injusto não dizer que o tenho visto evoluir bastante enquanto encenador. Delicio-me a vê-lo dirigir os outros atores.
O que mais a surpreendeu e marcou durante os ensaios desta peça?
A capacidade que ela tem de nos comover todos os dias. Mesmo depois de muitos ensaios, mesmo quando estamos muito cansados. A humanidade da peça toca-nos a todos muito profundamente e tenho a certeza que vai tocar todos os que vierem assistir.
A peça aborda temas como a solidão, o conflito entre gerações, a velocidade do mundo contemporâneo e o papel da arte. Que tema da peça considera particularmente urgente na sociedade atual? Porquê?
Que o julgamento é mau conselheiro. Que temos de olhar uns para os outros mais e com mais carinho. Que andamos todos a correr de um lado para o outro para ter sucesso, dinheiro, glória e nos esquecemos de olhar para quem está ao nosso lado. No fundo, e correndo o risco de ser banal, o importante na vida – e nesta peça também – é que o Amor é que salva.
O que gostaria que o público levasse consigo depois de assistir a Imitação dos Pássaros?
Gostaria que, depois de nos verem sentissem a urgência de olhar para o outro, seja esse outro o marido, a mulher, o pai, a mãe, um amigo ou apenas uma pessoa com que nos cruzamos na rua; que chegassem a casa e se abraçassem mais, se aceitassem mais e seguramente que julgassem menos.
Depois de tantos anos de carreira, o que continua a procurar numa personagem para sentir que vale a pena levá-la a palco?
Não sinto esse peso dos “tantos anos de carreira”. Cada personagem é uma página em branco. Olho para ela com a mesma curiosidade de quando me estreei. Mas, num mundo tão estranho como aquele em que vivemos, gosto de dar vida a personagens que convoquem a humanidade das pessoas. Foi assim com “Óscar e a senhora cor-de-rosa” que faço há muitos anos e é o meu “mais que tudo”. Mas também é assim com esta avó tão contraditória: sofrida, alegre, pragmática, louca e, acima de tudo, esplendorosamente amorosa.