Durante décadas, várias mulheres conseguiram “superar todas as dificuldades impostas pelo meio cinematográfico” e fizeram filmes, estando agora identificadas no livro “Pioneiras do Cinema Português”, editado pela Cinemateca Portuguesa.
A edição do livro, com quase 500 páginas, sucede a um ciclo de cinema que a Cinemateca Portuguesa organizou e acolheu, em maio, em Lisboa, para recordar – e na maioria dos casos dar a conhecer – as mulheres que fizeram cinema em Portugal desde o cinema mudo até meados dos anos 1960.
São “mulheres que sempre lá estiveram, mas às quais se deu pouca (ou nenhuma) atenção”, que fizeram cinema antes de este ser entendido “como área de formação ou especialidade de ensino (pelo menos em Portugal)”, escreveu o programador Ricardo Vieira Lisboa, na introdução ao livro.
Tal como o ciclo de cinema, o livro apresenta mais de uma dezena de mulheres, como Virgínia de Castro e Almeida, Isaura Pavia de Magalhães Lisboa, Bárbara Virgínia, Regina Fróis, Margot Dias, Raquel Soeiro de Brito e Maria Luísa Bivar, que trabalharam em cinema, em várias funções e que deixaram filmes de ficção, documentais, etnográficos, científicos ou de divulgação turística.
Ricardo Vieira Lisboa fala de um paradoxo: ao mesmo tempo que o livro pretende celebrar as mulheres que fizeram filmes naquele período, coincidente sobretudo com os anos da ditadura do Estado Novo, também assinala a excecionalidade da vida delas, dada a dificuldade de acesso à prática da realização.
“Houve mulheres que conseguiram furar essa barreira e, de uma maneira ou de outra, fizeram cinema. Que a denúncia das desigualdades não apague as mulheres que, de facto, conseguiram superar todas as dificuldades impostas pelo meio cinematográfico”, sublinhou Ricardo Vieira Lisboa.
“Pioneiras do Cinema Português” inclui trabalho de arquivo, com ensaios e entrevistas feitas a realizadoras, testemunhos de familiares e cineastas contemporâneos sobre estas pioneiras, e ainda ensaios inéditos de investigadores, programadores e estudiosos.
A Cinemateca Portuguesa chama a atenção para o trabalho de digitalização e restauro não só de cópias fílmicas como de arquivos documentais relacionados com as obras e as autoras, o que permitiu programar o ciclo de cinema e a produção do livro, e estende o convite “à descoberta e à investigação, numa área em que as dúvidas são ainda muitas”.
“Pioneiras do Cinema Português” vai ser apresentado na segunda-feira, ao final da tarde, na livraria Linha de Sombra, na Cinemateca Portuguesa, em Lisboa, com o programador Ricardo Vieira Lisboa, a realizadora Raquel Freire e a investigadora Hilary Owen.