Com uma carreira que atravessa quatro décadas, Luís Louro é um nome incontornável da banda desenhada em Portugal. Autor de álbuns marcantes, criador de personagens emblemáticas e responsável por um estilo inconfundível, o seu nome ocupa hoje um lugar de destaque no panorama artístico nacional – tanto que, na Wook, tem direito a uma categoria própria, e entre leitores e colecionadores, já se fala num verdadeiro “Louro Verso”.
Foi o primeiro autor de BD a receber a Medalha Municipal de Mérito Cultural de Lisboa, viu as suas personagens celebradas em selos dos CTT, soma quatro troféus de carreira e continua a cativar leitores de várias gerações com o mesmo entusiasmo com que começou. Ainda recentemente, no dia do seu aniversário, passou a tarde a dar autógrafos na Feira do Livro de Lisboa – um gesto de proximidade que demonstra a relação que mantém com o público.
Durante a conversa, o traço não parava – desenhava enquanto falava de uma paixão que nunca abrandou: a banda desenhada.
Começou em fanzines com histórias curtas antes de criar o herói Jim del Monaco. Como foram aqueles primeiros anos e que autores ou bandas-desenhadas o inspiravam nessa altura?
Comecei por publicar algumas histórias curtas em revistas e fanzines. Na altura, ainda não tínhamos capacidade, nem em termos de experiência, nem de fôlego criativo, para desenvolver uma história longa. O próprio Jim del Monaco começou como uma coletânea de episódios curtos, precisamente por isso. Fazer uma narrativa mais extensa exige uma bagagem que, na época, ainda estávamos a construir. Por isso mesmo, recomendo sempre a quem está a começar que comece com histórias curtas.
As minhas principais referências vinham da banda desenhada franco-belga. Lia muito Tintim, por exemplo, e mais tarde descobri a linha clara, que também me marcou. Tinha também muita influência de autores espanhóis e das revistas que eu comprava e seguia religiosamente, como a Simoké e a Zona 84. Gostava imenso do que se fazia em Espanha nos anos 80 e 90, e foi uma grande fonte de inspiração.
Curiosamente, deixei de ler banda desenhada durante algum tempo (risos). Estou agora a tentar voltar. Muita gente acha estranho, mas passo tantas horas a fazer BD que, quando tenho tempo livre, procuro fazer outras coisas e desligar um pouco.
Em 1985 publicou “Estupiditia II” na revista Mundo de Aventuras e logo depois lançou Jim del Monaco. Qual foi a sensação de ver o seu trabalho na imprensa e de dar vida ao seu primeiro grande personagem?
Foi fantástico. Este ano estou a celebrar 40 anos de carreira, e acabei de lançar o meu mais recente álbum: Os Filhos de Baba Yaga. A alegria que senti ao tê-lo nas mãos foi exatamente a mesma que senti há 40 anos quando vi pela primeira vez um trabalho meu publicado numa revista ou quando lancei o meu primeiro álbum. Felizmente, continuo a ter a mesma paixão e o mesmo entusiasmo.
Lembro-me de estar histérico a olhar para o livro, a cheirar o papel, a ver as cores com atenção… É realmente uma sensação maravilhosa ver o nosso trabalho em papel, transformado num objeto físico. É muito especial.
Quando inicia uma nova BD, qual é o seu ponto de partida?
No meu caso, o ponto de partida costuma ser aquilo que me apetece desenhar naquele momento. Por exemplo, neste último livro, apetecia-me explorar o tema da Segunda Guerra Mundial, desenhar veículos, paisagens russas… e queria também contar uma história com crianças. A partir daí, comecei a construir uma narrativa que se enquadrasse nesse ambiente.
Uma das grandes vantagens de trabalhar sozinho é precisamente essa liberdade: posso criar histórias dentro do que me apetece desenhar.
Grande parte da sua BD combina humor satírico com crítica social. É algo que surge naturalmente ou já tem essa intenção?
É algo que me surge de forma natural. Mesmo neste último livro – que é, sem dúvida, o mais duro que fiz até agora – a crítica social continua muito presente. É sobre a guerra e 11 crianças órfãs que, de repente, se veem sozinhas no meio do conflito e têm de fazer de tudo para sobreviver.
Neste caso, o humor aparece apenas pontualmente. Foi até um desafio para mim conter a vertente humorística, porque é algo que me sai espontaneamente. Foi um caminho novo que decidi explorar, e isso exigiu mais trabalho da minha parte para conseguir fazer algo diferente do habitual.
O que o fascina nesta mistura de entretenimento e comentário cultural?
Acho que o humor é um sinal de inteligência. Poder brincar com situações e com as palavras é uma forma de olhar o mundo com inteligência. E se conseguir arrancar um sorriso a quem lê, melhor ainda. No meu dia a dia também sou assim, estou sempre a brincar. Faz parte de mim.
É responsável pelo argumento, desenho e cor de todas as suas obras. Considera que esse controlo criativo total é o que lhe confere um estilo tão pessoal e inconfundível?
Em Portugal, nunca houve muito tradição de se trabalhar a cor sobre o desenho de outra pessoa. Além disso, dar cor é uma das partes que mais prazer me dá quando faço banda desenhada e jamais entregaria essa responsabilidade a outra pessoa. Quando estou a desenhar, já estou a imaginar as cores que vou aplicar. Às vezes, isso até influencia o próprio desenho, porque sei que há elementos que vou fazer apenas com a cor.
O livro é um trabalho muito pessoal, muito meu, e gosto de fazer tudo: argumento, desenho, cor, design, grafismo… gosto mesmo de estar no centro das operações(risos).
E claro, acho que é sempre bom quando um artista chega a um ponto em que o seu traço é reconhecível. Quando isso acontece, não posso pedir muito mais (risos).
Como vê hoje o mercado da BD em Portugal e as oportunidades para autores emergentes?
Comparado com os anos 80 e 90, o mercado atual é bastante mais fraco. Naquela altura, as tiragens chegavam a vários milhares de exemplares, o que hoje já não acontece. Por outro lado, a oferta aumentou imenso, há hoje muito mais publicações do que havia na altura. Isso faz com que o leitor tenha de dispersar a sua atenção e não consiga acompanhar tudo, o que é algo que me preocupa.
Há um excesso de edições anuais. São centenas de lançamentos num país com a nossa dimensão, e isso assusta-me um bocadinho. Fico a pensar como é que as editoras vão conseguir resistir e sustentar este ritmo de mercado.
Quanto aos jovens autores, penso que hoje têm mais facilidades do que tínhamos no passado. Há mais editoras, mais espaços para publicar, e as redes sociais tornaram muito mais fácil estabelecer contactos, seja com editoras, seja com outros profissionais do meio. Nesse sentido, a banda desenhada está melhor do que nunca.Agora, resta saber se tudo isto não é um salto para o desconhecido.
A banda-desenhada está a ocupar um papel cada vez maior na cultura portuguesa e no panorama artístico nacional?
Sim, acho que hoje, mais do que nunca, a banda desenhada começa finalmente a ter o reconhecimento que merece – algo que, durante muito tempo, não acontecia. Lembro-me quando dizia que fazia banda desenhada e a reação era: “Ah, isso é coisa de miúdos.”
Ora, eu tenho cerca de 50 álbuns publicados e, tirando talvez Corvinho, nunca fiz nada propriamente dirigido a crianças.
A banda desenhada não é, e nunca foi, apenas para crianças. E é bom ver que as pessoas estão finalmente a perceber isso e a começar a respeitá-la como uma arte. Isso é ótimo.
O Luís tem contribuído para isso. Foi o primeiro autor de BD a receber a Medalha Municipal de Mérito Cultural de Lisboa, e as suas personagens foram celebradas em selos dos CTT. O que significa, para si, este reconhecimento e ver o seu universo criativo eternizado em selos postais?
Tento apenas fazer a minha parte (risos). Foi uma surpresa enorme e uma alegria ainda maior. Fiquei sem palavras, porque nunca imaginei que algo assim pudesse acontecer, muito menos de forma tão seguida. Tem sido uma coisa atrás da outra, e só posso agradecer ao público. É graças a quem me acompanha que tudo isto faz sentido.
Criou a chancela “Folhas de Louro” e participa assiduamente em festivais, escolas e media. Acredita que estas iniciativas tiveram impacto na profissionalização e visibilidade da BD em Portugal?
Sim, bastante. Especialmente agora, com o Corvinho, tenho visitado algumas escolas infantis e é muito giro ver a reação dos miúdos às histórias. As perguntas que fazem, o entusiasmo… alguns até já conheciam o corvo! Dá-me um gozo tremendo ver que os miúdos se interessam e têm prazer na leitura. Isso, para mim, é impagável.
Criar o hábito da leitura e o gosto por ler é fundamental, sobretudo numa geração que parece cada vez menos interessada em ler. Temos mesmo de lutar contra isso e mostrar que ler pode ser divertido.
Claro que, se dermos Saramago a uma criança, é evidente que ela não vai achar graça nenhuma. O mais provável é o efeito contrário: criar aversão. Por isso, é essencial cativar os mais novos com temas que lhes sejam próximos e despertam curiosidade. Temos de saber o que gostam e usar isso como ponto de partida.
Acha que a banda desenhada deveria ter um lugar mais firme no Plano Nacional de Leitura?
Claro que sim. Aliás, alguns dos meus livros já foram incluídos no Plano Nacional de Leitura, e acho que isso é essencial – não só por abrir mais portas, mas porque a banda desenhada faz, de facto, parte dos hábitos de leitura. Não é só a literatura que conta.
É importante que as pessoas comecem a perceber isso. A BD contribui para o desenvolvimento cognitivo das crianças, ajuda na interpretação, no raciocínio visual e narrativo… é uma ferramenta excelente nesse sentido.
Se pudesse “trocar de lugar” com uma das suas criações por um dia, qual escolheria e o que faria nesse papel?
Ui… (risos) são tantos que é difícil escolher! Mas talvez escolhesse o corvo. Muitos leitores dizem que o corvo sou eu (risos), e se calhar até têm razão. Confesso que, se trocasse com ele, provavelmente não faria melhor do que ele faz!




