Marco Medeiros: “Nós deixámos de olhar para o outro, estamos muito centrados em nós” 

Aos 41 anos, Marco Medeiros construiu um percurso que começou na representação, mas encontrou na encenação a sua principal área de afirmação. Depois de se estrear como ator em produções televisivas como Inspetor Max, Dei-te Quase Tudo e Floribella, formou-se na Escola Profissional de Teatro de Cascais e fundou, em 2010, a companhia de teatro PALCO13. 

Paralelamente ao trabalho em palco, desempenhou funções como diretor de atores na SP Televisão, Plural e Valentim de Carvalho, acompanhando produções como Mar Salgado, Coração d’Ouro, Amor Maior, Valor da Vida, Prisioneira, a série Sim, Chef e o reboot de Morangos com Açúcar. 

Além da encenação, também desenvolve trabalho na área das dobragens, editou um álbum de originais com o seu nome e continua a dar aulas e workshops de teatro regularmente. 

No teatro, tem assinado a encenação de produções como Alice no País das Maravilhas, O Diário de Anne Frank e Telhados de Vidro, apresentadas no Teatro da Trindade. Mais recentemente, esgotou uma semana de apresentações de Hamlet? no Auditório Fernando Lopes Graça. O próximo projeto passa pela estreia de La Nonna, com Maria Rueff, prevista para fevereiro do próximo ano, no Teatro da Trindade.  

 

Tens quase 20 anos de experiência como encenador de teatro. O que é que mais te seduz num texto para quereres encená-lo?  

É sempre difícil, porque há textos que não me seduzem à partida e, numa primeira leitura, não fico muito atraído. E depois há textos que me surpreendem na criação, que passam a tornar-se os meus preferidos. Eu tenho alguma dificuldade em escolher textos porque estamos a atravessar uma fase em que queremos falar de tanta coisa da nossa atualidade, que sinto que há poucos textos que correspondem a essa minha necessidade. Então, tenho recorrido muito à escrita, às ideias coletivas que vão surgindo e aos temas que pertencem à nossa sociedade, não ir buscar a sociedade de outros para falar da nossa. Ou às vezes recorrer a clássicos, como foi o caso deste espetáculo que fiz, porque os temas estão sempre atualizados e pertinentes. Eu gosto muito de ser surpreendido com textos que me apresentam, como foi o caso do “Telhado de Vidro”. Na primeira leitura, pensei, “isto não tem nada a ver comigo” e, de repente, fiquei completamente rendido àquele texto, é inacreditável.  

 

Começaste como ator e só depois é que te tornaste encenador. O que mudou na forma como olhas para um texto desde que passaste a estar do outro lado da criação? 

Mudou tudo. A minha leitura como ator era uma leitura egoísta, centrada na minha performance daquele texto. Acho que tinha uma ideia muito utópica do que é ser ator, muito centrada em mim. A carreira de ator é muito competitiva, porque temos sempre ao nosso lado outros a competirem connosco, nessa corrida de chegar à meta. O meu objetivo como ator era chegar primeiro que todos e isso não nos leva a lado nenhum. Como encenador, a corrida nunca é direta, eu não compito com ninguém, porque cada um tem a sua ideia e são textos sempre diferentes. Mesmo que faça um texto igual, houve uma diferença temporal que nos afastou nessa competição. E sinto-me numa caminhada muito mais saudável sem estas rivalidades. Eu passei a centrar-me no objetivo principal, que é a ideia, a mensagem.  

 

Tens um percurso ligado à música, tocas vários instrumentos, chegaste a lançar originais. Sentes que o teu percurso na música influencia de alguma forma o teu trabalho como encenador, a maneira como tu diriges os atores? 

Sim, eu sempre fui muito musical. A minha primeira grande paixão foi a música, também é mais fácil de pôr em prática. A minha escola era afastada da minha casa, eu era filho único e nunca tive grandes relações de amizade, portanto, a entreter-me sozinho agarrei-me aos instrumentos: ao piano, à guitarra, à percussão, ao cavaquinho… Nos meus presentes de Natal ou de aniversário, eu pedia sempre instrumentos para começar a tocar. Sinto que há sempre uma musicalidade na minha vida. Nos meus espetáculos, eu tenho tentado reduzir a quantidade de música que utilizo. Há espetáculos que eu utilizo pouca música, a musicalidade vem dos atores. Mas por ser uma componente tão forte na minha vida, estar sempre acompanhado por linhas musicais, eu acho que tenho essa solução nos meus espetáculos. Ter sempre uma cama que me ajude para a compreensão da cena ou que a dificulte. Eu gosto de brincar com a música, como brinco com os textos.  

 

Encenaste o espetáculo “Hamlet?” no Auditório Fernando Lopes Graça. É um dos textos mais emblemáticos de Shakespeare, mas decidiste fugir à abordagem clássica e colocaste Hamlet dentro de uma rodagem de cinema. Porquê esta escolha de fugir da abordagem clássica e o que é que a obra ganhou com esta mudança?  

Nomes como Shakespeare têm de continuar a ser lidos, não só pelos temas que abordam. Com estes séculos todos que passaram, claro que os temas se vão alterando e, às vezes, temos esta necessidade de adaptá-los à nossa sociedade e dizemos sempre que este teatro continua a ser tão pertinente. É pertinente mas já não é, porque já não temos nenhum rei, já não há traição ou amores de corte…. Há bons privilégios, mas não como ele os descreve. Os temas vão-se alterando e adaptando às nossas realidades. Mas de facto, há um tema universal que somos nós, é o ser humano, que é intemporal. Ele descreve muito bem aquilo que nós sentimos e somos incapazes de dizer, e a nossa paz emocional e psicológica. Agora, a linha narrativa, já não me interessa assim tanto. Portanto, eu acho que para utilizá-lo, eu tenho de adaptá-lo à realidade que vivo, onde existem muitas condicionantes e fragilidades. Por isso é que mexi tanto no texto de Shakespeare desta vez. Não é torná-lo acessível, porque não é. Ele é urgente. E nessa urgência, eu trabalho para que ele chegue à sociedade.  

A tua próxima peça, La Nonna, vai estar no Trindade a partir de Fevereiro e será protagonizada por Maria Rueff. O que pode o público esperar para quem está habituado a vê-la fazer papéis cómicos? 

O público está habituado a ver a Maria Rueff num registo de comédia. Embora eu ache que a forma da Rueff encarar a comédia é muito séria. Na nossa maior tragédia, encontramos a nossa melhor comédia. E acho muito inteligente a forma dela abordar os personagens. Eu nunca abordo uma comédia por ter graça ou por querer provocar o riso. A graça surge se tiver de surgir. Eu acho que a comédia é como se essa tragédia perdesse a sua gravidade no tempo e conseguimos rir-nos desse drama tempos depois. E no teatro aquilo condensa-se. Então temos de nos rir desta tragédia no imediato, isso às vezes pode ser um bocado forçado. Eu não gosto de forçar o público ao riso, portanto, a minha abordagem é sempre procurar o que é que o autor quis dizer e qual é o drama das pessoas. Se isso provocar o riso, ótimo. Mas eu acho que estes dois géneros estão muito ligados. São situações tão caricatas com as quais nós nos identificamos tanto que nos conduz ao riso, mas não de uma forma forçada pelo ator. De uma forma muito subtil de encarar aquele momento que provocou a comédia. E é isso que eu espero encontrar na La Nonna. Trata uma uma família no seu maior drama que tenta sobreviver. E a sobrevivência leva-nos às posições mais frágeis. Se isso tem graça é subjetivo para cada um.  

 

O espetáculo La Nonna fala de temas como a loucura e a corrupção, que são fraturantes e estão relacionados com o presente. O que esperas que o público leve consigo depois de ver este espetáculo?  

O olhar para o outro. Acho que nós estamos um bocado perdidos. As pessoas caminham a olhar para uma tela, olham para a sociedade que as rodeia a partir de uma rede social. E nós deixámos de olhar para o outro, estamos muito centrados em nós. A La Nonna é exatamente isso, é uma mulher centrada nela própria sem ter piedade ou compaixão com o outro. Isso vai ter um final não muito bom, como é óbvio. Isso provocará a decadência do outro, porque não nos apoiamos. E por isso, espero que o público leve esse olhar para o lado. Já não digo calçar os sapatos dos outros, mas, pelo menos, olhar para o lado. Podermos sensibilizar-nos com a realidade do outro que pode ser muito pior do que a nossa. Não entrando num termo de comparação. “Ele está muito pior. Tem é de agradecer e não estar assim.” Não faz sentido. Não tem competição nenhuma. É só termos esse respeito pela realidade do outro.  

 

Foste diretor de atores do filme “Playback” sobre Carlos Paião. Como foi trabalhar com os atores na construção de personagens baseadas em pessoas reais? Houve desafios em encontrar o equilíbrio entre a autenticidade e a liberdade artística? 

Esses trabalhos são sempre muito ingratos e difíceis, porque os atores tentam sempre, numa primeira abordagem, aproximar-se daquilo que foi aquela pessoa, e depois percebemos que é muito difícil. É exigente esse trabalho, mas não é a exigência que me assusta. É a incapacidade de nos pormos no corpo do outro. A forma como abordamos a cena é sempre a partir de uma mentalidade que já não existe, e depois é sempre uma opinião nossa, muito subjetiva. Eu tento sempre afastar-me daquilo que aquela pessoa foi. Temos uma ideia, por vezes, que nem é próxima. Neste caso, tivemos a mulher e alguns familiares do Paião a ajudar-nos, mas é a nossa visão do Paião, não é a visão dele. Portanto, há sempre aqui uma liberdade criativa que eu gosto que os atores tenham de abordar como é que acham que seria o Paião. A minha ideia, a partir desta obra, é uma forma também de homenagear, e às vezes, conseguimos torná-la maior. Não houve grandes dificuldades ou impedimentos. O maior impedimento foi um homem que morreu cedo demais. 

 

Continuas a dar aulas e workshops de teatro a atores maioritariamente mais jovens. Qual é a tua perspetiva sobre a nova geração de atores em Portugal?  

Eu tenho muita esperança nesta nova geração e isso é a coisa que mais me estimula a continuar a dar aulas, porque me mantenho atualizado. E aprendo nas aulas, com esta nova geração de atores. Consigo receber um pouco da forma como eles vêem o mundo, que para mim é um novo mundo. São uma quantidade de temas que eu nunca tinha aprofundado, e com eles sou obrigado a respeitar e a perceber. E de repente aquilo para mim deixa de ser um tabu e passa a ser a nova realidade. Durante 40 anos eu não lidei com esta realidade. É uma fase de transição. E nas aulas, essa fase é muito mais imediata. O que eu mais me identifico com esta geração é a forma de interpretar sem o objetivo da perfeição. A minha geração cresceu com o objetivo de encontrar um ser perfeito, de uma utopia que eu nunca presenciei. Eu não me identificava com isto. E esta geração está mais preparada para retratar a sociedade tal como ela é, dentro do que tem de menos bom, do feio, do grotesco. A sua ideia de representar a sociedade é mais crua e eu identifico-me muito com isso. 

 

Depois de teres feito estes últimos projetos, Hamlet e Playback, há algum sonho artístico que tenhas para o futuro?  

O que eu gostava mesmo de conseguir era conquistar uma estabilidade cultural para as próximas gerações, para a cultura neste país. Eu acho que existe uma política cultural de desenrasque, a curto prazo. Uma política cultural para nos calarem, não fazermos muito barulho e não nos queixarmos. E a política cultural deve ser a médio e longo prazo. Não é para esta geração que vem, é para os meus filhos e netos. Para a mentalidade da sociedade, ter uma educação cultural e emocional, pensar para além daquilo que é o óbvio, que vamos encontrar na nossa vida. A arte traz-nos outras formas de pensar, alternativas que nos ajudam a encontrar soluções, a não sofrer tanto com aquilo que nos apresentam, porque sabemos que aquilo não corresponde bem à realidade, é apenas a opinião daquela pessoa. A cultura traz-nos oferta no nosso dia-a-dia, coisas que nos obriguem a sair de casa e conhecer o mundo. Eu gostava de contribuir para Portugal ser um país com uma política cultural de longo prazo e não de desenrasque. 

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