“Para Onde Vão As Coisas Perdidas” é o EP de estreia de Maria Leitão e marca um passo decisivo na afirmação da jovem cantora e compositora como uma voz promissora da nova geração da música portuguesa.
Com produção de Marcelo Camelo, músico e produtor brasileiro distinguido com um Grammy Latino, o disco nasce de uma evolução artística assumida e de um processo de composição inteiramente desenvolvido ao piano.
Nesta conversa, Maria Leitão fala sobre as inspirações por detrás do EP, o processo criativo e os desafios de quem está a começar a construir um percurso na música.
O título do EP, “Para Onde Vão As Coisas Perdidas”, sugere uma reflexão sobre memória e ausência. O que representam para ti essas coisas perdidas?
Diria que essas coisas perdidas estão espalhadas pelo disco. Vêm um bocadinho desse lugar da ausência, da falta de respostas sobre várias coisas…Sobre o que queria fazer, o que não queria fazer, sobre ausências amorosas, que é o costume. O próprio título não é uma pergunta nem uma afirmação. Deixei isso ao critério de quem ouve. Quero que cada pessoa explore o disco e decida se ele é uma grande interrogação ou se acaba por ter várias coisas, essas ausências, espalhadas por todas as canções.
Quando percebeste que estas canções faziam parte da mesma história e não eram apenas músicas soltas?
Ao longo dos últimos anos fui compondo várias canções e depois fiz uma seleção das que mais gostava, tanto ao nível melódico como lírico. Na verdade, o conceito surgiu depois, primeiro fiz as músicas e só mais tarde pensei “o que é que as une?”. E percebi que o que as unia é a passagem do tempo, a ausência e a indefinição. Preciso de saber o que vou fazer e na minha idade, que estou nos 20 e poucos, acho que é a altura da indefinição total e acho que as canções nasceram precisamente para tentar preencher esses vazios.
Sabemos que todas as canções nasceram ao piano. É uma ferramenta de composição ou um espaço emocional?
Diria que é mais um espaço emocional. Claro que também é uma ferramenta, porque componho sempre ao piano, mas é sobretudo um lugar de relaxamento. Quando estou aborrecida ou sem nada para fazer, invés de scrollar, sento-me ao piano. É uma forma de passar o tempo e, muitas vezes, quando dou por mim, já passaram duas horas. Nem sempre vou para lá com a intenção de escrever uma canção. Muitas vezes estou apenas a brincar e é daí que surgem as melhores ideias.
As tuas letras estão cheias de imagens como comboios, cafés, ruas ou janelas. São memórias reais?
Isso é uma boa pergunta, é daquelas que eu nem sei bem responder, porque não acho que sejam memórias. Não, necessariamente. Acho que sou muito esponja daquilo que leio, vejo e ouço. Vou absorvendo referências e depois transformo-as nas minhas canções. Essas imagens não correspondem obrigatoriamente a situações reais da minha vida. São construções feitas a partir de várias influências que acabam por formar o meu universo.
Quando escreves, pensas primeiro na história que queres contar ou na atmosfera que queres criar?
Acho que nunca penso primeiro na história. E isso, por acaso é engraçado, porque eu quando estive em songwriting, nós tivemos que falar do processo de compor uma canção, e para mim o processo não passa por pensar na história antes.
Muitas vezes sento-me ao piano e começo apenas com uma frase. Depois a história vai-se construindo sozinha. A certa altura percebo sobre o que estou a escrever e aí sim começo a orientar o caminho da canção. Mas o início é sempre muito espontâneo, quase ingénuo.
Ao ouvir o EP sentimos que a espera é uma personagem recorrente. O que te fascina nesse espaço entre o que já passou e o que ainda não chegou?
Na verdade, não me fascina. Inquieta-me. Dá-me ansiedade. Mas é precisamente por isso que aparece tantas vezes nas minhas canções. Existe esta espera constante por respostas, por perceber qual é o caminho certo, por entender quem somos e o que queremos fazer. Acho que isso não é só meu, é algo que vejo muito à minha volta. Vivemos numa época em que tudo é mais fluido e menos definido do que era antigamente. Os trabalhos eram mais estáveis e sabíamos o que é que íamos fazer, e agora não, as coisas são mais fluídas, já não tenho que ter só um trabalho, já posso fazer várias coisas, e mais do que também o trabalho, essa indefinição do que é que eu vou fazer. Acho que também há muita indefinição do que é que eu sou, porque, no fundo, se eu estou a fazer canções, é sobre aquilo que eu gosto de fazer, que me transporta depois para o trabalho, mas é aquilo que eu sou, é aquilo que me faz, que me realiza.
Esta espera, acho que é benéfica para pensar sobre ela, para ir à procura de respostas, mas, inquieta-me.
Em “Mais Um Dia” falas também do bloqueio criativo e da expectativa de que algo novo chegue. É uma canção autobiográfica?
Muito. É um espelho do meu dia a dia. É aquela sensação de que quero muito escrever canções, quero muito ser metódica a escrever canções, mas há dias em que simplesmente não consigo. E a música acaba por dizer-me que está tudo bem. Que não preciso de ter respostas imediatas nem de escrever três canções por dia. A espera também faz parte do processo.
A criação exige mais disciplina ou mais paciência?
Acho que exige bastante disciplina. Existe a ideia romântica de que a criação artística é apenas espontaneidade, mas eu não acredito nisso. Se queremos trabalhar na música, temos de criar hábitos e rotinas. É preciso sentarmo-nos ao piano mesmo nos dias em que não nos apetece.
Há alguma canção que consideres o coração emocional do disco?
Diria que é “Caruma”. É a canção que mais se aproxima de quem eu sou. Escrevi-a há alguns anos e continuo a identificar-me profundamente com ela.
Há canções em que olhas para trás e pensas: “esta já fazia diferente”, porque acontece bastante, mesmo que a respeitemos, acho que há coisas com as quais já não nos identificamos tanto, não é? E esta não, está aqui, ainda é intemporal.
Como surgiu o encontro com Marcelo Camelo?
Quando temos as canções escritas, começa a procura pelo produtor certo. E é aquele trabalho de ver que é a pessoa que terá uma sonoridade parecida com a minha ou uma sonoridade que eu não tenho e quero ter, e que vai complementar isso da melhor forma possível.
Eu andava a procurar e tinha um amigo que conhecia o Marcelo e sabia que ele estava cá em Portugal e que já andava a produzir algumas coisas portuguesas, e eu andava a fazer essa research, de ver os arranjos que ele já andava a fazer para discos de outros artistas portugueses e gostei muito dos arranjos. Entretanto, surgiu a oportunidade de nos conhecermos e ele mostrou interesse no projeto. A partir daí tudo aconteceu de forma muito natural.
O que aprendeste durante esse processo (produção)?
Aprendi imenso. Tive a sorte de trabalhar com alguém que admiro muito e procurei absorver tudo o que pude. Observei a forma como constrói os arranjos, como organiza o trabalho em estúdio e como gere o processo criativo. Além de ser um músico extraordinário, é uma pessoa extremamente sensível, o que tornou todo o processo muito leve.
O que esperas que o público leve consigo depois de ouvir o EP?
Espero que as pessoas sintam alguma coisa. Não importa exatamente o quê. Tal como acontece quando visitamos um museu e uma obra nos toca, mesmo sem a compreendermos totalmente. Gostava que estas canções conseguissem provocar isso.
Há algum palco onde sonhes apresentar este projeto?
Há uma sala em particular e esse concerto já está em andamento. Ainda não posso revelar detalhes, mas será um concerto de apresentação do disco em Lisboa. Falta pouco para anunciar.
Este EP fala muito sobre aquilo que se perde, o que gostarias de encontrar daqui para a frente enquanto artista?
Gostava de encontrar mais tempo para escrever e novos lugares para conhecer. Viajar inspira-me muito. Parte deste disco foi composta em Itália e estar em contacto com culturas, pessoas e ambientes diferentes estimula a criatividade, os nossos sentidos, estão muito mais apurados quando nós estamos em zonas de desconforto.
Também gostava de ter mais tempo para parar. Vivemos sempre a correr e sinto falta desse espaço para observar e criar.
No fundo, diria mais tempo e novos lugares, é isso que eu espero, e muitas canções novas, claro!