Mariana Cardoso é uma das jovens atrizes que têm vindo a destacar-se no panorama artístico português. Recentemente, esteve em cena no Teatro São Luiz com “John Gabriel Borkman”, de Henrik Ibsen, uma peça que explora ambição, poder e delírio de grandeza. O espetáculo, que continua a dialogar com questões do presente, será apresentado no Festival de Almada a 27 de março, assinalando o Dia Mundial do Teatro.
Em paralelo, Mariana estreia-se como protagonista no cinema em “Maria Vitória”, a primeira longa-metragem de ficção de Mário Patrocínio. A história acompanha o percurso de uma jovem determinada a libertar-se do peso das heranças familiares e a conquistar o direito de decidir o seu próprio caminho.
Versátil por natureza, Mariana dança, canta, compõe música e, em “John Gabriel Borkman”, fez questão de aprender piano para tocar ao vivo em cena. Foi também através deste percurso plural que descobriu o amor pelo cinema, um território que quer continuar a explorar e onde imagina o seu futuro enquanto atriz.
Recentemente estiveste em cena no São Luiz com “John Gabriel Borkman” e, quase em simultâneo, estreias o teu primeiro filme como protagonista, “Maria Vitória”. Como é que estás a viver este momento?
A vida do ator é mesmo assim. Para mim, é mais comum estar a fazer vários projetos ao mesmo tempo e depois atravessar períodos mais longos em que não sei bem o que vai acontecer a seguir. Já aceitei isso como parte da profissão e, na verdade, até acho entusiasmante.
Em “John Gabriel Borkman” há um solo de piano, que fizeste questão de aprender e de tocar ao vivo. Porque é importante que sejas tu a tocar e não apenas a representar esse momento?
Não sei se vem do facto de ter sido atleta de alta competição ou de ser perfecionista por natureza, mas gosto muito de aprender e tenho uma curiosidade enorme por várias áreas. Talvez por isso tenha escolhido esta profissão: sinto que posso ser um bocadinho de tudo ao mesmo tempo. Também gosto muito de desafios, da dedicação e da disciplina.
O Joaquim não me exigiu nada, disse-me apenas para tocar o que conseguisse, mas eu decidi que ia conseguir. Estive dois meses a treinar todos os dias e tive três aulas de piano para fazer isto acontecer. E consegui (risos).
O Piano conquistou-te?
Sim (risos).Tenho um piano em casa e costumo tocar acordes básicos, sobretudo porque componho música, algo que espero continuar a fazer, tanto para mim como para outros artistas. O piano faz parte do meu dia a dia desde pequena, mas uma coisa são esses acordes simples, outra foi o que toquei nesta peça. Foi um desafio completamente diferente, que acabou por influenciar a forma como penso e escrevo música. Sem dúvida que vou continuar a tocar.
O texto de Henrik Ibsen fala de ambição, poder e de grandeza. Sentiste que estas questões continuam a ecoar de forma muito presente hoje?
Assustou-nos a todos quando lemos o texto e percebemos o quão atual ele é. Lidamos todos os dias com figuras com muita fome de poder, vemos isso nas notícias, no mundo à nossa volta. Foi impressionante perceber como um texto antigo continua a ressoar tanto hoje. Falámos muito sobre isso durante o processo e fizemos imensos paralelismos com a nossa vida atual, como se a ficha estivesse constantemente a cair. Esta nova abordagem foi muito interessante e aprendi imenso com este texto.
Em “Maria Vitória”, a personagem vive numa aldeia isolada e treina obsessivamente. O que mais te interessou nesta personagem?
A Maria Vitória é uma personagem muito liderada pelos outros, que não toma as próprias decisões, e nem é contra a sua vontade. Por não encarar as suas feridas e o seu passado, acaba por reprimir muita coisa e vive quase em modo automático, deixando-se controlar e guiar.
A chegada do irmão vem mexer em tudo o que nunca foi falado, puxando feridas e memórias adormecidas. Não quero dar spoilers (risos), mas acredito muito que ir ao encontro do que foi evitado pode ser doloroso no início e profundamente transformador depois.
Há um momento em que as coisas mudam e ela começa a questionar a autoridade que controla a vida dela…
O filme é exatamente sobre esse processo, sobre essa viagem. O que posso dizer é que essa transformação está no centro da história.
Como jovem atriz, sentes também algum tipo de pressão ou expectativa semelhante?
O desporto e a arte cruzam-se em muitos aspetos. São áreas altamente competitivas, com os olhos postos em nós e uma opinião constante sobre o que fazemos. Crescer e evoluir perante o olhar do público torna tudo mais intenso e desafiante, sobretudo no que diz respeito ao erro. Acima de tudo, sinto pressão de mim para mim.
Já percebi que, além de atriz, és uma artista. Sentes que hoje existe mais espaço para mulheres nas artes?
Ainda há um longo caminho a percorrer, mas fico feliz por ver que existe progresso. Gosto da ideia de que somos todos diferentes e temos algo único para mostrar. Os melhores artistas não são os que têm a melhor técnica ou a maior individualidade isolada, mas os que conseguem partilhar quem são de forma verdadeira. Somos todos especiais, o desafio é largar as barreiras sociais e deixar que o mundo veja quem realmente somos. As mulheres têm muito para dar.
Neste momento da tua carreira, o que é que te interessa mais continuar a explorar enquanto atriz?
Tenho tentado lutar contra a tendência, tanto das pessoas como da própria indústria, de nos colocarem em caixas. Algo que gosto muito em mim é a versatilidade: poder cantar, dançar, fazer teatro, televisão. Descobri recentemente um amor muito forte pelo cinema e hoje esse é o meu grande sonho: fazer cinema por todo o mundo. Quero continuar a trabalhar em Portugal, não quero perder a minha cultura, mas tenho uma enorme curiosidade em conhecer novos lugares, novas pessoas e perceber quem mais posso vir a ser enquanto atriz.