Miguel Partidário: “O 2084 não é mais do que uma extrapolação do mundo que estamos a viver hoje, em que o governo é uma IA, a rede social controla os nossos gostos e interesses, e achamos que somos livres.” 

Depois de uma primeira temporada esgotada em maio, o espetáculo 2084 – O Big Brother está em todo o lado está de volta ao Palácio Quinta do Cedro de 8 a 19 de setembro. 

Encenada por Miguel Partidário, esta é uma peça imersiva inspirada em 1984, de George Orwell, que imagina uma sociedade em que, no ano 2084, o governo é controlado por uma rede social baseada em IA chamada Big Brother.  

Durante o espetáculo, o público percorre diferentes espaços do Palácio da Quinta do Cedro, em Cruz Quebrada, acompanhando várias cenas e construindo a sua própria experiência.  

O elenco do espetáculo é composto por Beatriz Frazão, Bia Wong, Daniel Viana, Gonçalo de Oliveira, Irma, Leonardo Dias, Leonor Alcácer, Miguel Partidário, Sofia Sá e Vanessa Gomes. 

Acede à entrevista ao ator e encenador Miguel Partidário.

 

Como é que nasceu a ideia de criar este espetáculo e o que te levou a revisitar o universo de 1984 do George Orwell?

Primeiro, o que me levou a criar este espetáculo foi estar aborrecido. E tal como acontecia na Grécia Antiga, é do ócio e do aborrecimento que muitas vezes surgem as ideias criativas. 

Sempre tive um fascínio enorme pelo Orwell e pelo 1984. É uma obra incontornável, que foi muito boa a prever coisas assustadoras que estão a acontecer hoje. Pegar no trabalho de Orwell e transformá-lo em 2084, foi um exercício de imaginar o que escreveria se ainda fosse vivo. Como olharia para o mundo que temos hoje, para as previsões que fez e que se tornaram realidade, e para toda a complexidade que entretanto surgiu? 

Temos a IA a tornar-se cada vez mais viciante e a substituir o papel do ser humano. Então daí surgiu também uma questão: “E se no futuro o governo for substituído pela IA?”. E esse foi o ponto de partida. 

 

Como foi o processo de transformação da inspiração em texto teatral? 

O espetáculo não tem um texto. Nós tínhamos uma estrutura e depois colocámos os atores num processo de construção através da técnica dos jogos de escuta, que o encenador Miguel Thiré começou a trabalhar cá em Portugal e que importámos dele. Nesta técnica, ao invés de se dar um texto em papel aos atores, dão-se objetivos para cumprirem em cena: vontades, ambições, um desejo…

Eu não dizia aos atores o que ia acontecer em cada cena. Por exemplo, se fosse uma cena em que alguém mata outra pessoa, eu não dizia a quem ia ser morto aquilo que iria acontecer. Nós dávamos ao ator que ia matar orientações sobre a forma como deveria agir e, depois, ao ator que ia ser morto, dávamos dispositivos que o levassem a aceitar, a colocar questões, a duvidar ou a querer fugir.

Com base nisso, os atores construíam as cenas a partir de um lugar real, como se aquilo lhes tivesse acontecido a eles próprios. E, através desse processo, criavam aquilo a que Stanislavski chamava “memória emotiva”, como se aquilo fosse algo que realmente lhes tivesse acontecido.

À segunda, terceira ou quarta vez que faziam a cena, já estavam a reviver uma memória que, para eles, era muito real, ao invés de simplesmente reproduzirem um texto à exaustão até o tornarem natural.

Depois, fomos repetindo este processo já numa lógica de aperfeiçoamento dessa memória. Quando o espetáculo estreia, é quase como ativar uma memória de algo pelo qual eles realmente passaram.

 

Neste espetáculo, o público pode escolher a sala onde quer ver diferentes cenas do espetáculo. Por que razão escolher uma experiência imersiva em vez de um espetáculo de teatro convencional? 

Para mim, partiu de uma vontade de inovar e criar algo novo. Acho que já vimos muitas adaptações de 1984 no cinema, no teatro, em formatos mais convencionais e que já foram muito explorados. Torná-lo num espetáculo de teatro imersivo, para mim, é uma proposta de inovação e de criação mais pura, mas é também um cruzamento entre teatro e cinema.

Porque o teatro, numa sala tradicional, implica um conjunto de técnicas, formas e linguagens que são tendencialmente mais expressivas e menos intimistas. E eu, tendo trabalhado muito em cinema, interesso-me muito pela pequenez, pelo detalhe, pela intimidade, pela possibilidade de dizer uma coisa muito baixinho e a outra pessoa conseguir ouvir. Numa sala grande, isso não tem projeção nem leitura suficiente.

Fazer teatro imersivo permite esse cruzamento entre cinema e teatro, do ponto de vista da linguagem e da técnica, e permite depois jogar muito com o detalhe.

Neste espetáculo, a posição do público na sala dita o que cada pessoa vê. Às vezes, os atores estão de costas para uma determinada parte da sala porque estão a esconder alguma coisa de outra personagem. Quem estiver à frente do ator vai ver o que ele está a fazer e a emoção que está a esconder, porque está de costas para a outra personagem.

É também um desafio para o público: escolher ativamente o ponto de vista que quer ter sobre o espetáculo, movimentar-se para tentar descobrir um segredo que alguma personagem não sabe ou ter acesso a uma informação que outra pessoa do público, ao seu lado, não tem. E todas estas possibilidades e detalhes interessam-me muito.

Como é feito o equilíbrio entre uma temática tão pesada com a necessidade de criar uma experiência teatral envolvente? 

É duro. Temos pessoas que saem do espetáculo muito comovidas com a experiência, porque é intensa. Não é um espetáculo assustador, mas mexe muito com as nossas crenças, com as nossas convicções, com a nossa inquietação e com o nosso sentimento de justiça.

Os atores não interagem com o público, não o interpelam nem o põem a participar. Mas o público fica tão inquieto com o que está a ver que, muitas vezes, sente espontaneamente vontade de se envolver em algumas cenas. Um bocado como acontece também em Catarina e a Beleza de Matar Fascistas. No final, há o discurso do fascista e o público levanta-se, exalta-se, grita, protesta, sai da sala. E isso também nos tem acontecido bastante.

Temos pessoas que saem a chorar, com ansiedade e raiva. Mas as pessoas dizem-nos que o incómodo é bom, que lhes abrimos os olhos, que as alertamos. É um sofrimento positivo, porque lhes dá vontade de lutar. E essa inquietação é exatamente aquilo que procuramos.

 

O que mais te surpreendeu nas reações das primeiras pessoas que assistiram ao espetáculo? 

O que me surpreendeu foi as pessoas terem adorado o espetáculo. Há pessoas que vieram uma vez e depois compraram bilhete para voltar na semana seguinte. Nós víamos, pelas métricas da Ticketline, que, à saída do espetáculo, havia pessoas que já estavam a comprar bilhete para uma das sessões seguintes.

E isso é mesmo único. Nunca passei por uma experiência destas enquanto profissional: ter um produto artístico que mexesse tanto com o público, de que as pessoas gostassem tanto e que vivessem de forma tão intensa.

E, num mundo em que há tanta variedade e tanta oferta, ter algo que é realmente impactante é um privilégio imenso.

 

O que é que mudou em ti na forma como passaste a encarar as redes sociais e a IA desde que encenaste este espetáculo? 

Eu sempre tive um receio relativamente à forma como a IA pode ser usada de forma perniciosa e à forma tão radical como as pessoas vivem as redes sociais, deixando-se influenciar por aquilo que o algoritmo dita serem os seus interesses.

Este espetáculo não mudou nada em mim, é apenas uma forma de pôr em cena essa preocupação. É uma síntese da ideia de que podemos estar a entrar num nível de vício e de crença na IA e nas redes sociais tão grande que estas, hoje em dia, já influenciam resultados, eleições e governos pelo mundo inteiro.

2084 não é mais do que uma extrapolação do mundo que estamos a viver hoje, em que o governo é uma IA, a rede social controla os nossos gostos e interesses e, ainda assim, achamos que somos livres.

Porque, na nossa proposta de 2084, não há ditadura nem polícia política. As pessoas são livres, mas, quando nos desviamos da norma, a própria rede social exclui-nos. E isso já acontece também em 2026.

 

Que sentimentos pretendes provocar no espectador quando sai da sala? 

O que mais quero é provocar uma inquietação que incite à mudança. Mas essa inquietação deve passar por emoções diferentes, consoante cada pessoa. Há pessoas que precisam de ser tocadas mais emocionalmente, outras para quem bastam argumentos mais racionais, outras que precisam de sentir raiva e outras que precisam de sentir empatia e tristeza.

O espetáculo permite que cada pessoa vá atrás de uma experiência específica, daquilo que mais lhe interessa, seja pelas personagens, pelas narrativas ou pela linha da história, e consiga ter a experiência que mais a inquieta.

Que pergunta é que gostarias que cada espectador levasse consigo? 

“E se o governo fosse mesmo uma IA? E o que podemos fazer para evitar um futuro pior do que aquele que temos hoje?” Todos nós queremos alguma coisa diferente para o mundo, mas sabemos realmente como chegar lá? Os dias passam e não estamos a conseguir encontrar uma resposta a esta pergunta.

Mas, se tirarmos um bocadinho de tempo para pensar sobre isso, conseguimos perceber que qualquer pessoa, no seu dia a dia, nas relações com a família, na educação que dá aos filhos, na forma como interage com os vizinhos ou no voluntariado que faz, pode contribuir para a mudança. No mínimo, pensar globalmente pode permitir-nos agir localmente e concretizá-la.

Mas nós, cidadãos, também devemos estar mais atentos aos problemas, manifestar-nos mais perante as injustiças e procurar fazer a diferença, influenciando o governo e a sociedade para que essas mudanças aconteçam.

Eu continuo a acreditar que a manifestação funciona, que o povo consegue derrubar impérios. Mas, atualmente, estamos tão amorfos por causa das redes sociais, que estas se tornaram um mecanismo de controlo tão grande como aquele que, noutros momentos da História, foi a religião.

Mas a História diz-nos que temos essa capacidade. Portanto, a vontade é que as pessoas despertem para perceber que a mudança continua a ser necessária.

 

Fizeste um casting de atores para 2084. Como foi criar uma relação entre todos eles que permitisse construir este espetáculo em conjunto?

Acho fundamental haver mais castings em Portugal. Somos um meio que funciona muito pelo contacto direto, em que se conhece alguém e se convida essa pessoa, e isso faz com que não nos confrontemos com ideias, propostas e talentos diferentes nem permitamos que tragam uma renovação ao próprio meio português.

No casting de 2084, aprendi que as ideias preconcebidas que tinha para o projeto mudaram quando, de repente, vi propostas de atores que as desafiaram e trouxeram algo melhor do que aquilo em que eu estava a pensar.

Ao invés de ter apenas atores ideais para aquilo que tinha imaginado, consegui ter um conjunto de atores incrivelmente talentosos: alguns cujo trabalho eu já conhecia à distância, outros de quem nunca tinha ouvido falar e outros que já conhecia de perto e que, no casting, percebi serem ainda mais adequados ao projeto do que estava à espera.

E isso cria um espetáculo mais rico, único, com muito mais cores e possibilidades, porque os atores também trazem ideias novas. Não é só no texto e na interpretação. Se o encenador tiver essa disponibilidade, isso reflete-se também na forma como o guião se pode transformar, como uma cena pode ser diferente ou como uma personagem pode ganhar características diferentes.

A maioria dos projetos ganha muito com essa novidade. O que precisamos é de estar mais abertos a ela, e acho que o meio português precisa muito disso.

 

A primeira temporada do 2084 foi um sucesso, também realizaste a curta-metragem “Colapso”, que venceu sete prémios no festival 48H, no Cinema São Jorge. Que portas esperas que estes prémios e projetos te possam abrir profissionalmente no futuro? 

Se há público interessado no que estamos a fazer, é porque estamos a fazer algo que interessa às pessoas e as impacta. O nosso problema, em Portugal, é a quantidade de projetos que não têm público suficientemente interessado e que continuam a ter apoio, ano após ano, para salas fechadas.

Do ponto de vista estratégico, o meio cultural português não está a fazer os investimentos certos. O que eu espero é que haja consciência, no setor cultural português e, sobretudo, por parte de quem decide os financiamentos, de que temos de trabalhar para as pessoas.

Isto não significa fazer arte comercial. Significa fazer arte com empatia, com a compreensão de como podemos dar algo de valioso a outra pessoa.

E espero, com o sucesso que estes projetos têm conseguido alcançar, ter mais oportunidades para contar histórias, criar impacto e conseguir chegar a mais público.

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