Entre a memória pessoal e a história recente portuguesa, Projecto Global mergulha nos anos 80, num período marcado pela atividade das Forças Populares 25 de Abril (FP-25), para acompanhar um grupo de jovens movidos por um desejo de transformação que rapidamente se confronta com a realidade. Mais do que uma reconstituição histórica, o filme constroi uma experiência que acompanha de perto personagens que oscilam entre o entusiasmo revolucionário e a progressiva perda de referências morais.
Inspirado em acontecimentos reais, mas assumidamente ficcional, o filme nasce também de episódios vividos na infância do realizador, cruzando esse olhar íntimo com um retrato mais amplo de uma geração que cresceu na ressaca do 25 de Abril. Longe de uma abordagem didática, privilegia a ambiguidade, a dúvida e a contradição, recusando simplificações.
Realizado por Ivo M. Ferreira, o filme teve estreia no Festival Internacional de Cinema de Roterdão, onde se destacou pela receção crítica e pela forma como, sendo profundamente enraizado na realidade portuguesa, se revela acessível a diferentes públicos.
Sem procurar respostas fechadas, Projecto Global abre espaço à dúvida e à discussão, acompanhando personagens que se movem entre convicção e perda, idealismo e erro. É a partir desse território, entre proximidade emocional e distância crítica, que se constroi esta conversa.
O filme nasce de uma memória concreta de infância. Quando é que percebeu que tinha um filme em mãos, ou a possibilidade de tornar esta história num filme?
Quando falamos em “ter um filme em mãos”… isso acontece quase durante todo o processo, desde a escrita até à filmagem. Neste caso, a ideia era quase uma corrida para apanhar aquilo que fosse tangível pelo caminho. Quando a câmara está a andar, quando os atores começam a correr… se aquilo retém uma energia muito específica, mesmo sem sabermos exatamente onde vai dar, começamos a sentir que há filme.
Apesar de tudo, há uma série de riscos, inerente a esta estética de zooms e alguma confusão. Acho que o momento em que sentimos mesmo que “temos filme” é quando estamos no video assist e percebemos que algo está a acontecer nas personagens.
Lembro-me mais dessa sensação na minha primeira curta, a de tentar perceber “Será que tenho um filme?”. Com o tempo, vamos confiando mais, mesmo quando as ideias são mais loucas e nos trazem fragilidade porque nunca sabemos exatamente o que vai sair dali.
Como diziam aquelas pessoas mais céticas, “os filmes são como os melões, só se sabe verdadeiramente como são depois de abrir, não é?”
Sempre sentiu essa vontade de contar esta memória tão pessoal?
Há aqui uma questão que é uma construção. Uma coisa é eu ter tido, de forma marginal, algum contacto com este assunto desde muito miúdo, e isso ter-me despertado curiosidade. Mas não foi um trauma no sentido clássico, não foi algo que me tenha marcado de forma contínua até ao momento de fazer o filme. Foi antes uma história que aconteceu, que foi sendo falada ao longo da vida, e que acabou por ficar.
No caso do momento de prisão a que me refiro, quando digo que “assisti”, não significa que estivesse presente no momento em que a polícia apareceu. São memórias fragmentadas, como o desaparecimento da Natércia, o que se dizia depois, e mais tarde, a prisão. Ela esteve presa cerca de três anos sem acusação formal. Nunca contei isto a ninguém, mas a única acusação que existia era ela ter o nome de Otelo Saraiva de Carvalho escrito numa agenda… E são coisas que, na altura, não compreendemos totalmente, mas que permanecem.
Mas, mais uma vez, não foi um trauma que eu carreguei até fazer o filme. Foram episódios de infância que coincidiram com outras coisas importantes para mim naquela altura. Por exemplo, eu fazia teatro desde muito novo na Comuna, participava em peças, ensaiava durante meses, e isso foi mais ou menos contemporâneo a estes acontecimentos.
E houve uma coisa que me marcou muito: quando os espetáculos acabavam, depois de tanto tempo de trabalho intenso, sentia um vazio enorme. Sobretudo quando era mais novo, com 9 ou 10 anos, passava quase um ano inteiro dedicado a um espetáculo… e depois, de repente, acabava, era tudo lasso.
Esse vazio foi importante. Foi aí que comecei a sentir vontade de fazer cinema. Não por gostar mais de cinema do que de teatro, mas como uma reação à efemeridade do teatro, porque aquilo desaparecia e isso inquietava-me.
Portanto, de certa forma, estas duas coisas cruzam-se: essas memórias de infância e esse momento em que começo a querer fazer imagens, primeiro fotografia, depois cinema. Acho que foi dessa coincidência que nasceu a ideia. Posso dizer que, de alguma maneira, esta foi sempre a minha primeira ideia de filme.
Mas também sempre soube que era um projeto muito complexo. E precisei de tempo e de “ganhar unhas”, como se costuma dizer, para o conseguir fazer.
Este é um dos primeiros filmes a abordar este tema das FP-25. Porque acha que não há mais obras sobre isto?
Talvez o mundo em geral, mas Portugal particularmente, tenha dificuldade em lidar com traumas recentes. Precisa de distância. Ainda é tudo demasiado próximo.
Estamos a falar de um tema com vítimas mortais, com muita carga emocional e isso naturalmente inibe. Eu próprio senti necessidade de ficcionar os episódios, apesar de serem baseados em factos reais. Houve sempre esse cuidado de assumir o filme como uma obra de ficção, mesmo tendo por trás uma investigação muito séria.
Paralelamente, existe também um livro do Francisco Bairrão Ruivo, que será editado na mesma altura do filme, creio que no dia 23. Esse livro sim, funciona como um objeto mais científico, mais rigoroso do ponto de vista da investigação.
Além disso, há uma questão mais geral: mesmo temas enormes, como a guerra colonial, continuam pouco explorados no cinema português. Há uma espécie de silêncio coletivo.
Talvez porque ainda são feridas abertas.






O filme cria uma grande proximidade com as personagens, mesmo quando tomam decisões difíceis. Isso foi intencional?
A partir do momento que as personagens se reduzem a fantoches morais, eu acho que o cinema acabou. Não me interessava fazer os “maus” de um lado e os “bons” do outro.
Acho que o filme tem uma posição muito clara do ponto de vista humanista. Ou seja, mais do que tomar um lado simplista, tenta compreender as motivações e as contradições das personagens.
Estamos a falar de uma organização que nasce com um certo medo do regresso do fascismo, mas, ao mesmo tempo, surge já num contexto posterior a momentos-chave como o 28 de setembro, o 11 de março ou o 25 de novembro. Ou seja, nasce já numa fase diferente, nos anos 80, o que a torna mais difícil de compreender. Além disso, ao contrário de outros movimentos contemporâneos, não é uma organização independentista, não reivindica um território. Isso também contribui para essa dificuldade de leitura…não é uma estrutura simples de explicar.
Mas, para mim, mais importante do que explicar a organização era retratar um país e uma geração. Interessa-me muito esse período mais “cinzento”, mais lamacento, mais confuso, longe da ideia romantizada do pós-25 de Abril. É mais a ressaca desse momento.
E até que ponto é que realmente nós nos entusiasmamos, e lutamos pelos nossos ideais, até que ponto é que isso colide com a realidade, não é?
Pois, isso acaba por acontecer um pouco às personagens, à medida que se vão perdendo na clandestinidade, a ideologia deixa de dar respostas… E o que sobra dessas próprias personagens? O filme mostra um pouco esse caminho, não é?
Fico feliz de que digas isso.
Eu nunca quis que este fosse apenas um retrato da vida de um clandestino, apesar de esse universo ter, naturalmente, um lado “super sexy” em termos cinematográficos. O que me interessava mais era a forma como acompanharíamos estas personagens, como a câmara estaria com elas, quase nas margens, e como isso constroi uma experiência mais sensorial.
A ideia foi sempre tentar transmitir um certo vazio que existe dentro destas personagens, mas um vazio em movimento. Ou seja, que o filme estivesse sempre a pulsar: há momentos em que acelera, em que estamos com eles na ação, e outros em que abranda, permitindo-nos escutar mais de perto, quase como se ouvíssemos o coração deles, sobretudo o da Rosa.
No fundo, é um filme muito ancorado nas personagens, é aí que tudo acontece.
E a escolha de uma protagonista feminina, a Rosa. Porque quis contar esta história a partir de uma personagem feminina?
Porque não haveria de ser uma mulher? (risos)
As mulheres são mais interessantes de filmar. E, no meu caso, há também uma ligação pessoal, a minha mãe é atriz. Se eu fosse uma personagem neste universo, seria o miúdo que anda atrás dela.
O filme já foi mostrado no Festival Internacional de Cinema de Roterdão. Que tipo de reações encontrou num público que não tem a mesma relação com esta história?
Há uma coisa que tem acontecido com o filme que me deixa mesmo muito feliz: as pessoas gostam genuinamente do filme. Isso aconteceu em Roterdão, aconteceu em Luxemburgo e também nas projeções em Portugal. E isso, para mim, é o mais importante.
Claro que foi muito especial estar em Roterdão. É um festival diferente de Cannes ou Berlim, que têm mercados muito maiores e mais mediáticos. Em Roterdão, havia menos esse lado de indústria, e por isso, era ainda mais importante perceber como é que o filme seria recebido pela crítica internacional. E, felizmente, a reação foi muito positiva.
Lembro-me, por exemplo, de uma crítica da Screen Daily que descrevia o filme como “surprisingly exportable”. Ou seja, apesar de ser um tema muito específico e português, o filme consegue atravessar fronteiras.
E acho que isso acontece porque o filme acaba por funcionar por si. Não exige que o espectador tenha um conhecimento profundo do contexto histórico. Aliás, é curioso, um amigo meu, crítico, dizia-me em Luxemburgo: “Mas será que isto funciona em Portugal? Como irá funcionar com o público internacional? Será que as pessoas sabem o suficiente?” E a verdade é que, mesmo em Portugal, muitos jovens não sabem exatamente o que foram as FP-25. Portanto, não é por aí.
Eu acredito que o filme tem uma vida própria. Não é um filme didático, não pretende explicar historicamente tudo o que aconteceu. Pelo contrário, quer criar tempo e espaço para que o espectador pense, questione, reflita.
E depois há também referências que ajudam a contextualizar, mesmo para quem não conhece a realidade portuguesa. Os movimentos como a Baader-Meinhof, as Brigadas Vermelhas, a ETA ou o IRA fazem parte de um imaginário mais amplo. Isso, de alguma forma, ajuda o público a situar-se.
Por isso, parece-me que o filme pode funcionar bem junto de diferentes públicos, mesmo daqueles que não têm qualquer conhecimento prévio sobre os acontecimentos em Portugal nos anos 80.







Vivemos hoje numa sociedade muito polarizada. O que é que o filme pode dizer sobre os dias de hoje?
Muito sinceramente, acho que o filme não é nada oportunista. E eu tenho uma embirração especial com oportunismos.
O filme nasce muito antes do contexto atual. Foi apresentado formalmente em dezembro de 2017, no Festival Internacional de Macau, ainda numa fase inicial, com o mesmo plot, com a personagem Rosa, com a base da história já definida. Claro que depois o argumento foi sendo trabalhado, desenvolvido, aprofundado, mas a origem está aí.
Ou seja, não é um filme que surge como reação direta ao presente. Na altura, por exemplo, havia apenas um deputado da extrema-direita no Parlamento. No entanto, à medida que fomos desenvolvendo o filme, fomos inevitavelmente confrontados com o que estava a acontecer no país e aí sim, começou a criar-se uma tensão com o presente.
Assistimos a um crescimento de movimentos mais polarizadores, com discursos mais agressivos, mais ruidosos e isso é algo que, inevitavelmente, dialoga com o filme. Há um paralelismo possível com esse ambiente de polarização, embora não tenha nascido com essa intenção.
Isso leva a uma questão que me interessa muito: o desnorte moral, a perda de bússola. Como é que, em determinados contextos, as pessoas começam com determinadas motivações, muitas vezes até compreensíveis, e acabam por chegar a lugares que já não reconhecem.
Para mim, o mais inquietante é precisamente esse momento em que as personagens fazem coisas que se tornam irreconhecíveis para elas próprias. Quando, em nome de uma causa, se perde o referencial.
Acompanhamos a Rosa nesse percurso, na entrada na clandestinidade, e percebemos que “fazer parte” de uma organização destas é algo muito mais difuso do que parece. Não é uma estrutura simples, não é linear, há redes, há simpatizantes, há ligações anteriores, há uma espécie de teia.
E, no meio disso tudo, o filme abre-se a várias interpretações. Mas há uma coisa que me parece clara e que, felizmente, também tem sido reconhecida pela crítica e pelo público: o filme é profundamente pacifista.
Há uma frase no filme que resume bem isso: “Querem poder? Candidatem-se.” E eu não podia estar mais de acordo. Nunca tive outra posição, nem na vida nem na política.
O filme acaba por dizer isso, através das personagens, através das consequências, através das mortes. E até personagens como o jornalista ajudam a trazer essa perspetiva mais racional, mais distanciada.
No fundo, aquilo que mais me tem tocado nas reações do público é ouvir pessoas dizerem que continuam a falar do filme dias depois de o verem. Que vão jantar e ainda estão a discutir aquilo.
E isso, para mim, é o mais importante. Porque uma sociedade precisa de discutir. O conflito faz parte, o problema é quando se transforma em ódio. A discussão é um dos pilares da democracia.
E se o filme contribuir, de alguma forma, para essa conversa… Então já valeu a pena.
Para terminar, acha que o filme vai deixar o público português mais desconfortável? Que reação espera do público?
Não me parece que o filme vá ser particularmente desconfortável. Claro que há sempre pessoas que podem sentir algum desconforto, como eu próprio posso sentir noutras situações, mas acho que o filme é muito cuidadoso. Só com um grande esforço é que alguém fará uma leitura completamente errada.
Hoje em dia vivemos muito nesse ruído do vox populis, em que toda a gente comenta tudo, muitas vezes com alguma toxicidade. Talvez por isso eu nem tenha redes sociais… Gosto de discutir, mas gosto de discutir com quem quero, com tempo, com abertura para ouvir o outro, mesmo quando pensa de forma diferente.
Mas voltando ao filme… Sinceramente, não acho que seja um filme que afaste o público. Pelo contrário, tem também um lado de aventura, uma certa leveza inicial que permite ao espectador entrar na história e estar com as personagens. Acompanhamos esse grupo durante algum tempo antes de chegarmos à fase em que as coisas começam a escalar, a tornar-se mais violentas.
E isso é importante, porque cria empatia. Só depois é que nos “afundamos” com eles.
No fundo, é um filme muito sobre uma juventude, sobre essa pulsão de querer mudar o mundo, que à partida é positiva, mas que depois pode colidir com a realidade e tomar outros caminhos.
E há também um elemento curioso, que é essa atração pela pólvora, pela ação, algo que, de certa forma, continua a existir hoje. Nós próprios, ao fazer o filme, trabalhámos tudo com efeitos reais, o que nos obrigou a um cuidado e a um respeito muito grandes por cada cena. E isso acabou por contribuir para o resultado final.
Ao mesmo tempo, essa energia também envolve o público. Por isso, o que eu espero é que as pessoas vão ver o filme sem preconceitos, sem a ideia de “é cinema português” ou qualquer outra etiqueta. Tenho muito orgulho em ser um filme português, claro, mas gostava que fosse visto simplesmente como um filme.
Acho que este pode ser um filme para um público alargado. E espero mesmo que as pessoas lhe dêem essa oportunidade.
E que vão sem medo, não vão sair traumatizadas.