“O Algoritmo”: o público é protagonista num espetáculo sobre algoritmos e a vida digital

@Faya

No coração do Hub do Beato, em Lisboa, o público deixa de ser mero espectador para se tornar protagonista. É este o desafio de “O Algoritmo”, um espetáculo imersivo que transforma a lógica invisível dos algoritmos digitais numa experiência viva, mostrando como eles guiam silenciosamente as nossas escolhas e desejos.

Miguel Thiré e Michel Simeão explicam como nasceu a ideia do espetáculo, criado para que cada participante seja parte ativa, e de que forma convida o público a refletir sobre o seu próprio mundo digital. “O Algoritmo” está em cena de 22 de janeiro a 22 de fevereiro, com bilhetes à venda na Ticketline.

 

Qual foi a situação que esteve na origem de “O Algoritmo”?

Miguel: Eu acompanho o trabalho do Michel há algum tempo, sobretudo no teatro imersivo e no terror. Eu próprio tenho vindo a desenvolver um formato de trabalho chamado “Jogos de Escuta”, uma técnica de improvisação, e já tinha feito um trabalho no campo do teatro imersivo. Há vários anos que sentia vontade de voltar a esta linguagem, a um lugar onde o público deixa de ser apenas espectador e passa a ser parte da narrativa. Não entra só no cenário: passa a fazer parte da trama. E isso é algo que também reconheço no trabalho do Michel.

Ao mesmo tempo, havia um tema que me interessava explorar há muito tempo: os algoritmos e a forma como moldam a nossa vida. O algoritmo não é apenas uma questão das redes sociais, é um conceito mais amplo: uma máquina que nos ajuda, mas também nos manipula. A partir daí, surgiu a ideia de criar um espetáculo em que a plateia pudesse viver, na prática, essa dinâmica de manipulação que os algoritmos propõem. Liguei ao Michel e propus que trabalhássemos juntos neste projeto.

Michel: Quando o Miguel me lançou a proposta, achei-a muito interessante. Percebi que ele queria replicar a lógica do algoritmo com que interagimos diariamente através dos nossos dispositivos, mas ao vivo, com pessoas reais. Pareceu-me um desafio revolucionário.

Era um território novo para mim dentro do imersivo, algo que nunca tinha explorado dessa forma, e abria a possibilidade de trabalhar um formato com dinâmicas completamente diferentes. A partir daí, fomos construindo o espetáculo juntos, peça a peça, quase como a criar um “Frankenstein”, como o Miguel lhe chamava: feito de várias partes, até encontrarmos o nosso monstro perfeito.

 

Porque é que é tão importante que o público não seja apenas espectador e participe ativamente?

Michel: Tenho sentido esta procura por parte do público. Este ano completei dez anos de produções imersivas e é muito claro que as pessoas estão à procura de alternativas culturais e de entretenimento diferentes. O teatro imersivo cruza bem esses dois mundos: cultura e entretenimento. O público quer ter um papel mais ativo.

Este espetáculo é uma excelente experiência para fazer em grupo: juntar amigos e viver algo que não passa apenas por estar sentado a assistir. O imersivo traz uma outra energia, uma outra cor, que muita gente procura. E, curiosamente, muitas vezes funciona como uma porta de entrada para o teatro. Há pessoas que dizem que não vão ao teatro porque acham que é uma seca e acabam por se reconciliar com ele através do imersivo. O teatro tem muitas formas e linguagens, mas por vezes fica cristalizado numa só. O imersivo é revolucionário nesse sentido.

Miguel: Durante muitos anos, o grande desejo das pessoas era ter bens materiais. Hoje, cada vez mais, aquilo que procuramos são experiências. Isso está a expandir-se e, de certa forma, está também a devolver importância às experiências ao vivo, à presença e ao encontro. O imersivo surge muito ligado a essa necessidade de viver algo, e não apenas de observar.

Sem estragar a experiência, que tipo de escolhas o público vai ser chamado a fazer ao longo do espetáculo?

Miguel: Nesta peça, o ponto de partida é simples: deixar o telemóvel de lado. Queremos falar sobre a dependência que temos dele e sobre como isso nos afeta, propondo uma experiência presencial, partilhada com outras pessoas. O público chega e é recebido por um mestre de cerimónias que apresenta alguns conceitos e propõe jogos que ajudam a perceber como funciona a lógica das escolhas dos algoritmos e de que forma essa filtragem molda a nossa vida.

Simulamos essa dinâmica: o público vai vivendo esse processo e, a partir daí, surge uma proposta que não podemos revelar (risos). O espetáculo acontece num armazém do Hub do Beato, onde existe uma instalação organizada em dez grandes temas: natureza, viagens, comida, trabalho, entre outros. Dentro de cada um há entre 30 e 40 experiências possíveis, e o público é constantemente convidado a escolher.

Michel: O segredo deste espetáculo passa muito por ir ao desconhecido. Gostávamos que as pessoas viessem de espírito aberto, dispostas a perceber como nós próprios podemos ser manipulados sem nos apercebermos.

Miguel: No fundo, é um reflexo do mundo em que vivemos. Sentamo-nos com o telemóvel na mão e temos todas as escolhas possíveis. Muitas vezes abro o YouTube e fico paralisado: posso ver todas as entrevistas de todos os atores, todos os excertos de peças, qualquer coisa. É tanta opção que acabamos por ficar congelados.

Michel: É um verdadeiro abismo de escolhas. E foi isso que também quisemos explorar: esse estado de sobrecarga em que, de repente, temos demasiadas possibilidades à frente.

 

Que tipo de reflexão gostariam que o público começasse a fazer a partir de “O Algoritmo”? O público acaba por chegar a alguma conclusão ou fica à reflexão de cada um?

Michel: É importante para nós não enviesar nenhuma perspetiva. A experiência é muito pessoal e, inevitavelmente, as pessoas saem a refletir e com boas conversas. Mas está tudo completamente aberto à interpretação de cada um, porque cada pessoa leva a sua própria vida para dentro da experiência. Não há uma leitura única.

Miguel: A própria prática de la estar e de participar como se participa já é, por si só, uma proposta de uma alternativa a uma dinâmica tao atravessada pela máquina, como é o mundo hoje. Máquina essa de cada vez mais vai fazer parte da nossa vida, a inteligência artificial chegou para ficar, e cada vez mais somos auxiliados e substituídos por esta máquina que nos facilita a vida, a questão é até que ponto a nossa relação com a máquina é saudável. Esta é a grande questão, e não há uma resposta certa, devemos é debater sobre ela.

Michel: No fundo, trata-se de exercitar o pensamento crítico sobre o que acontece à nossa volta, sem certo ou errado.

 

Miguel Thiré e Michel Simeão - @Faya
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