Uma família em conflito, uma disputa pelo futuro de uma filha e uma dúvida capaz de destruir as certezas de um homem. É a partir daqui que August Strindberg constrói O Pai (1887), agora revisitada na Sala Luís Miguel Cintra do Teatro São Luiz com encenação de Gonçalo Waddington, que também assume o papel principal. “Tenho muitos ‘eus’ dentro de mim. O ‘eu’ ator entra em conflito com o ‘eu’ encenador e entra em conflito com o ‘eu’ pessoa que está ali fora. Tudo isso ajuda”, diz o encenador e ator.
Gonçalo Waddington diz que assumir simultaneamente o papel de encenador e de ator é muito exigente. “É uma exigência técnica e emocional. Isso permite-me explorar muitas coisas, umas que tenho, outras que não e vou à procura.”


A ação decorre no interior de uma família burguesa, onde o Pai e a mulher, Laura, entram em confronto sobre a educação e a paternidade da filha, Berta. O Pai conduz um percurso marcado pela paranóia, alucinação e perda de referências. A casa familiar, aparentemente espaço de segurança e estabilidade, transforma-se num território de confronto. “O que eu acho mais importante nesta peça é precisamente o que se esconde, o que não está à mostra no próprio texto e o que está sempre lá subjacente”, refere o encenador.
Escrita no final do século XIX, O Pai aborda temas como as relações de poder, os conflitos conjugais e a tensão entre homens e mulheres. Mais de um século depois da sua estreia, a peça mantém a capacidade de questionar as estruturas familiares, as relações de autoridade e a fragilidade das certezas individuais, desta vez através da encenação de Gonçalo Waddington. “O que é atual nesta peça é precisamente o facto de confrontarmos o público com um texto de 1887 e isso reverberar ainda hoje. Somos nós a fazer, a ver isto com os nossos preconceitos e com a nossa forma de ver o mundo atual”.


Para além de Gonçalo Waddington, o elenco do espetáculo é também composto por Carla Maciel, Cecília Borges, Hugo Narciso, Joana Bárcia, João Pedro Vaz e Miguel Sopas. “Escolher atores é mais de metade do trabalho de uma peça. Nenhum destes atores trabalha só para o seu papel e para as suas coisas, é tudo muito partilhado. Tivemos sorte nas pessoas. Quando escolhes as pessoas certas para um projeto normalmente este vai correr bem.”
A peça está em cena até dia 27 de setembro no São Luiz, com bilhetes disponíveis aqui. “O que eu quero é que as pessoas acabem a peça e que aquilo lhes bata”, deseja o encenador.