por Filipa Mota Nesbitt
Nesta rubrica mensal partilho os livros que me habitaram as divisões e me seguraram os braços em ângulos, por vezes incómodos. Os livros decalcados nas frases sublinhadas e o deslumbramento dos autores que me ensinam a espreitar pelo buraco da fechadura. Personagens complexas, escrita poética e literatura intensa, no ato e no detalhe.
Escrevo-vos por ordem de leitura, sem preferências sinalizadas, porque não há livro que não acrescente, que não nos aumente a humanidade e a proximidade de nos entendermos. Não é que as perguntas desapareçam, mas atenuam a ânsia da resposta, porque sabemos mais um pouco, lemos mais uma linha e conhecemos mais uma história.
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As minhas leituras deste mês levaram-me de Barcelona, da Guerra Civil Espanhola, às cidades imaginárias, de um lar de idosos onde a vida insiste em continuar, a uma infância uruguaia feita de perguntas e desobediências, e aos santos que abençoam e não obedecem às vontades prematuras e apaixonadas da casa.
Histórias de resistência à História, ao esquecimento, à velhice, à família, à moral, à solidão ou simplesmente à ideia de que a realidade é aquilo que nos disseram ser. Há sempre algo não revelado na primeira impressão. Uma memória, um desejo, uma ferida, uma revolta, uma história não contada. E, às vezes, quando retomamos o olhar, esse olhar é suficiente para mudarmos tudo. E tudo muda.
Os livros que li em agosto:
A Praça do Diamante, de Mercè Rodoreda
Quando sobreviver é ser livre
Uma noite de festa na Praça do Diamante e nada mais foi igual. E podia ser um amor vivido na paixão dos corpos e na construção de um lar. Se fosse outra época. Se não fosse em Barcelona, na iminência da Guerra Civil Espanhola e do domínio patriarcal, não subentendido, mas às claras, e de uma superioridade caseira e asfixiante de um marido cuja presença se alonga para além do tempo e das paredes.
Os pombos são reais e são a obsessão dele. Uma metáfora viva que ocupa demasiado espaço e reduz o de Natália e dos filhos. A casa mingua e aprisiona a liberdade e a vida prometida, que a guerra impede, a fome não deixa e a morte pontua.
Rodoreda escreve com uma aparente simplicidade uma história muito poderosa e chama, para quem lê, a violência de se viver o que se escolheu por engano e se resiste nos pequenos gestos, na capacidade de suportar, de reconstruir, de voltar a escolher o nome próprio e recuperar a identidade roubada. Uma luta atroz. Para além de um corpo sobrevivo.
A vida fica intermitente e a morte apela aos gritos pelas janelas, pelas portas e pelos sonhos. Inunda e, sem vergonha, tenta-a pelo cansaço. Livre das asas cinzentas e das suas, que, de doridas, já nada lhe serviam, assentou-se num saco de milho.
E foi quase feliz.
«Os pombos, quando se fartaram de voar, foram pousando um de cada vez e meteram-se no pombal como velhas na igreja, com pequenos passos e a cabeça para a frente e para trás como máquinas bem oleadas.»
Humanos Exemplares, de Juliana Leite
Os mortos também são companhia
Um livro sobre envelhecer, mas também sobre amar depois da ausência, sobre a família, sobre a solidão e sobre aquilo que permanece quando já quase tudo desapareceu. O passado não como um arquivo morto, mas como companhia do presente até que este se finde e se ofereça ao eterno.
A velhice rodeia-se das ausências dos vivos e dos mortos, mas a memória salva porque ela não é apenas uma lembrança de cheiro, risos ou choros, é uma presença, uma existência que se mantém nos atos, nas palavras e nas expressões.
Leite escreve sobre personagens comuns, sobre os movimentos mais curtos e as pequenas ações que fazem com que a vida seja cheia e imensa de tudo o que dela fermenta e vive. Permanece, para além do telefonema que se espera, dos sapatos que ainda se arrumam, na esperança de que ele volte. Ou ela.
Ninguém morre enquanto habitar a memória de alguém. Não estamos sós na chegada, nem na partida. Enquanto se espera vive-se na amargura e na beleza da memória. E que bom que ela existe, para que se continue a lembrar-nos o dom da vida e dos outros.
Um fim sereno e de uma beleza ímpar.
«Havíamos quem portasse nossa memória sem perdoar nenhuma vírgula, com conhecimento inclusive dos nomes dos envolvidos, e tudo isso nos dava o direito de morrer com tranquilidade ou então de ir à praia»
As Cidades Invisíveis, de Italo Calvino
As cidades que existem em nós
Cinquenta e cinco cidades imaginárias. Ideias. Estados de espírito. Desejos. Medos. Lembranças.
Diferentes olhares do mundo, vistos e versados por Marco Polo ao Imperador que anseia conhecer, sem sair do seu pedestal, o seu imenso território, de paisagens, pessoas, costumes, aversões e valores, cabidos ou sem sentido.
Calvino constrói um romance não convencional, que por vezes confunde, mas nunca aborrece. Cada cidade abre uma porta para outra, e quase as perdemos de vista no imaginário que inclui o mágico, a fantasia e os desejos mais mórbidos e espantosos que um autor se dispõe a escrever.
Vivemos entre o céu e o inferno. Entre o direito e o avesso. Entre o ar e a terra. As cidades são tudo isso, e nós fazemos parte. Não as habitamos apenas. Estas também nos habitam, nos moldam e criam-nos dialetos difíceis de entender para estrangeiros ou leitores despreparados.
E a malha é tão estreita que nos deixamos enganar pelas histórias que nos contam. Afinal, somos Imperadores. Ou seremos Marco Polo?
«O espelho ora aumenta o valor às coisas, ora o nega. Nem tudo o que parece valer muito por cima do espelho consegue resistir quando espelhado»
Misericórdia, de Lídia Jorge
A velhice ainda é vida.
Misericórdia questiona uma sociedade que tende a transformar os idosos em corpos sedentos de cuidados, mas esquece-se de que também esses corpos são de pessoas de vidas já muito vividas, inteiras, apesar de coração, braço, perna ou anca partidos.
Jorge olha para a velhice sem condescendência e escreve-nos sobre os velhos não serem figuras apagadas à espera da morte. Têm desejos, irritações, vaidades, ciúmes, histórias, sexualidade, humor, memória e vontade de viver. Lembra-nos o dever de olhar para o outro, como alguém que deverá ser visto, na plenitude da sua humanidade.
Um livro sobre a morte, mas cheio de vida que nos oferece distintas formas de escrita, de uma beleza e cuidado assombrosos. Um romance com folhas de diários, chamadas às memórias e cadeiras, para nós e para as personagens, como testemunhas. A ficção mistura as narrativas e acede ao pedido, real e realizado, da mãe da autora.
A solidão, o medo e a luta com a noite. Quando esta cai, o que se ilumina, o que se ouve e o que se sonha, vai para além do compreensível e daquilo que o corpo consegue suster. Os fantasmas fazem sempre questões impertinentes e são impacientes.
A ansiedade e a esperança vivida para além das paredes que nos cercam. O amor. É sempre o amor que salva.
«Antes quando a minha pele era clara e moça, qualquer gota de lágrima que me saltasse dos olhos era visível à distância. Agora, a minha pele criou sinais, curvas e valados, de tal forma que desde que não soluce, ninguém nota que me escorrem lágrimas. Comia-as com o pão.»
A Insubmissa, de Cristina Peri Rossi
A criança que disse não.
A insubmissão da autora que se narra começa muito antes de ela saber o que significa ser insubmissa. Está no desejo crescente de usar calças, na vontade de ter uma biblioteca, na recusa de aceitar determinadas convenções, na descoberta do amor e do corpo feminino e no espanto perante as desigualdades impostas às mulheres.
A escritora adulta não apaga a criança que foi e chama-a para o palco, para que ela atue na sua liberdade de apenas ser. Observa-a com deleite e não lhe oferece explicações demasiado fáceis. Deixa-a crescer em curiosidade, mantém-lhe a perplexidade, a inteligência e até alguma crueldade infantil.
Aqui, a família é um dos grandes campos de batalha, mas também o lugar onde nasce o amor mais valente, a linguagem mais correta e a literatura mais completa. E a escrita é a consequência natural da personalidade de Rossi, que não aceita, simplesmente, aquilo que lhe dizem. Vive a paixão no corpo de quem sente cada palavra e segue cada olhar. O amor à mãe e a literatura são ambos fundadores da sua religião.
Rossi transforma a memória numa forma de resistência e recusa-se a que os outros tenham a última palavra sobre quem deve ser.
«O amor é indizível, por isso mesmo temos que rodeá-lo tantas vezes, assediá-lo por todos os lados, sabendo, em suma, que é inabordável.»
Quem Tem Medo dos Santos da Casa, de Sara Duarte Brandão.
A liberdade sem licença.
De uma escrita delicada sem ser frágil, Brandão delicia-nos com uma poesia muito bem ensaiada e uma narrativa que voa, sem medos ou sobressaltos, entre tempos. E lembra-nos que a nossa primeira liberdade é aquela que, como filha ou mulher, se vive sem o impedimento de se existir em voz, vontade e por inteiro.
Um romance de fragmentos, de memórias e de imagens, santas ou por santificar, que não pedem legenda ou explicação. A autora faz da leitura uma herança do seu amado e saudoso avô, um presente que se prolonga e se esconde debaixo das saias da menina que a visita na curiosidade e se aproxima, no amor à filha, da lembrança da traição e do amor pouco vivido. Algumas histórias repetem-se porque ainda não encontraram o seu fim. Ou talvez ele não exista e insista no que merece ser relido.
A contenção das palavras segura-nos o sorriso da beleza, entre linhas escritas e silêncios que não bocejam, desta história que nos espanta nos atos de uma nova criança-menina-mulher, que admiramos, mas também questionamos, e uma comunidade que se rebela, enxota e renega, tudo e todos os que vivem sem o medo.
Maria Teresa escolhe ser a louca, a bruxa, aquela que não cabe, a que aceita as suas escolhas. É mais livre do que os outros, que lhe têm temor e o seu tear revela-lhe o seu coração mais sagrado.
A vida santifica-se, verdadeiramente, para quem vive fora do medo. E um gelado de tangerina cura quase tudo.
«Por isso, toda a mulher é um ato de revolta, uma pele estendida do avesso como roupa a secar à janela. E somos nós quem estamos à janela de nós próprios a ver o nosso corpo reagir ao vento».
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Num tempo marcado pela velocidade, pela distração e pelo excesso de ruído, ler continua a ser um gesto de resistência silenciosa. Um espaço de pausa, de pensamento e de escuta.
Nesta rubrica mensal, quero regressar aos livros não como objetos fechados numa estante, mas como lugares vivos de encontro, confronto e transformação.
Voltamos a encontrar-nos no próximo mês, entre livros, inquietações e silêncio.
Filipa Mota Nesbitt
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Filipa Mota Nesbitt escreve ficção e crónica, movendo-se entre a literatura, a observação do quotidiano e a reflexão íntima. Autora do romance Senhora de Si, encontra nos livros uma forma de escutar o mundo e regressar às perguntas essenciais. Em “O que Li este Mês”, partilha as obras que leu no último mês.