por Filipa Mota Nesbitt
Nesta rubrica mensal partilho os livros que me habitaram as divisões e me seguraram os braços em ângulos, por vezes incómodos. Os livros decalcados nas frases sublinhadas e o deslumbramento dos autores que me ensinam a espreitar pelo buraco da fechadura. Personagens complexas, escrita poética e literatura intensa, no ato e no detalhe.
Escrevo-vos por ordem de leitura, sem preferências sinalizadas, porque não há livro que não acrescente, que não nos aumente a humanidade e a proximidade de nos entendermos. Não é que as perguntas desapareçam, mas atenuam a ânsia da resposta, porque sabemos mais um pouco, lemos mais uma linha e conhecemos mais uma história.
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As leituras de junho teceram-se com o mesmo fio, nem sempre, visível ou consciente. Entre romances, memórias e ensaios, encontrei personagens que procuram um lugar no mundo, escritores a refletir sobre o ato de criar e vozes que transformam a intimidade em literatura. Um mês de livros que falam de identidade, solidão, pertença, desejo e memória e que me lembraram que a literatura também acontece nos espaços mais discretos da vida.
Os livros que li no mês de junho:
Obras Completas I: Tanta Gente, Mariana e As Palavras Poupadas, de Maria Judite de Carvalho
As vidas que cabem no silêncio.
Este primeiro volume das obras reunidas desta estrondosa autora, Maria Judite de Carvalho, tem mais de uma dúzia de contos que falam nas entrelinhas, riem-se nos pontos finais e permanecem na pele de galinha, o efeito sentido de quem escreve com a caneta direita, o olho atento e o pensamento certeiro.
A observação é a manilha do escritor. Tudo vê e o que a retina não preserva porque está muita luz ou houve uma distração, ele inventa. Apaixonei-me pela inteligência que vive nestes contos, sendo lições que reprovamos constantemente.
Quantas vezes achamos que somos ímpares nos sentimentos e sentimo-nos sós? Quantas vezes poupamos palavras e perdemos para o silêncio?
Em Tanta Gente, Mariana, a autora mergulha na solidão, na rotina e nas vidas de aparência comum, que escondem abismos emocionais. Em As Palavras Poupadas, confirmamos a sua escrita contida em frases curtas, elegante na escolha das palavras e humana no trato das suas personagens, repletas de defeitos e ousadas nas qualidades. Como nós. Tal e qual como nós.
Com uma linguagem depurada, a autora transforma o quotidiano em matéria literária de enorme intensidade. E não há quem não se reconheça. Não é um passeio de domingo pela marginal, em marcha lenta e vista harmoniosa. É uma volta ao mundo em menos de uma semana, com paisagens agrestes, tempestades de verão e discussões em casa. E depois tudo se arruma. Quase tudo se despe.
Muito para além da beleza da capa feita de tanto talento, como são todos os volumes desta sua obra que anseio completar. Uma autora brilhante, brilhante, brilhante!
«Sentia-se ferida não por ele mas através dele. O marido era a vidraça que deixava passar os raios de sol que a queimaram.»
O Homem Sentimental, de Javier Marías
Os equívocos do coração.
Neste romance breve, Javier Marías acompanha um cantor de ópera cuja vida se cruza com paixões, ciúmes e as ambiguidades em temporada artística. A distância de casa, o luxo da ocasião e a tentação que bate à porta. Ou será que foi imaginação sua?
Um triângulo fora das formas comuns aprendidas na escola ou lidas em outros livros. Uma exposição sobre a fragilidade dos ossos que quebram sem sentirmos dor, a memória das histórias que nos contaram e as versões que narramos em voz baixa a nós mesmos, para a paixão perdurar, o amor exista e a amizade permaneça sem feridas ao relento.
Em muitos momentos questionei se estava num sonho sonhado ou numa realidade contada a uma voz. Sem resposta, deixei-me enganar pelo escritor e às vezes é só mesmo isto que os livros solicitam. Para seguir.
Fiquei-me pelo real imaginário. Um sonho consciente. Porque a paixão começa depois do olhar e antes do tocar. Ela alimenta-se da antecipação, desenhada à sua medida. A medida mais que perfeita.
Uma história que conta os nossos segredos mais bem guardados. E sorrimos entre páginas e lembramo-nos de que somos todos uns belíssimos contadores das histórias que queremos ouvir. Somos uns ases da fantasia e mesmo sem asas voamos para além do pecado não original. O que repetimos vezes sem conta ou não estivéssemos nós no mundo das palavras.
«Não há vinculo mais estreito que o que une o que é fingido ou, ainda mais, o que nunca existiu»
A Devoção, de Patti Smith
A criação da história não ensaiada.
Mais do que um ensaio sobre escrita, A Devoção é uma meditação sobre o processo criativo e sobre a origem das histórias. De como tudo se move na nossa imaginação quando damos vida à musa que se senta à mesa do jantar, serve-se da refeição com o nosso garfo e deita-se no nosso lado da cama. Ela apela à escrita e o escritor apela ao sossego de se poder fechar em casulo com um caderno e uma caneta de tinta permanente. E permanecer.
O Devoção é também um conto subtil onde a autora nos mostra o ímpeto do que move o artista, mesmo quando o cenário se altera, mesmo quando o diabo se oferece coberto de prata, mesmo quando a porta se abre e não vemos nada, mesmo quando a boca fala palavras que embalam com pronúncia do norte. O artista cede na sua humanidade, mas logo regressa ao seu lugar onde é maior, livre e intenso de propriedade verbal, predicada e poética.
Livre. O artista devoto é livre. Não há outra forma de viver com ele, que não seja na sua liberdade.
Um livro de uma beleza solene. Um passeio pela beira-mar, de mão ao peito e sorriso. Patti Smith sabe escrever o que se sente e isso conforta-nos na beleza de continuar aqui. Entre linhas. Ou entre palcos. Ou na pista de gelo.
«Porque escrevemos? Porque não nos podemos limitar a viver.»
A Trilogia de Copenhaga, de Tove Ditlevsen
Escrever para sobreviver.
Adiei muitas vezes a leitura deste livro, não por falta de lapiseira que me acompanha todas as leituras, mas pela falta de certeza de que não me faltariam minas e coragem para sentir a textura das raízes de Tove. Uma autora densa na beleza. Sem medo de entregar ou de sentir. O que escreve é sempre arrebatador e previa que este livro contasse a vida de um lugar de luta, sobrevivência e dor. E assim foi. E só assim poderia ser.
Um livro que coloca à vista as fragilidades humanas, a importância da infância para o equilíbrio adulto, os desafios imensos de ser mulher, esposa, mãe e escritora, na sua mente e na sua casa e a sua recorrente dependência das drogas para calar o desassossego do querer ser mais do que aquilo que a permitiam. Do desejo de escrever e de ser lida.
Escrita com uma honestidade desarmante, esta trilogia é, em simultâneo, um retrato da condição feminina, da criação literária e da procura incessante de liberdade. Uma escrita genial, um caminho tenso, cruel e impulsivo.
Os poemas e os romances salvaram-na sempre. Até Tove não ter mais salvação.
«Ninguém escapa à infância, que se cola a cada pessoa como um odor»
No Brasil Não Há Leões, de Álvaro Curia
A geografia da memória.
Este livro é um poema sem margens, que nos inquieta e que nos cria a vontade de entrar nas páginas e resgatar a personagem criança esmagada pelo abandono, golpeada pelo abuso e triste na sua timidez, calada, consentida e em falta de lugar que também fosse seu.
A escrita do Álvaro é belíssima. De um cuidado claro, polido e de brisa subentendida, que nos faz pousar, segurar o objeto e refletir em como a cegueira, a negação e o umbigo, não são os mártires da história, mas as premissas do medo de quem tenta prever os próximos passos, para a queda ser menos dura, para o impacto ser almofadado. Ou pelo menos acompanhado do seu querido Oliver.
Um livro sobre pertencer e sobre as narrativas que construímos para saber quem somos, sem o olhar dos outros. Transborda todas as ideias de beleza e lembra-nos que os lugares felizes também estão em nós e das memórias boas que nos habitam e nos lembram o amor, mesmo que não saibamos nomeá-lo.
«Eu era uma encenação levada a palco para não causar incómodo aos outros.»
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Num tempo marcado pela velocidade, pela distração e pelo excesso de ruído, ler continua a ser um gesto de resistência silenciosa. Um espaço de pausa, de pensamento e de escuta.
Nesta rubrica mensal, quero regressar aos livros não como objetos fechados numa estante, mas como lugares vivos de encontro, confronto e transformação.
Voltamos a encontrar-nos no próximo mês, entre livros, inquietações e silêncio.
Filipa Mota Nesbitt
Filipa Mota Nesbitt escreve ficção e crónica, movendo-se entre a literatura, a observação do quotidiano e a reflexão íntima. Autora do romance Senhora de Si, encontra nos livros uma forma de escutar o mundo e regressar às perguntas essenciais. Em “O que Li este Mês”, partilha as obras que leu no último mês.