O Universo como obra inacabada

Crónica de Filipe Piteira

Há uma pergunta que a física pode formular com uma enorme precisão e que, no entanto, talvez não consiga responder: o que é, afinal, a realidade?

Durante muito tempo, acreditámos saber.

O mundo estava lá. As coisas possuíam propriedades. As pedras eram pedras, as árvores eram árvores, as estrelas existiam a milhares de milhões de quilómetros de nós e continuariam a existir se nenhum ser humano alguma vez levantasse os olhos para o céu.

O Universo era um palco. Nós éramos os espectadores.

Depois, no início do século XX, a física começou a retirar algumas certezas ao palco.

No mundo microscópico, a matéria deixou de se comportar como a nossa experiência quotidiana nos ensinara a esperar. A realidade quântica não se deixa facilmente traduzir para a linguagem das coisas que vemos e tocamos. Partículas podem ser descritas através de super-posições de estados; sistemas separados podem apresentar correlações que desafiam as nossas intuições clássicas sobre espaço e separação; e o problema de compreender o que acontece numa medição continua a ser uma das questões fundamentais da interpretação da teoria quântica.

A ciência não descobriu, portanto, que a consciência humana cria a realidade. Essa afirmação, tantas vezes repetida, é muito mais forte do que aquilo que a física permite concluir.

Descobriu algo talvez mais inquietante. Que a realidade é mais estranha do que a imagem que fazemos dela. E talvez seja precisamente aqui que a ciência possa a encontrar a arte.

O artista começa frequentemente diante de algo que já existe.

Uma paisagem. Um rosto. Uma parede. Um corpo. Uma luz atravessando uma janela.

Mas o que faz depois, é escolher. Escolhe aquilo que permanece e aquilo que desaparece. Escolhe um enquadramento, uma palavra, uma cor, uma duração, um silêncio. Retira infinitas possibilidades do mundo e conserva apenas a que lhe interessa mostrar.

Uma câmara poderia apontar para uma rua durante vinte e quatro horas e registar milhões de acontecimentos. O realizador pode decidir e escolher apenas dez segundos.

Porquê aqueles dez segundos? A pergunta parece técnica, mas não é. É metafísica. Porque toda a criação artística contém uma afirmação silenciosa sobre a realidade: isto merece ser visto.

Talvez seja por isso que a arte seja inseparável do acto de olhar.

Platão desconfiava das aparências.

Kant perguntava o que podemos realmente conhecer daquilo que existe para além das condições da nossa experiência.

Nietzsche desconfiava da própria ideia de uma verdade absoluta.

A fenomenologia procurou regressar à experiência concreta: antes de perguntarmos o que uma coisa é em si mesma, talvez devêssemos perguntar como ela aparece diante de nós.

E a arte nunca deixou de habitar esse território.

Uma pintura não é simplesmente uma janela para o mundo. É uma forma de dizer: “olha para o mundo desta forma.”

Um filme não reproduz simplesmente o real. Constrói uma duração, uma perspectiva, uma memória.

Uma fotografia não conserva apenas aquilo que aconteceu. Conserva uma determinada possibilidade de aquilo ter sido visto. Talvez seja por isso que uma obra de arte possa modificar a realidade sem modificar fisicamente absolutamente nada.

A rua continua a ser a mesma.

A árvore continua no mesmo lugar.

O rosto envelhece.

A luz desaparece.

Mas depois de vermos determinada pintura, determinado filme ou ouvirmos determinada música, já não conseguimos voltar exactamente ao mundo que existia antes da obra.

Alguma coisa mudou. Não necessariamente no mundo. Em nós. E talvez isso seja uma das definições possíveis de arte.

Mas então surge uma pergunta ainda mais perturbadora.

Quem está a olhar?

Porque podemos falar do observador como uma condição da experiência, podemos falar de percepção, de consciência, de perspectiva. Mas, quando tentamos compreender a própria consciência, encontramos outro abismo.

O Universo, segundo tudo aquilo que sabemos, existiu durante milhares de milhões de anos antes de haver seres humanos para o contemplar.

Estrelas nasceram e morreram. Galáxias colidiram. Planetas formaram-se. Oceanos apareceram. Espécies surgiram e desapareceram.

Durante quase toda a história cósmica, aparentemente , não havia ninguém para perguntar o que tudo aquilo significava.

E então, num pequeno planeta que orbita uma estrela vulgar, a matéria tornou-se capaz de olhar para o céu. Mais do que isso: tornou-se capaz de perguntar por que existe um céu. A matéria tornou-se capaz de produzir filosofia.

Produziu música, poesia, cinema, produziu alguém capaz de ficar diante de uma pintura e sentir qualquer coisa que não pode ser reduzida à simples descrição das moléculas presentes na tinta.

É difícil não sentir vertigem perante isto.

Porque talvez a arte seja uma das manifestações mais estranhas do Universo.

Uma estrela produz luz.

Uma pedra possui massa.

Uma planta cresce.

Um animal move-se.

Mas o ser humano pode olhar para uma mancha de pigmento sobre uma superfície e perguntar:

O que significa isto?

Talvez seja aqui que a física, a filosofia e a arte se encontrem. Não porque uma possa provar as conclusões da outra, mas porque todas começam diante do mesmo espanto.

Há alguma coisa. E essa coisa não é transparente para nós.

A ciência procura descrevê-la.

A filosofia procura compreender o que significa que ela exista.

A arte tenta fazer-nos sentir o mistério de estarmos dentro dela.

Talvez uma equação consiga descrever uma parte do Universo com uma precisão extraordinária. Mas existe uma distância entre descrever o mundo e experimentar o facto de estar vivo dentro dele.

Sabemos que a luz tem determinadas propriedades físicas. Mas isso não explica inteiramente o que significa estar diante de uma janela ao fim da tarde e ver uma determinada luz atravessar uma divisão vazia.

Sabemos que o som é uma onda. Mas uma equação não é a experiência de ouvir uma determinada música aos vinte anos e, décadas depois, regressar subitamente ao lugar onde éramos quando a ouvimos pela primeira vez.

Sabemos que um corpo é matéria organizada. Mas uma equação não é um rosto.

A descrição não é a experiência. E talvez a arte exista precisamente nesse intervalo.

Há algo de profundamente misterioso no facto de podermos representar aquilo que não existe.

Um escritor inventa uma personagem.

Um compositor inventa uma melodia.

Um cineasta imagina uma cena que nunca aconteceu.

Um pintor coloca numa tela uma paisagem que talvez nunca tenha existido em nenhum lugar.

A arte dá existência ao que antes era apenas uma possibilidade. E aqui regressamos, inevitavelmente, à estranheza do mundo quântico.

Não para dizer que uma obra de arte funciona como uma partícula , mas porque a física contemporânea nos obrigou a abandonar uma imagem demasiado simples do Universo: a de um conjunto de objectos perfeitamente definidos, independentes e completamente determinados, esperando simplesmente que alguém os catalogue.

A realidade fundamental revelou-se mais difícil ,e talvez a nossa necessidade de criar também seja uma resposta a essa dificuldade.

Porque o mundo não nos parece suficiente tal como aparece. Criamos porque há qualquer coisa que ainda não conseguimos dizer,  porque, perante o mistério de existir, uma imagem é uma pergunta.

Talvez seja por isso que continuamos a pintar quando já existem câmaras.

Continuamos a escrever quando existem máquinas capazes de produzir milhões de palavras.

Continuamos a fazer música quando podemos reproduzir qualquer som.

Continuamos a filmar o mar, embora o mar já tenha sido filmado milhões de vezes.

A arte não existe porque precisamos de novas imagens. Existe porque a mesma realidade nunca termina de ser vista.

Cada artista acrescenta uma possibilidade ao mundo. Cada espectador acrescenta outra. E talvez uma obra de arte nunca esteja completamente acabada. Não porque lhe falte alguma coisa. Mas porque cada olhar produz uma experiência diferente.

Uma pintura permanece imóvel. Nós mudamos diante dela. O quadro é o mesmo. O observador já não é.

Então talvez a pergunta inicial tenha de ser reformulada.

Não: Quem está a olhar para o Universo?

Mas: o que acontece ao Universo quando alguém olha para ele?

Não sabemos. Talvez nunca saibamos completamente. Mas sabemos que, algures entre a matéria e a consciência, aconteceu uma coisa extraordinária.

O Universo produziu seres que não se limitaram a existir. Seres que começaram a perguntar o que significa existir e que depois começaram a pintar essa pergunta. A escrevê-la, a dançá-la, a filmá-la ou a transformá-la em música.

Talvez a arte seja, afinal, o momento em que o Universo deixa de ser apenas aquilo que existe e começa a contemplar a possibilidade de saber que existe.

E talvez seja por isso que, diante de uma obra de arte verdadeiramente poderosa, sentimos algo que não conseguimos explicar inteiramente.

Não estamos apenas a olhar para uma imagem.

Talvez, durante alguns instantes, estejamos a assistir ao Universo a olhar para si próprio.

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