O dark romance tem conquistado cada vez mais espaço entre os leitores portugueses e Inês Valadas tornou-se uma das vozes mais influentes deste crescimento muito antes de se estrear na ficção. Conhecida pela comunidade criada em torno da leitura e do subgénero através da página “The Dark Romance Queen”, a autora dá agora um novo passo com Onze Minutos, apresentado como o primeiro dark romance português a chegar às livrarias.
Entre relações intensas, personagens moralmente ambíguas e emoções levadas ao limite, Onze Minutos mergulha numa história marcada por trauma, obsessão, vulnerabilidade e amor. Nesta conversa, Inês fala sobre o percurso de leitora a escritora, o impacto do dark romance em Portugal, a criação de Adrian e Laurell e a razão pela qual acredita que “o amor salva” mesmo nas histórias mais sombrias.
Quando percebeste que querias deixar de estar apenas do lado da leitura e passar para o lado de quem cria histórias?
Não me lembro de existir um momento da minha vida em que eu fui apenas leitora. A escrita acompanhou-me sempre desde muito cedo e eu tenho uma quantidade avultada de cadernos escritos ao longo dos anos.
No entanto, acho que comecei a levá-la mais a sério (no sentido de realmente pensar que a escrita podia ser para mim) por volta dos dezassete anos. Isto foi sempre muito alimentado por pessoas que iam lendo o que eu escrevia e me iam também encorajando a não desistir, que diziam que gostavam de me ler e que eu tinha aptidão para a palavra. Escrever um livro inteiro, no entanto? É uma noção muito recente. Eu voltei a escrever com ênfase depois de me ter afastado da escrita durante alguns anos e voltei a fazê-lo porque voltei a encontrar a «minha voz» enquanto escritora. Inicialmente concorri ao prémio da Penguin com um excerto de um livro direcionado mais para ficção literária chamado «Os dias de ausência», do qual ainda não desisti, e simultaneamente comecei o manuscrito que viria a ser o «Onze Minutos» mas sem expectativas nenhumas para ele. Que neste momento ele esteja a chegar às mãos dos leitores e que exista toda esta antecipação relativamente ao mesmo parece-me quase um milagre. Mas acho que a vida tem uma forma engraçada de nos surpreender.
Tornaste-te uma das vozes mais visíveis do dark romance em Portugal antes mesmo de publicares um livro. Como foi passar de influencer e “mediadora de leituras” para autora?
Eu vou confessar que nunca me vi, e ainda não me vejo, como influencer. Aliás, a repercussão que a conta «The Dark Romance Queen» teve ainda é um fenómeno completamente extraordinário para mim. Mas passar de ser apenas uma leitora para uma pessoa que testemunha outros leitores a ler as suas palavras, a amar as suas personagens, a identificar-se com muitas das emoções descritas no livro é surreal. Um misto de «Uau, eu fiz isto» com «Uau…eu fiz mesmo isto?». Acho que ainda vou demorar algum tempo a habituar-me a esta nova faceta e a alguma da exposição que estou a ter.
Onze Minutos surge apresentado como o primeiro dark romance português a chegar às livrarias. O que representa para ti esse marco?
É um motivo de orgulho muito grande. Há dois anos não se ouvia falar de dark romance nem existiam livros de dark romance traduzidos. Tudo o que eu lia, lia em inglês e era difícil ter mais do que um livro de dark romance por mês para leitura com a The Reading Court (o meu clube de leitura) em português. Eu era obrigada sempre a escolher outra opção em inglês. Neste momento eu já tenho dificuldade em colocar as novidades mensais todas de dark romance no clube para ler, a Feira do Livro de Lisboa abriu um palco para vários eventos e conversas sobre Dark Romance, os leitores já falam deste sub-género com menos preconceito e mais compreensão. Saber que eu fui motor para que isto acontecesse e a minha comunidade continua a ter um papel fundamental para a disseminação deste sub-género deixa-me mesmo muito feliz e grata. Por outro lado sinto que estou a viver um momento «full circle» porque eu comecei a criar espaço para este sub-género na comunidade e agora é essa mesma comunidade que está a criar espaço para o meu livro. Espero que após o Onze Minutos surjam mais autores portugueses de dark romance e que eles sintam sempre o Onze Minutos como uma oportunidade que foi aberta no meio literário para eles também.
O livro fala de Laurell e Adrian, duas personagens ligadas por uma relação intensa, marcada por passado, trauma, manipulação e amor. Como nasceram estas personagens?
Estas personagens nasceram de forma tumultuosa e muito barulhenta. Um dia eu estava a ouvir uma música no carro e o Adrian começou a falar comigo e a partir daí nunca mais se calou. Foi ele que me contou da Laurell também, como um segredo nosso. O Adrian encarregou-me de contar a história deles que eu acredito que já vivia em mim há muito tempo. E foi isso que eu fiz. Com o Adrian sempre a falar sobre o meu ombro, claro.
Há uma frase muito forte na apresentação do livro: “O amor é sempre a arma mais letal.” Porque escolheste essa ideia para resumir a história?
Porque eu acho que subestimamos muito o amor. Em todas as suas formas e em todas as suas funções. A vida vai-nos tornando cínicos ao ponto de muitas vezes deixarmos de acreditar que o amor nos pode salvar. Acreditamos sempre mais facilmente que nos pode destruir. Nunca que pode fazer as duas coisas simultaneamente. O Onze Minutos, creio, mostra essa duplicidade do amor então pareceu perfeita para ser a frase que o apresenta.
O Adrian é apresentado como alguém perigoso, intenso e profundamente marcado. O que te interessa explorar em personagens moralmente ambíguas?
Eu gosto de personagens que não sejam totalmente boas nem totalmente más. Gosto de personagens…reais. De quem nos custa gostar à primeira vista mas que nos vão conquistando pela fragilidade que tentam esconder mas que as torna mais humanas. O Adrian, pelo contrário, passa toda a sua vida a lutar contra a sua fragilidade e nós acompanhamo-lo a aceitar que ela também tem coisas boas. Acho muito curioso que uma personagem que vai parecer um monstro para o leitor nos primeiros capítulos do livro acabe a ser o que eles mais vão querer proteger. Nota-se muito que sou fã de anti-heróis? 🙂
Disseste várias vezes que gostas de histórias que deixam marcas e arrancam lágrimas. Como autora, qual foi a cena mais difícil de escrever emocionalmente?
A cena que dá nome ao livro foi uma das que mais me custou a escrever, sem dúvida. Sem spoilers (risos) porque é uma cena emocionante e eu quero que o leitor seja apanhado de surpresa. Não seria justo, no entanto, não referir que o «Onze Minutos» foi todo ele uma viagem muito emocional e intensa. Ele guarda pequenos pedaços da Inês enquanto pessoa e não apenas da Inês enquanto escritora e serviu sem dúvida como uma prova para mim mesma de que eu consigo fazer muito mais do que me acho capaz de fazer, a maior parte das vezes.
O dark romance gera entusiasmo, mas também muita polémica e até preconceito. Porque achas que este género continua a provocar reações tão fortes?
Eu acho que em Portugal nós temos um moralismo muito marcado. Temos esta ideia que porque as pessoas consomem conteúdo que pode ser moralmente ambíguo na literatura isso é imediatamente prova de que a pessoa compactua com esse conteúdo para lá da ficção. Ao mesmo tempo acho que existe uma tentativa de estupidificação dos leitores: ou seja, achamos que o leitor não sabe pensar e ser crítico relativamente ao que lê. Na minha opinião é por isso que existe tanta polémica em torno do dark romance. Sim, é um sub-género que tem contornos bastante ambíguos, mas também é um género que nos desafia a pensar sobre situações difíceis. Que nos permite ter discussões sobre traumas, limites, o certo e o errado. Que nos permite explorar e identificar o que são «red flags». Eu sou da opinião que não devemos proibir livros: devemos lê-los e falar sobre eles.
Por outro lado acho que existem muitos livros identificados como Dark Romance que não o são e isso gera imensa confusão mesmo na comunidade. É por isso que eu defendo sempre que façamos uma boa pesquisa antes de falarmos do sub-género.
Tens trazido autoras internacionais a Portugal e acompanhado o crescimento do género. Achas que o mercado editorial português ainda estava atrasado nesta área?
Acho que inicialmente sim, estávamos atrasados. Quando eu comecei a ler Dark Romance já existia um mundo lá fora só desse sub-género. Inclusive muitos dos livros que li inicialmente só estão a ser traduzidos agora. Mas entretanto creio que estejamos a conseguir ganhar passo e acompanhar as novidades do mercado estrangeiro. Sinto que há uma demanda muito maior por dark romance agora, que as editoras estão atentas aos grandes fenómenos do sub-género lá fora e sinto também que cada vez há mais leitores.
Se os leitores fecharem Onze Minutos e levarem apenas uma ideia consigo, qual gostarias que fosse?
Gostaria que os leitores levassem consigo a certeza de que há sempre um amanhã e que, lá está: o amor salva. Que mesmo pessoas quebradas têm direito a amar e ser amadas e que muitas vezes essa noção de «ser quebradas» é mais uma perspectiva nossa que temos de nós mesmos. Nós sentimos tanto que somos assim que não percebemos que não é assim que os outros olham para nós. Desistimos de tantas coisas incríveis porque achamos que as nossas particularidades vão ser um empecilho. A maior parte das vezes essas mesmas particularidades são uma mais valia. É isso que quero que os meus leitores levem deste livro.