Ópera La Vera Costanza regressa aos palcos 200 anos depois: “Tal como esta, existem muitas obras perdidas nos acervos e bibliotecas.”

A ópera La Vera Costanza, de Jerónimo Francisco de Lima, vai ser apresentada a 3 de outubro, às 18h00, no Salão Preto e Prata do Casino Estoril. A produção do Laboratório de Ópera Portuguesa recupera uma obra estreada em 1785 no Teatro de Salvaterra e apresenta a versão levada à cena em 1789, no Palácio da Ajuda.

A recuperação resulta da investigação do musicólogo Diogo Gaio Chaves, desenvolvida no âmbito do CESEM – Centro de Estudos em Música da NOVA FCSH. A edição da partitura moderna está a cargo de João Paulo Santos.

A história acompanha Rosina, uma jovem peixeira que casa secretamente com o Conde Errico e é posteriormente abandonada pelo marido. Enquanto enfrenta sozinha a maternidade, a Baronesa Irene, mãe de Errico, tenta afastá-la definitivamente do filho e arranjar-lhe casamento com Villotto, um rico camponês. Intrigas, equívocos e reencontros conduzem a ação até ao inesperado desfecho.

A direção musical é de João Tiago Santos, a encenação de Jorge Balça e a direção de arte de Nuno Esteves. A Orquestra Melleo Harmonia acompanha um elenco formado por Sofia Marafona, Susana Gaspar, Inês Constantino, Joana Seara, Leonel Pinheiro, Christian Luján e José Corvelo.

Os bilhetes estão disponíveis na Ticketline, na bilheteira do Casino Estoril e no Cascais Visitor Center.

Acede à entrevista ao encenador Jorge Balça.

 

O Laboratório de Ópera Portuguesa encena La Vera Costanza, de Jerónimo Francisco de Lima, estreada em 1785. Por que razão esta ópera permaneceu praticamente desconhecida do público durante tanto tempo?

Houve pelo menos duas produções, uma com dois atos, outra com três atos, na altura em que foi criada. E depois, como muitas obras portuguesas, desapareceu nos arquivos. Infelizmente, ainda não temos em Portugal a prática de manter esta herança cultural viva. O Laboratório de Ópera Portuguesa vem exatamente colmatar esta lacuna, resgatar pequenas jóias da nossa coroa cultural e trazê-las ao conhecimento do público contemporâneo. Tal como esta, existem muitas outras obras que estão perdidas nos acervos e nas bibliotecas. 

 

Há características da linguagem musical de Jerónimo Francisco de Lima que possamos descobrir na encenação desta obra?

Ele está ali um bocadinho “entalado” entre o barroco e o clássico, numa época de fluxo e mudança. Na obra consegue-se ouvir algumas raízes musicais do barroco português e também uma perspectiva mais clássica. Aliás, algumas das personagens são mais barrocas e outras mais clássicas. É interessante ver essa tensão. Jerónimo Francisco de Lima foi estudar para Nápoles e trouxe para Portugal as novidades da altura, os últimos gritos da composição italiana, “aportuguesou-os” ligeiramente. Criou, assim, esta obra que segue a tradição italiana, mas que é nossa. 

Esta produção nasce de um trabalho de investigação realizado por Diogo Gaio Chaves. Como foi o processo de encontrar, estudar e reconstruir esta obra?

O Diogo estava a fazer um mestrado em Ciências Musicais. O trabalho dele passou por redescobrir esta obra e construir uma partitura unificada, porque diferentes partes estavam dispersas em acervos e bibliotecas diferentes, para que nós pudéssemos começar a trabalhar. Em cada ensaio, continuamos a repensar algumas coisas e a cortar partes, porque há muito mais material do que aquele que caberá no nosso espetáculo. 

 

Esta história é originalmente do século XVIII. O que há nesta história que continua a falar ao público de hoje? Como se consegue aproximar ao público quase 300 anos depois?

Sim. A distância já não é assim tanta. Temos no centro um conde que está preso a ideias sobre o que significa ser homem, sobre a masculinidade e sobre quais são os seus deveres enquanto nobre e conde. Essa personagem para mim é extremamente interessante porque permite ver que os problemas são os mesmos. O que é isto hoje em dia de ser homem com H grande? E aí é que eu penso que se calhar, infelizmente, não evoluímos tanto assim. Temos outra linguagem para falar disso e para o comentar. Olhamos para o final do século XVIII e vemos que já havia pessoas a escrever acerca destes temas que estamos ainda hoje a discutir. 

 

Nuno Esteves é responsável pela direção de arte. Qual é a importância da componente visual para aproximar esta obra do público? 

O trabalho do Nuno tem sido extremamente criativo e importante na criação destas personagens, porque o seu desenvolvimento está muito ligado à criação dos figurinos. Temos perucas geniais para todos os nobres, feitas em tule. Se o século XVIII, Vivienne Westwood e o movimento punk tivessem um filho,seria qualquer coisa parecida com isto.

 

Que futuro gostariam que este projeto tivesse no âmbito da investigação e divulgação da ópera portuguesa?

Esta é a terceira produção do Laboratório de Ópera Portuguesa e é a 1ª vez que se lança numa ópera mais clássica. Tenho a certeza de que o Laboratório de Ópera Portuguesa continuará a fazer este trabalho excelente e importantíssimo, e espero que haja outras entidades, nacionais ou não, a olhar para os acervos e a fazer esse trabalho de rato de biblioteca. O problema é que grande parte do material nem sequer está catalogado, e esse trabalho precisa de ser feito antes de começarmos a montar espetáculos. Primeiro, temos de saber o que existe escondido e a degradar-se nas bibliotecas e acervos, salvar essas partituras e documentos, e, depois, catalogá-los para que os artistas e as estruturas de produção possam pegar nestas obras, montá-las e trazê-las ao público moderno.

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