Orca, a identidade musical de Leonor Cabrita, lançou a 9 de setembro “Apneia”, novo álbum editado pela Facada Records, após ter antecipado o trabalho com os singles “Sobras das Sombras”, “Até Temos Pena” (ft. Yaw Tembe) e “Lugar Miserável”.
“Apneia” parte do significado da própria palavra – a suspensão voluntária ou involuntária da respiração – para construir uma ideia de intervalo, interrupção e permanência num espaço entre diferentes momentos.
Depois de “Paisagem Trânsito”, primeiro álbum editado em 2023, e do EP “Não Há Tempo”, lançado no ano seguinte, “Apneia” representa um novo capítulo no percurso de Orca, aprofundando uma escrita que parte da experiência individual para abordar trauma, alienação e os vínculos que estabelecemos com aqueles que nos rodeiam.
O álbum tem composição e letras de Leonor Cabrita, que assume também voz, piano e sintetizadores, Bá Álvares no baixo elétrico e sintetizadores, Miguel Sobral Curado na bateria, Francisco Menezes nos saxofones e Yaw Tembe no trompete e EWI. Catarina Branco, Chica e Mariana Camacho participam nos coros, aos quais se junta Sallim, que assume também voz na décima faixa do disco juntamente com Leonor Arnaut. Os arranjos e produção de “Apneia” são assinados por Bá Álvares e Leonor Cabrita.
O álbum será apresentado a 18 de setembro no BOTA Anjos, em Lisboa, com bilhetes disponíveis aqui e no dia 19 de setembro na Sala 6, no Barreiro.
O que significa para ti a palavra Apneia e porque é que este tinha que ser o título do disco?
Para mim significa o mesmo que para toda a gente: a interrupção da respiração seja voluntária ou não. Escolher este nome foi uma ideia do Bá Alvares, que trabalha comigo, porque tinha um sentido duplo. Por um lado, associado metaforicamente à ideia de interrupção quando estamos sempre a respirar. E também, para fazer a ligação com as orcas, que não respiram debaixo de água, apesar de serem animais marinhos, elas vêm à tona para respirar e depois mergulham em apneia. O conceito vem da ligação destas duas coisas.
Escolheste o teu nome artístico, Orca, unindo o final de Leonor com o início de Cabrita. Podemos dizer que Orca é uma personagem, um alter ego, uma extensão tua, ou só outra forma de dizer Leonor?
Não é uma personagem nem um alter ego. É uma identidade musical que parte das canções que escrevo sobre a minha vida e sobre questões pessoais, mas não abarca apenas a minha pessoa. Fazer música envolve sempre muitas outras pessoas e, portanto, Orca, no fundo, são as minhas canções, juntamente com as outras pessoas que contribuem para essa identidade musical.
Quando lançaste o teu primeiro álbum, Paisagem Trânsito, em 2023, disseste que as tuas canções eram “amor como forma de resistência”. Agora, com este novo disco, Apneia, achas que esta nomenclatura de amor e resistência continua a encaixar-se nas tuas músicas?
Sim, sem dúvida. A resistência está lá e o amor também, portanto acho que sim.
O que distingue o teu novo álbum, Apneia, do teu primeiro disco, Paisagem Trânsito, e do EP Não Há Tempo, lançado em 2024?
Acho que este álbum é uma continuação das outras canções. São coisas novas, mas há um processo de repetição dos mesmos assuntos. Aliás, os primeiros dois versos cantados no Apneia são: “Volto sempre ao mesmo assunto, choro sempre as mesmas dores”. Faz logo uma espécie de previsão do que aí vem.
Acaba por ser uma repetição dos mesmos assuntos, mas pensando de forma diferente sobre as mesmas coisas. É uma espécie de espiral: os temas repetem-se. Claro que é novo, no sentido em que é um disco novo e traz novas perspectivas, mas acho que está muito ligado ao que vem de trás.
Sinto isso em relação à vida no geral: as coisas estão todas muito ligadas, embora de formas diferentes e de uma maneira um pouco intemporal.
Compuseste todas as canções do Apneia. Podemos dizer que este álbum é inteiramente autobiográfico? Como é que foi transformar estas tuas experiências pessoais em canções deste disco?
Fui eu que escrevi estas canções. No entanto, não diria que são todas autobiográficas. Diria que são todas pessoais. Há canções que são reflexões sobre o mundo e sobre a forma de olhar para as coisas, mas isso não significa necessariamente que tenham a ver com a minha experiência pessoal. Muitas refletem uma experiência coletiva.
Há um lado autobiográfico, mas não diria que se restringe apenas a mim. É uma autobiografia um bocadinho mais coletiva, que vai além da minha experiência pessoal.
Quais foram as tuas inspirações para escrever as canções?
Inspirei-me na vida. Nunca sei responder muito bem sobre o que me inspira. Há, obviamente, outros músicos que me inspiram, mas também filmes, livros, conversas com amigos e histórias que as pessoas me contam sobre as suas vidas. Acho que tudo isso é inspiração.
As tuas músicas, em geral, partem de lugares muito vulneráveis. Como é explorar a vulnerabilidade em canções?
Eu não tenho muito medo da vulnerabilidade. Gosto de aprofundar esses assuntos, não só na música. Gosto de conversar sobre temas mais vulneráveis com amigos e pessoas próximas, e acho que isso se reflete nas canções.
Claro que depararmo-nos com a vulnerabilidade é, às vezes, um processo difícil, porque significa olhar para coisas que não são fáceis. Mas acho que, no geral, tenho tendência para o fazer.
Disseste que te inspiraste numa experiência coletiva. Quais são os temas que decidiste tratar neste disco?
Este disco fala de trauma, de alienação e das relações entre pessoas, não só românticas mas também de amizade e familiares. Acho que estes são os três pilares principais do disco.
Se tivesses que destacar uma música do Apneia, qual seria?
É difícil escolher, mas acho que destacava Lugar Miserável. É a canção mais revoltada, e o disco tem também um bocadinho essa conotação e esse sentimento de revolta. Portanto, acho que esta canção representa bem o disco nesse sentido.
Estudaste Jazz no Hot Club Portugal. A tua música já foi considerada uma espécie de art-pop. Disseste que Orca era uma identidade musical. Como é que descreves a linguagem e a identidade musical de Orca?
Tem influência do jazz, nem que seja pelos acordes. Mas acho que também tem muito de “música de canção”. Não sei se podemos considerar a canção um estilo, mas há essa vertente de cantautor.
Tenho alguma dificuldade em rotular-me, porque não sei bem onde me enquadrar. Também não acho que seja propriamente o meu papel ter de me enquadrar em algum sítio. Acho que a música se pode inserir em vários géneros, mas não penso muito sobre isso.
Para mim, a música é uma expressão emocional e faço-a de uma forma mais emocional e orgânica.
O que aprendeste sobre ti própria durante a realização deste álbum?
Acho que escrever música traz muita aprendizagem pessoal porque é uma forma de pôr em palavras aquilo que estamos a sentir. Não sei nomear coisas concretas que tenha aprendido sobre mim, mas sinto que o processo de criação do disco foi também um processo de assimilação de algumas questões emocionais.
Acho que isso está sempre em mutação. O disco é uma reflexão sobre o momento em que escrevi cada canção e não significa necessariamente que aquilo seja uma coisa para sempre. Acho que se aprende muito quando pensamos sobre as coisas.
Neste disco trabalhaste com Catarina Branco, Yaw Tembé, Leonor Arnaut, Salim, entre outros. Como foi construir a dinâmica de grupo com todos os teus colegas da música para a realização deste álbum?
Foi muito boa. Tenho sorte, porque as pessoas que participaram no disco se entregaram muito às canções e fizeram o melhor que conseguiram por elas. Senti que deram muito de si e, por isso, foi muito boa essa relação que se criou.
Gosto muito de trabalhar e de criar com outras pessoas, por isso acho que correu bastante bem.
O primeiro single do disco foi Sobra das Sombras. Lançaste um videoclipe desta canção que tu realizaste que cruza imagens familiares de uma cassete de 1997 com imagens atuais. O que sentiste quando viste estas imagens antigas à luz da pessoa que és hoje?
Esta cassete já existe há muito tempo e já a vi muitas vezes. Estava em casa da minha avó e, entretanto, ela passou-a para DVD. De vez em quando, punha-a a dar e ficávamos a ver. Eu cresci a ver aquela cassete.
Quis fazer essa ligação porque esta canção fala sobre a forma como as pessoas que vêm antes de nós têm ascendência sobre nós e influenciam aquilo em que nos tornamos, a forma como nos sentimos e como reagimos hoje. É uma influência que acaba por nos acompanhar ao longo da vida. A forma como crescemos e as pessoas que temos à nossa volta têm muita influência naquilo em que nos tornamos.
Quis escrever sobre isso e achei que seria giro usar aquela cassete, que já conhecia há tanto tempo, para fazer um videoclipe. Juntei as duas coisas.
O concerto de apresentação do disco vai ser no dia 18 de setembro, no Bota Anjos. O que pode o público esperar deste concerto?
A primeira parte vai contar com um pequeno concerto da Salim a solo. Depois, no concerto de apresentação, vamos tocar o disco e mais umas coisinhas.
Vamos apresentar-nos em quarteto, com a Nazaré da Silva no piano e nos coros, o Bá Alvares no baixo e o Miguel Sobral Curado na bateria. Teremos ainda dois convidados para cantar algumas canções: a Salim e o Yaw Tembé, que também vai tocar algumas músicas connosco.
Vai ser um concerto com muita gente e acho que será especial por isso, porque não há muitas oportunidades de fazer concertos com tantas pessoas.
Já lançaste dois álbuns e um EP, fizeste concertos e colaborações. Houve algum momento na música que tenhas vivido até agora, que recordes como o mais especial?
Acho que o mais importante de tudo são as pessoas com quem estamos. Sinto que, para mim, a coisa mais rica e feliz de fazer música é partilhá-la com as pessoas. Acho que isso se reflete tanto no processo criativo e na criação dos discos como nos concertos e nas conversas sobre música. Partilhar e viver estas coisas com pessoas de quem gosto e que fazem sentido para mim é aquilo que considero mais importante.
Quais são os teus planos e projetos para o futuro após este concerto? O que nos podes contar sobre próximos lançamentos e concertos?
Temos um concerto no Barreiro marcado para dia 19 de setembro na sala 6. E estamos a organizar mais algumas coisas. Mas há muitos planos para o futuro, música nova e concertos. Espero que aconteça. Ainda não posso falar sobre isso.